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O meu mar

por Zilda Cardoso, em 07.05.17

DSC05689.JPG

 

Não creio que este mar seja arrogante, como dizem. O caso é outro.

Pode dar essa ideia quando se zanga e se atira contra os rochedos, lhes bate e os reduz, de facto, espatifando-os em mil pedaços que espalha e finalmente fixa noutros pontos. Onde acabam por perdurar durante séculos ou milénios.

 Continua a bater-lhes mesmo depois de minúsculos e frágeis como os vejo, de rastos.

Não! Tanta maldade não é própria do meu mar, eterno objecto de contemplação e de amor (amamos o que nos é próximo).

De que se trata?

Vi-o tranquilo, dias e dias, como se nunca tivesse sido doutra maneira. E habituei-me como se não pudesse ser de outra maneira! Macio, ligeiramente ondeado, (oh muito ligeiramente!), doce e firme, é assim que ele é. Só assim o compreendo.

Um barco minúsculo e branco parece ter nascido ali, em frente a mim, a alguma distância, oscila um pouco com a música que combina sons e ritmos de embalar. Mal se ouve, mal a ouço. E não adivinho o que, quem estará a ser baloiçado, talvez um poeta inglês romântico. Shelley?

Não é o barco da viagem. Acredito que se eu quisesse , podia caminhar sobre esta água azul, quieta e segura de si, absurda mas brilhante, sempre brilhante, com facilidade, até ao horizonte que é o limite da imensa superfície fluida. E que a rodeia como um muro.

O caminho que eu seguisse podia ser o caminho marítimo para a minha India ou para outro lugar dos que preenchem o meu imaginário mítico.

De pé sobre o muro, veria o que nunca vi, mas sempre desejei ver. Espreitaria o outro lado por quanto tempo precisasse para entender, ainda que não quisesse entender. Queria que fosse um mundo exuberantemente transcendente, incomparável e desconhecido. Que permaneceria desconhecido: a única forma de me não decepcionar.

Mas se ele, arrogante ou não, se zangasse, como é dito que acontece, enquanto eu estivesse no muro?

Impossível, eu nunca estaria no muro. Não pretendo estar  nem não estar. Seria o muro dos anseios, dos desejos contidos. Ou apenas o lugar donde poderia perscrutar para além, não descubro como, mas com uma curiosidade imensa. Alias, não quero senão ir indo, como disse.

Pesquiso muito este gigantesco horizonte que, por vezes, não é bem um muro nem uma linha pura de limitação entre o mar e o céu. Há, muitas vezes, manchas cinzentas, pinceladas em vários tons de branco ao longo de todo o espaço longitudinal que tenho o hábito de ver como um muro. E pergunto-me o que aconteceria se ele se rompesse num determinado ponto... Seria esta porção invadida pelo que está do outro lado? Ou este lado verteria para o outro? Escoaria este fantástico fluido azul e ficaria o quê aqui?

Se fosse a caminho do horizonte ou da Índia sobre o mar danado, com espuma e raiva e fúria e não apenas a gentil renda branca e ondulada a contornar o rochedo acastanhado … se fosse assim a caminho, a aventura seria muito mais divertida no sentido de diversa e menos poética.

“We are such stuff as dreams are made on."(Shakespeare)

E tudo não passa de um infinito tédio.

Não creio que este mar seja arrogante, como dizem. O caso é outro.

Pode dar essa ideia quando se zanga e se atira contra os rochedos, lhes bate e os reduz, de facto, espatifando-os em mil pedaços que espalha e finalmente fixa noutros pontos. Onde acabam por perdurar durante séculos ou milénios.

 Continua a bater-lhes mesmo depois de minúsculos e frágeis como os vejo, de rastos.

Não! Tanta maldade não é própria do meu mar, eterno objecto de contemplação e de amor (amamos o que nos é próximo).

De que se trata?

Vi-o tranquilo, dias e dias, como se nunca tivesse sido doutra maneira. E habituei-me como se não pudesse ser de outra maneira! Macio, ligeiramente ondeado, (oh muito ligeiramente!), doce e firme, é assim que ele é. Só assim o compreendo.

Um barco minúsculo e branco parece ter nascido ali, em frente a mim, a alguma distância, oscila um pouco com a música que combina sons e ritmos de embalar. Mal se ouve, mal a ouço. E não adivinho o que, quem estará a ser baloiçado, talvez um poeta inglês romântico. Shelley?

Não é o barco da viagem. Acredito que se eu quisesse , podia caminhar sobre esta água azul, quieta e segura de si, absurda mas brilhante, sempre brilhante, com facilidade, até ao horizonte que é o limite da imensa superfície fluida. E que a rodeia como um muro.

O caminho que eu seguisse podia ser o caminho marítimo para a minha India ou para outro lugar dos que preenchem o meu imaginário mítico.

De pé sobre o muro, veria o que nunca vi, mas sempre desejei ver. Espreitaria o outro lado por quanto tempo precisasse para entender, ainda que não quisesse entender. Queria que fosse um mundo exuberantemente transcendente, incomparável e desconhecido. Que permaneceria desconhecido: a única forma de me não decepcionar.

Mas se ele, arrogante ou não, se zangasse, como é dito que acontece, enquanto eu estivesse no muro?

Impossível, eu nunca estaria no muro. Não pretendo estar  nem não estar. Seria o muro dos anseios, dos desejos contidos. Ou apenas o lugar donde poderia perscrutar para além, não descubro como, mas com uma curiosidade imensa. Alias, não quero senão ir indo, como disse.

Pesquiso muito este gigantesco horizonte que, por vezes, não é bem um muro nem uma linha pura de limitação entre o mar e o céu. Há, muitas vezes, manchas cinzentas, pinceladas em vários tons de branco ao longo de todo o espaço longitudinal que tenho o hábito de ver como um muro. E pergunto-me o que aconteceria se ele se rompesse num determinado ponto... Seria esta porção invadida pelo que está do outro lado? Ou este lado verteria para o outro? Escoaria este fantástico fluido azul e ficaria o quê aqui?

Se fosse a caminho do horizonte ou da Índia sobre o mar danado, com espuma e raiva e fúria e não apenas a gentil renda branca e ondulada a contornar o rochedo acastanhado … se fosse assim a caminho, a aventura seria muito mais divertida no sentido de diversa e menos poética.

“We are such stuff as dreams are made on."(Shakespeare)

E tudo não passa de um infinito tédio.

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publicado às 17:55





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