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O Prefácio de Agustina

por Zilda Cardoso, em 02.05.17

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(...Continuação)

No fim, entendiam-se: o que tornava fácil o relacionamento e a comunicação entre todos; era também muito interessante e curioso esse entrelaçar de vidas. Apetece-me dizer que as questões não se resolviam a tiro, como nos filmes de cow-boys ou nos actuais de investigação policial e criminal, mas com muito choro e arrepelar de cabelos, gritos e correrias, contendas e juramentos, bisbilhotices e clamores, carnavais, e tudo isso que era real constituía espectáculo para os vizinhos que não ficavam indiferentes. E a cena, qualquer cena, ficava a fazer parte também da vida dos outros, não era representação, não era arte, não era teatro. Era a vida real, a vida comum, simplesmente comum.

Havia tudo naquela rua, foi também por isso que lhe chamei comunidade: todos os serviços eram ou podiam ser ali prestados. Desde os da Igreja da Lapa onde governava o admirável Sr. Padre Luís, do hospital e do cemitério, do consultório médico do Dr. Azeredo Lobo, da padaria do Sr. Menezes, das inúmeras mercearias, das lojas de miudezas e fazendas, do carvoeiro, da casa do Povo, da farmácia do Sr. Tello da Fonseca, da funerária, da pichelaria, da oficina de automóveis, da fábrica de malhas de S. Brás do Sr. Queiroz, da esquadra da polícia, da bruxa, do curandeiro, da médium, do nudista… Do homem dos 7 instrumentos aos ceguinhos que tocavam violino, ao fotógrafo ambulante e às ciganas que liam a sina na palma da mão…aos espectáculos de rua - ao teatro de fantoches, o urso bailarino….não… não era preciso sair dali para coisa alguma de nenhuma ordem. Era um mundo - um estreito espaço entre o Bonjardim e a Lapa  - que se abria apenas quando era muito preciso…

O que lhes conto não é ficção, falo de acontecimentos e informo sobre serviços que já se não prestam do mesmo modo. Não fantasiei histórias, ouvi contar e conto algumas, inteiramente baseadas na realidade, que a memória guarda, protagonizadas por pessoas reais transfiguradas aqui em personagens de histórias. Na verdade, de História.

Por isso, estas são páginas vivas da história portuense. É por essa razão que é ainda possível criar a partir delas – filmes, desenhos, pinturas... Ao lê-las, dar-se-ão conta das transformações materiais e de mentalidades que foram ocorrendo não apenas nesta rua. Sem dúvida, alguma coisa melhorou como o nível económico dos moradores, o que não é pouca coisa.

Uma reflexão sobre esta forma de viver, sobre esta realidade, pode ajudar-nos a construir uma realidade melhor e mais aceitável.

Porque o que se sente na vida de hoje e se lamenta é a falta de emoção, daquele sentimento que dava calor, expressividade e certa qualidade colorida à vida da gente naquele troço da cidade.

Quem me dera que Agustina, a quem continuo muito grata por aquele texto, estivesse aqui hoje para eu poder corresponder ao sorriso que sempre lhe vi.

À minha amiga Gabriela Gonçalves grande fotógrafa amadora, agradeço a excelente fotografia da Escola da Lapa que permitiu fazer da capa uma coisa bonita, graças também naturalmente ao arranjo gráfico da editora.

Para a Laurinda Alves, que todos conhecem como jornalista excepcional, escritora, professora universitária, grande amiga que tudo faz, quero dizer-lhe que… não esquecerei. A Laurinda é uma das 3 pessoas com quem estabeleci desde as primeiras palavras suas, ouvidas ou lidas, uma ligação de grande empatia - destinada a durar a vida toda. Aquele abraço veio nesse momento ou com esse momento e nunca mais se desatou.

Finalmente, é à Afrontamento e ao seu director Dr. José Ribeiro que devo os meus agradecimentos calorosos pelo interesse demonstrado e a paciência com que me aturou durante meses. E a todos que participaram com o seu trabalho neste trabalho, à Livraria Bertrand e aos amigos que vieram assistir a esta apresentação… muito obrigada.

 

Apresentação da segunda edição do livro A Rua do Paraíso, na Livraria Bertrand, Porto.

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publicado às 17:00





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