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Este ano, o mês de Agosto é muito longo, muito mais longo do que qualquer dos de que me recordo.
Os dias têm muitas horas ou uma longa duração - é inconcebível - nunca mais chega a ocasião de descansar, nunca mais escurece e vem a impressão de finitude, a sensação de que uma fase do nosso dia e da nossa movimentada vida terminou.
Eu aprecio este instante que me parece raro, quando o mundo desaparece ou o que conheço dele - o feio e o bonito, o quente e o frio, o verde e o azul, o brilhante e o sombrio - e fica tudo igual.
Apesar de os dias serem compridões e díspares como referi… as semanas são todas iguais, quero dizer, igualmente desiguais já que num dia há nevoeiro lilás, no outro há ventania fria, no seguinte chove e isto sem ritmo certo, sem um padrão que nos permita calcular o que vai acontecer na semana próxima em termos de tempo ou de clima, melhor dizendo, de whether. Quanto a duração é me difícil acreditar que é sempre a mesma à roda do ano... cada semana tem sete dias, cada dia vinte e quatro horas. Estão a ver, não é possível, pois não?! Não é essa a sensação que tenho, não é isso que sinto e, por isso, não pode estar certo (na verdade são coisas que em parte inventámos, em parte observámos).
As semanas, as deste mês, entenda-se, também terminam com dificuldade e eu já começo a querer executar tarefas marcadas na agenda para Setembro, absolutamente convencida de que Agosto terminou há muito. E nem mesmo a consulta do calendário me convence.
Acaba por me convencer, claro, pois que o ser já Setembro em Agosto é somente o meu desejo de voltar à racionalidade, de sair da barafunda deste mês inadmissível, supostamente um mês/tempo de férias e de brincadeiras, de praias e de jogos, de viagens, de visitas divertidas e de conversas tolas no sentido de que não-são-para-levar-a-sério. Ando perdida, deveras.
É muito perturbador!
Será fácil explicar ao meu neto de nove anos, frequentador de escola muito conceituada, que é necessário estar bem preparado cientificamente para a vida tal como a organizámos; e que isso é fundamental para viver na nossa sociedade conforme é, culturalmente. E que requer esforço. E como lhe hei-de contar que na sua escola, possivelmente noutras, ensinam o que não é verdade acerca da duração dos meses e dos anos, das semanas e dos dias agostinianos? De que modo explicar?
E de que estou eu a falar?
Falo de emoções, comparo com conhecimentos racionais.
Posso ir muito longe e fundo e tentar aclarar o que é a verdade, o conceito. Todavia, quero tagarelar com ele, não enunciar noções, mais ou menos filosóficas, inevitavelmente arrevesadas… que não compreenderá.
Julgo ser fácil, afinal. É só levá-lo a a entender que é uma questão de sensação. De emoções. Que não têm a ver com racionalidade, com ciência exacta (não-humana?).
Os conhecimentos adquirem-se por observação, por experiência, prestando atenção ao que se ouve, analisando... Poderei dizer que os conhecimentos se distinguem bem das emoções. Enquanto os conhecimentos podem mudar inteiramente o que sentimos, as emoções podem transformar e mesmo eliminar, ainda que temporariamente, os conhecimentos arduamente adquiridos e, por vezes, também confusamente transmitidos.
Por isso, as sensações - que dão lugar a emoções que podem originar sentimentos - parecem dever ser consideradas mais importantes do que os conhecimentos, acentuo. Emoções e sentimentos vêm antes destes, se bem que não pudéssemos viver numa sociedade organizada sem os conhecimentos racionais que nos permitiram organizá-la. Sentimentos e conhecimentos levam-nos a agir de certo modo, segundo as regras que estabelecemos, e dificilmente se podem separar.
Portanto, temos emoções agradáveis e desagradáveis que são as primeiras reações inconscientes a circunstâncias do ambiente e da nossa vida. Podem dar origem a sentimentos, se se prolongam, não é? Com o passar do tempo e da diversidade das nossas experiências de vida, com a sensibilidade mais ou menos avivada pelo ambiente surgem outras emoções para além das básicas (de medo, de raiva, de tristeza e de alegria). Tal como acontece com os conhecimentos que se complexificam.
Penso novamente no menino de nove anos que fica comigo muitas vezes e dorme no meu quarto, na sua cama, distante um metro da minha. E que ele faz questão de empurrar para aproximar mais, para ficar perto de mim. E quando chega a hora de apagar a luz, é um pequeno drama que ambos conhecemos e sofremos.
Vêm as emoções todas, o medo, acho eu, sobrepõe-se, o medo do escuro e decerto dos monstros que se não veem facilmente, mas que podem estar lá dispostos a atacar. Se insisto em apagar a luz, ele chora (aliviando um pouco a sua tenção) e eu acendo-a de novo, mostrando que não há no quarto nenhuns monstros ocultos.
Acabamos por adormecer de luz acesa, mostrando que a razão, neste caso, não venceu a emoção. Recordo aquela velha frase: sabemos que não há monstros… mas se os há?
Se houvesse?
Acho que ele compreenderá, desta vez, o que são as emoções que embaraçam a compreensão racional do mês de Agosto.
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