Apenas hoje comecei a ler o mais recente livro de Mia Couto JESUSALÉM. É uma obra destinada a enorme sucesso, apresentada por Laurinda Alves há pouco tempo, e que contém citações de alguns dos meus autores preferidos.
Encanta-me sobretudo a "doçura imensa do regresso" a Sophia que costuma contar-nos os seus desejos, os seus amores, a sua pátria como um sonho de que nunca acorda, refazendo assim o nosso.
A pensar nestes autores, conto o que aconteceu hoje no meu lugar.
Perdi o mar, toda a manhã. Porém, ao princípio da tarde, saltou ele vindo não sei donde, sorridente, brilhante, sem sombra de culpa, tranquilo.
Senti-me logo jovial. As gaivotas começaram a deslizar para norte e a dar-me a ideia de que podia usar o mar como meio de fuga já que não sabia acompanhá-las voando muito por cima dele. Iria nadando submersa até muito longe, momento em que subiria à superfície, no lugar de uma ilha amparada por seixos lisos, redondos e ovais, esguios e roliços, claros todos, feita de areia fina e limpa, pouco salgada, com árvores tão belas e verdes, que eu via agora deitada de costas, no céu azul.
O mar continuou a enfeitiçar com os seus brilhos e rebrilhos, vistos do outro lado, as suas cintilações prateadas na superfície, e eu também do lado de lá estarei com os meus silêncios.
Não quero regressar, porque na ilha não há solidão, ela está cheiinha dos silêncios musicais de que falo… que nunca são vazios porque durante a manhã tive tempo de os encher a meu bel-prazer. Naturalmente, com os sons de que gosto e com outros delicados e rendados detalhes.