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Contrariamente ao que sempre disse, afirmo hoje que a rotina é a coisa mais saborosa, tranquilizante e saudável que me foi dado descobrir. O que de melhor poderia ter na minha vida.
Ninguém precisa de mudar todos os dias o que veste, o que come, o caminho que percorre, o pensamento que lhe acode… Ninguém precisa de alguma diferença dessas para se sentir feliz.
E todos são felizes com a rotina, não é?
Acho que tenho vivido uma vida agitada. Não, não é isso, não é assim impetuosa!
No entanto, grande alvoroço aconteceu à minha volta, em muitos momentos reais. Foram guerras e conciliações, terramotos e incêndios, ondas gigantes e inundações assustadoras… e também coisas boas e belas.
Assisti a reviravoltas de toda a ordem. Vi o fim da revolução soviética, coisa que não julgava possível e assisti ao derrube da suave ditadura do Estado Novo… que não me pareceu nunca realizável senão alguns dias depois de o ser. Ainda me parece um acontecimento de fantasia, acentuada a ideia com a leitura do excelente livro de Lídia Jorge Os Memoráveis.
Assisti a revoluções importantes no campo da técnica e da ciência. Descobertas extraordinárias quase transcendentes que nos fazem viver mais, não digo melhor. Talvez melhor também.
Foi conferido um Prémio Nobel a um escritor português e dei conta da atribuição de inúmeros prémios importantes a compatriotas não apenas a escritores mas a artistas, a arquitectos, a investigadores da ciência, a pensadores, a desportistas…
Vi Eusébio ser colocado no Panteão Nacional - apenas modificando na ocasião o meu conceito de herói nacional - como exemplo de excelência profissional e humana. E soube doutros portugueses considerados os melhores do mundo: jogadores de futebol e treinadores; e ganhadores de medalhas de ouro aqui e ali, em vários desportos… E até tivemos um especial “special one”, na sua área efectivamente admirável, único.
Para dizer que, por exemplo, os portugueses têm sido relevantes empreendedores; de formas diferentes, têm realizado coisas brilhantes e movimentadas, romperam estereótipos e tiveram procedimentos fora do comum…mesmo muito depois de ter passado o tempo dos descobrimentos marítimos e dos poemas épicos de louvor à excepcional grandeza dos seus feitos.
Todo este movimento me lembra o filósofo do devir Heraclito, de Éfeso, colónia grega (Itália), que viveu no ano 504 a.C. para quem o universo muda e se transforma infinitamente a cada instante. Dizia que há um dinamismo interno que o anima, que tudo é movimento, que o sol é novo todos os dias, que não podemos banhar-nos duas vezes na mesma água de um rio… essas coisas que todos repetem sem entender muito bem. Para ele, tudo o que é fixo é ilusão. O nosso pensamento deve participar do pensamento universal. Da guerra entre opostos, sairá o conhecimento, pareceu-me certo.
Porém, hoje, talvez apenas hoje, admito outra coisa, contrária. Neste dia, acredito na permanência, no ser, no uno. Parece-me que só se pode ter conhecimento do que não muda. Disse Parménides: “o ser é, o não-ser não é”, isto é, não existe. Existe o que é. Quem pode duvidar?
Parménides de Eleia, colónia grega (na Turquia) onde viveu cerca do ano 515 a.C., era o filósofo do ser e da permanência.
Mas vamos repetindo as palavras deles, como oraculares. Como se só pudesse haver conhecimento do imutável, da substância que permanece oculta sob as aparências da mudança.
Temos que fazer uma escolha: sim ou não. Depois do que… fica tudo na mesma, sem dúvida, seja o que for que tenhamos nomeado. Porque ninguém compreende a diferença.
E, por tudo isso, é bom estar quieto e repetir o mesmo, o repetido. O expressivo redundante. Não ter nenhuma ideia nova, não imaginar coisa alguma, não falar nem mexer uma palha. Não tomar partido, não executar nada que seja dissemelhante, novo, original, não quebrar a rotina, em nenhum momento seguir a moda…
Por outro lado, NÃO HÁ DESCANSO POSSÍVEL.
Sim ou Não? Ser ou Devir? Rotina ou rotura?
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