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Tenho mais que fazer...

por Zilda Cardoso, em 15.12.14

Tenho mais que fazer do que aturar

a falta de loucura dos outros”,

apareceu no Facebook, há dias. É uma frase admirável que ficou a ecoar em mim, a recordar-me acontecimentos, palavras que ouvi, que li… Uma realidade a dar-me razão.

E fiquei a dar-me razão.

Em quê? Antes de mais, pôs-se para mim, ainda uma vez, a problema dos limites. A este propósito, devo interrogar-me se vale a pena ir ao fundo das questões. E, como sempre, concluo que vale. Por isso, tenho estado a tentar compreender o que ali – naquela frase - se diz para além da disposição evidente, do humor.

Procuro perceber, mesmo calculando que não vou chegar onde gostaria, isto é, ao fundo fundo, à verdade.

Depois de experiências várias, reconheço que é necessário ser um pouco louco, não muito. Frases estúpidas, estas, porque são sem sentido. Temos apenas um problema, um único. É, como disse já, o dos limites que não posso evitar querer aprofundar.

Mas por que hei-de necessitar de alguma loucura para entender seja o que for? Ou para me comportar de maneira certa? Para chegar a conclusões equilibradas?!

Para já, significa que quando estudo com desejo de chegar a tal tipo de conclusões, desisti previamente de procurar conclusões verdadeiras.

É isso. Neste tempo, já somos tão inteligentes que sabemos não querer mais encontrar conclusões verdadeiras. O que representa um grande avanço em relação a qualquer pensador dos séculos anteriores que baseava a sua reflexão nas conclusões rigorosas dos cientistas desejosos da verdade e convencidos de que com incomplacência a encontrariam.

Então a ciência já não procura a verdade, mesmo a antiga Ciência (é melhor escrever com maiúscula) que era a física matemática, a única que parecia poder dar respostas/verdades.

Portanto, a questão de fundo quanto a conhecimento, a sabedoria, a ciência, parece ser encontrar as fronteiras com que se deve contar para chegar a conclusões equilibradas. Até onde posso ser louca, até que ponto posso ser ajuizada, sem prejudicar, sem destruir, sem fazer mal, sem me desviar do caminho da verdade… provisória?

Pois, verdade provisória. Junto argumentos num sentido, junto argumentos no outro, rejeito todos depois de pensar arduamente: o equilíbrio tal como a verdade, está num fundo obscuro e mesmo tenebroso que se vai afastando à medida que me aproximo do conhecimento que procuro no meio que me rodeia. Ou no mundo onde estou, que também sou.

Então, é assim: verdade definitiva, não, nem pensar; verdade provisória? Difícil. Verdade equilibrada?

Aí, lembrei-me da biologia. Pensei que talvez devesse estudar aquilo de que não sei nada, rien de rien. O que me confunde. Acima de tudo por saber que é a ciência que se mantém numa espécie de estrelato cintilante, há uma porção de anos. E que levou ao nascimento de muitas novas disciplinas, por confluências e encruzilhadas. Uma ciência em fabuloso progresso.

É certo ter provocado uma revolução científica e é fácil ver que influencia a maneira de ver o mundo de cada um de nós e da sociedade em geral: a filosofia, a literatura, o cinema, a música, seja, a maneira de nos expressarmos e a forma da sociedade se organizar… Parece que tudo depende de uma ciência humana. Não de uma Ciência propriamente dita.

Gostava de saber falar disto. Mesmo sem a conhecer bem nem próximo disso, já modificou a minha maneira de pensar e de escrever. Porém, receio… não sei em que termos… fico incerta quanto ao que posso entender de um objecto que não para (pára) de se modificar, sendo que eu, que a observo e estudo, também estou permanentemente em desenvolvimento. Como tudo o que me rodeia. E em interacção com… vamos ver… entendi que somos formados por cerca de um milhão (?) de genes que interagem entre si e com o meio ambiente. Se cada gene for uma instrução, haverá um número imenso de combinações possíveis. E se possuímos um cérebro com oitenta e seis biliões de neurónios (diz-se na internet), e dez mil conexões, complexo, enorme, pesado, a nossa capacidade de entender a vida e o mundo parecia dever ser grande.

O que vislumbrei de biologia e de genética, leva-me a pensar com Waddington e Steiner, no que deve ser entendido como característica dos seres vivos.

Que importa procurar a verdade definitiva ou a verdade provisória? A verdade não é atingível. Porque o que é característico dos seres vivos é uma “estabilidade dinâmica”, através de um “processo de transformação estável”. Há a mutação aleatória e a adaptação evolutiva, mas o mais importante será renovar as reservas de variação já existentes na população. Não é fácil entrar nisto: “reservas de variação!”.

E, quanto a mim, nem sequer haverá interesse em atingir um equilíbrio entre loucura e falta de loucura, um equilíbrio estável. Atingir um estado de equilíbrio não é próprio dos seres vivos, do homem. Os seres vivos continuarão a evoluir, vamos continuar a evoluir porque é isso viver. Só precisamos de estímulo e de “stress”.

 

 

                                                     

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publicado às 19:15





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