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Thirteen laughing at each other

por Zilda Cardoso, em 21.11.08

 

Gostava de poder satisfazer aqueles que com simpatia me sugeriram voltar a escrever sobre a exposição desse artista interessantíssimo que é Juan Munõz.

 

Não sei discutir aspectos formais e técnicos da obra; apenas como espectadora tocada, posso dizer o que sinto. Não voltei ao Museu de Serralves, mas sei que vou voltar para me surpreender com este "teatro escultórico".

 

E como prometi lerei, já comecei a ler, os peritos.

Sobre o que provoca riso ou inquietação leio de Manuela Mena que o riso ocorre em Three laughing at one… "As três figuras estão situadas no alto, acima do observador, e os seus tronos elevados destacam-nas como especiais e superiores. O riso delas não é sinal de alegria, antes resulta de pensamentos absurdos ou sinistros; mais uma vez, isto provoca inquietude no observador.”

 

 

 

A autora diz que, neste trabalho exemplar das ideias do artista, as personagens se mantêm no seu próprio mundo: não iniciam uma relação com o espectador nem permitem que os espectadores participem do seu riso. Talvez, como nos é sugerido, “o comportamento das personagens esteja relacionado com alguma coisa mais profunda e perturbadora – um comentário sobre a incerteza do nosso destino.”

Mas, por que razão o riso não é resultado de alegria? Pode ser…não? Não estamos permanentemente a pensar na incerteza do nosso destino. Vamo-nos rindo e alegrando. Admito que aquelas personagens não estão divertidas.

Porém, há um caso que gostaria de lhes contar. Nem toda a gente sabe, mesmo portuenses, que há uma instalação permanente de Munõz no Jardim da Cordoaria desde 2001, em frente ao Palácio da Justiça. Chama-se Treze rindo-se uns dos outros - são figuras que passaram a fazer parte do nosso mundo, da cidade. A instalação é constituída por quatro elementos, cada um, um trecho de degraus de um auditório ou de um estádio. Estão três figuras em cada uma de três peças e quatro numa outra– por alguma razão o autor quis que fossem treze.

Proponho que observem: vejo que elas têm muito a ver com silêncio e, mesmo no jardim, estão em silêncio, mesmo rindo-se estão em silêncio; se chorarem é em silêncio, se gritarem é em silêncio. Têm com certeza muita vida interior, e estão voltadas para o que acontece naqueles degraus, pouco lhes interessa o que se passa mais longe. E ainda bem: se reparassem ficariam tristes, não encontrariam de que se rir.

Neste momento, para nós, talvez tivesse sentido impressionarmo-nos com o mau odor que existe por ali e torna desagradável o estar num jardim-de-estar. E não valha a pena desassossegarmo-nos com o nosso destino.

Acho que neste trabalho, as figuras estão alegres, brincalhonas. Riem-se daquele que caiu e está de pernas para o ar nos degraus, enquanto eles estão de pés vagamente nos degraus, sentados ainda que instáveis.

Apesar do que Manuela Mena afirma ser exemplar das ideias de Munõz, acho que estes se riem sem pensamentos sinistros. Um deles caiu, os outros dois ou três riem-se (também pode ser: o outro caiu, os dois ou três riem-se) e haverá alguma perversidade nessa atitude, mas parece-me que há sobretudo uma infantilidade ou uma maldade ingénua de filme cómico... Não me provocam inquietude.

Tive vontade de ler alguma coisa do escultor e encontrei no catálogo de Serralves o escrito de uma conferência proferida no Isabella Stewart Gardner Museum – fiquei deliciada. É um homem extremamente inteligente que sabe pensar e escrever. Ele propõe-se falar sobre um desenho de Bellini exposto no Museu, e termina assim:

“Mas então todas essas palavras e todos esses conceitos, todas essas palavras que agora escrevo em silêncio e que vos leio alto não me vão ajudar a compreender, nem mesmo a recriar, esse instante em que pela primeira vez entrei numa sala do Gardner Museum e contemplei um delicado e pequeno desenho de um jovem turco feito por Gentile Bellini e pensei, só por um instante, que era perfeito.”

 

 

 

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publicado às 16:08




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