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Vou mostrar como se colhem as castanhas, mesmo em soutos de bom tamanho como este da Quinta do Casal, no Alto Minho.
Os trabalhadores abrem os ouriços do chão recentemente caidos dos castanheiros e esmagam-nos com o calcanhar bem calçado e depois com as mãos enluvadas apanham os frutos para um balde de plástico. Os frutos do balde são despejados no pequeno carro parado no sítio da apanha e levados para serem pesados e vendidos logo a seguir, à porta.
É um processo demorado, mas parece que não há outro.
E seria penoso se as mulheres que fazem a colheita se não divertissem todo o tempo na tagarelice mais desenfreada.
Não se dão bem com o silêncio e, por isso, transformam qualquer pequeno acontecimento numa festa.
Convidaram-me a participar nela, na sua festa de palavras e de dizeres, não na apanha. Que essa é para elas e, quanto mais tempo durar, melhor.
Tudo isto se liga com a sabedoria feminina. Ou com a vulnerabilidade do calcanhar?
Há dois conceitos na filosofia budista que aparecem frequentemente na fala e na escrita dos seus pensadores: humildade e compaixão.
Pensei que era irrealista estar a recomendar, entre nós, estes estados de espírito. A cultura ocidental impõe a procura do sucesso, do pódio, das medalhas e para isso é necessário não ser humilde, não ter compaixão.
Não via conciliação possível, se bem que essa forma de sabedoria tão antiga seja cada vez mais bem sucedida no Ocidente.
Quis aprofundar o assunto, li alguns livros.
Le moine et le philosophe, resultou de conversas entre o filósofo francês Jean-François Revel e o seu filho, doutor em biologia, monge tibetano, Matthieu Ricard. O objectivo é esclarecerem o que é o budismo exactamente, e como é possível que desperte tanto interesse num contexto, no seu todo, desfavorável.
E lá encontrei resposta para as duas velhas questões que me preocupavam.
Ser humilde não é sentir-me inferior, mas libertar-me da importância de mim (talvez para regressar a um estado de simplicidade natural).
E compaixão é um estado de espírito não violento, não ofensivo, não agressivo em que há respeito pelo outro, sentido de responsabilidade e de compromisso.
Tenho capacidade de confrontação e mesmo de represália, mas decido não agir dessa forma: isto é ser humilde e usar de compaixão.
Talvez afinal seja o momento bom para mudarmos os nossos hábitos mentais.
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