Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



"Uma vaga ideia do que seja pensar“

por Zilda Cardoso, em 21.03.18

 

Como não somos capazes de estar ou de ser sem pensar e já que os pensamentos se produzem ininterruptamente e em torrente, a quantidade de pensamentos produzidos - de actos de pensamento - é infinita, e constitui o que suponho ser o pensamento.

A qualidade do pensamento varia tremendamente com o ser pensante e o instante que passa e o afecta. Depende, portanto, de características pessoais e de circunstâncias.

Entre um pensamento disciplinado como o dos filósofos clássicos e o nosso palrar quotidiano e sem rumo, há inúmeras gradações de qualidade.

Como toda a gente, nasci com uma certa capacidade de pensar. Na minha torrente impetuosa diária, começa por haver um sentido. Posso querer pensar ou aprofundar certa noção mas, o que me acontece, na maior parte das vezes, é qualquer ruido ou visão, qualquer movimento subtil me toque, interfira, desvie o pensamento que se vai desenvolver noutro sentido e talvez mesmo se perca numa barafunda perturbadora.

Barafunda perturbadora… estilhaços, fragmentos tão pequenos, cada vez mais pequenos à medida que se sentem perseguidos, de tal modo que é impossível compor ou recompor com eles um pensamento coerente. Abandonar esse rumo e voltar ao início é impossível - aquele pensamento curioso ou mesmo admirável nunca mais se encontra.

Parece tudo tão difuso! O processo… como é difícil de entender!

Todo o esforço se transforma num desperdício sem que, em algum momento, tenha sido abandonada por nós, seres que pensam, a actividade primordial de pensar. Estamos ainda a ver o caos e a interrogarmo-nos sobre como foi possível ele acontecer, e porquê; o nosso pensamento parece ou fica sumido, mas nunca se perde a capacidade de pensar.

Esta é a minha experiência. Tentei a meditação para obter uma concentração que me permita não me dispersar de forma radical. E é possível. Mas … nunca ganhei o hábito da meditação para a qual é necessário um empenho considerável.

Explico: o que estava a tentar fazer no meu pensar, era aprofundar e lançar o pensamento que tivesse algum interesse para os meus familiares, para os meus amigos, para a humanidade (grandes propósitos!); pensamentos simples com origem definida, mas em que ninguém tinha pensado antes, qualquer cometimento no campo da filosofia, da lógica, da arte, da literatura… afastado do que é trivial e que os filósofos chamam “o bric-à-brac, o refugo e o lixo da nossa corrente mental”. Queria transformar isso em pensamento razoavelmente relevante.

Que bons e grandes desejos! E que bonito propósito!

A verdade é que os estilhaços que persigo e de que não consigo apoderar-me é o que sobra, é tudo com que fico depois de perseguição aturada. É tudo, isto é, é nada, menos que nada.

Lembro-me do que afirma Steiner, que cita W. Pauli, físico austríaco e prémio Nobel, a propósito de falsos teoremas que “não estão sequer errados”. É um pensamento brilhante e contento-me com a ideia de que os meus pensamentos agora estilhaçados e perdidos para mim e para todos, NÃO ESTAVAM SEQUER ERRADOS. Tão mal formulados que é impossível provar que estavam errados. Logo, não se perdeu grande coisa.

A que conclusões poderia eu chegar?

Dizem os sábios que a maior parte de nós, orgulhosos sapiens a viver neste planeta no século XXI, não tem mais do que uma vaga ideia do que seja pensar. Acredito nisso quando considero pensar como pensar. E poucos estão interessados em pensar, seja como for. Ou antes apenas  se for fácil, repetido milhões de vezes, e não implique disciplina e organização, grande capacidade mental e poder de concentração.

Já que o pensar é inevitável, o que há para escolher é a qualidade do pensar, é a categoria em que o nosso pensar se integra.

O certo é que podemos pensar sem limite sobre qualquer tema e de temas sem fim. Quero dizer, não há assuntos que não possamos rebater. Qualquer de nós. Não devemos pensar que não vamos chegar a nenhuma conclusão importante. Podemos chegar.

Todavia, as grandes mentes pensarem de forma exigente, com disciplina e concentração… tem subido valor. Os pensamentos de grande nível intelectual, disciplinados, rigorosos, originais e prolongados, quero dizer, continuados, capazes de levar a grandes descobertas são muito raros e apenas eles, os génios, os inventam e os transformam em linguagem de modo a serem aproveitados pela humanidade, para o bem de todos.

No entanto, sabemos que o que parece mais óbvio, pode revelar-se errado em qualquer momento, estamos sempre a supor e nada mais. Toda a ciência é provisória, mas talvez nos consigamos aproximar de qualquer coisa, não será acção totalmente inútil.

Quanto a mim, prometo-me, a cada passo, sair do “palrar ininterrupto do quotidiano”, cada vez mais vulgar, segundo ouço, e tentar voltar ao princípio da minha simples actividade pensadora a respeito de qualquer tema que me estimule, seguir um caminho novo ou o mesmo, eleger diferentes premissas ou considerar que não tenho cérebro suficientemente complexo (ou suficientes conhecimentos) e ficar por aí. Além do mais, não sei de todo se aquilo que acabei de descobrir tinha sido pensado antes por outrem. E se havia alguma realidade em tudo isso. Nunca terei a certeza de que a conclusão a que cheguei contém qualquer resquício de verdade. E, quem sabe, haverá afinal conhecimentos que me sejam inteiramente vedados?!

Não temos maneira de entender o pensamento senão usando o pensamento: isto é outra dificuldade apontada por Steiner. Não há distância entre o sujeito e o objecto, aprendi que tem de haver para chegarmos ao conhecimento. Pensamos o pensamento pensando, que esquisito! E acontece pensarmos em objectos que nunca existiram, disto tenho muita experiência. Penso na perfeição e na verdade, por exemplo, com muita frequência. Que são o quê? Que existem onde?

Provavelmente, o termo pensamento está mal definido. Steiner admite que o pensamento é a nossa essência, visto que morremos quando deixamos de pensar, apenas deixamos de pensar quando morremos tal como quando deixamos de respirar.

Não conseguimos deixar de morrer quando deixamos de pensar. Apenas conseguimos deixar de pensar quando morremos. É assim?

Pergunto: a nossa essência será apenas isso… o pensar?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:22





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D