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Trago os olhos cheios desta paisagem… De tal modo preenchidos que não sei se caberá neles alguma outra substância, por muito pequena. Os meus olhos estão presos ao mar e ao que o contém: o céu, a praia, o horizonte… o que conheço de belo, de atraente, de estimulante, de lúdico e de sério, de surpreendente e de inesperado, tudo, está ali.
Como posso desprender-me disto?
Ao falar de mim, ao evocar episódios da minha infância, da adolescência, da juventude… os mais espirituosos, falo sempre dele.
Não me importo de ficar por perto para sempre. Há tantas recordações e promessas sempre cumpridas por ambos...
Em momentos, vejo a água prateada quase lisa, limpa e brilhante numa faixa larga desde o sol-próximo-do-poente até aqui, aos meus pés. Noutras ocasiões, há milhares de estilhaços de vidros que reverberam, em permanente agitação.
Ontem, deste lado, estava sereno, sem cintilações com excepção de um espaço circular, ali a meio, uma arena. Vê-se que tem qualquer coisa que o perturba sob a superfície e o faz estremecer, quebrar a pequena ondulação, espumar ligeiramente, mudar de cor, modificar a forma, como se aquele redondo fosse um lugar furtivo, minado de segredos, coisas ocultas.
Passo muito tempo a tentar adivinhar o quê; que coisas ninguém pode saber.
É assim que fico com os olhos presos no lugar.
Mas hoje é dia de haver espelhos despedaçados, aos milhares, em grande agitação, no mesmo espaço redondo. Vêm com as ondas, há algumas ondas, partem-se mais contra os rochedos como as conchas e seguem um seu caminho até à praia. Mas na praia, não ficam espelhos, mas gotas de água, pingos e nada mais. E quando as ondas se vão, a areia permanece molhada.
Ocasiões há em que o mar me faz esgares, vejo isso. Eu queria que as minhas palavras tivessem energia bastante para descrevê-lo, é divertido.
Talvez fique triunfante por eu não compreender, por mais que o olhe e observe. Acho que há muita vontade de destruição que não é maldade, e não é sequer desprendimento.
Há ainda ocasiões mais raras em que fios finíssimos de sol, extremamente luminosos, se introduzem na água e ficam de pé e é o movimento da água que os estremece e os fragmenta. E pode ser o bater de milhares de asas de minúsculos pássaros o que provoca o movimento suave da água.
O mar repete permanentemente os mesmos gestos, só que diferentes. Além da beleza, é o que admiro.
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