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B U R L E S C O (1)

por Zilda Cardoso, em 19.02.09

 

Horas-a-passarem-depressa, é um acontecimento que não me incomoda em particular; nem me amotina que os dias se vão do mesmo modo… e os meses... mas, os anos, sim. Anos-a-passarem-com-a-celeridade-de-ultimamente, afecta-me muito.

Acontece que, de surpresa e à socapa, quero dizer, sem que eu dê por isso, os anos atingiram um soma elevadíssima; o que em verdade não pode ter nada a ver comigo.

Sobressaltando-se com o meu sobressalto, há pessoas que me perguntam quais são os inconvenientes de ser mais velho. Eu respondo com as vantagens, que são algumas e consideráveis.

Para já, não me sinto ”a empatar”: estou muito ocupada, não tenho espaços vazios, a vida flui. Deixo-me viver e, o que é mais importante, deixo que os outros vivam. Sou muito feliz com este arranjo.

Quando era jovem, quereria conquistar o mundo; já não quero. Nem ser dona dele. Tenho uma coisa maravilhosa e compensadora: um deus, um deus maior que, se bem que tenha criado tudo à minha volta – seres animados, inanimados e desanimados - tem uma nítida preferência por mim. Sou sua filha dilecta, nada de mal me pode acontecer. Ele garante-me o bem e a justiça.

Perguntam-me também por que razão só agora escrevo. Começa por não ser verdade: escrevo desde que aprendi a escrever. Era meu hábito criar pequenas histórias, algumas para crianças, poemas sofridos, frios ensaios, artigos provocatórios de intervenção social, relatos de viagens, cartas fraternas, histórias próximas de uma realidade amalgamada com fantasias desenfreadas. Porém, enfim, histórias que são também história e que ficarão como documentos de uma época.

Acho divertido trabalhar a linguagem, criar a esse nível. Isso gostaria de ter sabido fazer bem. Nunca me interessei por romances, não me agradou escrever romances que, para mim, são histórias enredadas, (não me compreendam mal), próximas do mexerico mais ou menos romântico, em que nunca quis colaborar.

O que não quer dizer que não tenha uma admiração imensa pelos romancistas, pelo seu trabalho, pela imaginação, pela originalidade, pela disponibilidade e exposição, pelos conhecimentos que revelam, pelas suas preocupações com o mundo, pelas opiniões por que se responsabilizam, pelos valores que divulgam e encarecem, pelos objectivos, pelos afectos que dão a partilhar, pelo espaço que oferecem para nossa reflexão.

Através deles, que não pretendem encontrar soluções para nenhum problema, podemos chegar às verdadeiras questões… E é isto que os torna fundamentais. Como de resto … o são todos os verdadeiros artistas.

Quanto a mim, tenho ainda algumas coisas, alguns pormenores para contar.

 


(continua no próximo número)

 

 

 

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publicado às 21:45




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