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O inacabado

por Zilda Cardoso, em 19.06.16

DSC04405.JPG

Tenho um baixo-relevo que é uma gravação (carving) cavada a canivete, segundo me parece, em madeira dura, que representa uma cena da vida de Jesus.

Percebo… observando a pequena tábua… que várias mulheres acorrem, com os filhos ao colo, às costas ou agarrados às suas saias, saem ao encontro de Jesus pedindo auxílio. As crianças estarão doentes ou com outro tipo de problemas e as mães pedem para que Jesus as abençoe, Ele resolverá os seus problemas. Têm grande fé nos seus poderes transcendentes, os filhos ficarão curados.

É um grande grupo e está incrivelmente bem dado o ambiente de grandíssima emoção em contraste absoluto com a tranquilidade de Jesus.

A tábua tem números inscritos que parecem datas, mas não serão – 1812, 1942, 1981 e outros.

É uma obra inacabada, claramente inacabada, mas esteticamente muito apreciável, não sei se gostaria que o autor tivesse progredido muito mais no seu trabalho. Assim, tal qual está, prolonga um mistério.

Que terá acontecido? Por que razão o autor parou o trabalho naquele momento?

 

Ele pode ter abandonado a execução por motivos vários e circunstanciais ou profundos. Por não ter conseguido dar a ideia que queria dar, por irresolução, por críticas negativas que pode ter recebido e que lhe importa aceitar. Pode ser uma obra de encomenda e o comprador prometido não ter ficado satisfeito com o que viu. E então abandonou a obra.

Ficou uma daquelas obras abertas que permite várias interpretações e diversos acabamentos, se bem que sendo uma cena bíblica o objectivo está de antemão definido.

Com intenção ou sem ela, a obra está aberta. O autor deixou “pensamentos visíveis” (como na actual exposição do Met de N.Y. (intitulada UNFINISHED) e é possível com alguma concentração surpreendê-los – aqueles que ele foi tendo à medida que ia executando a peça.

A obra vai-se fazendo, está inacabada desde o momento em que foi abandonada, mas o principal já está lá. Ela nunca estará feita, de qualquer modo, nunca estará perfeita, nunca ficará acabada.

Pode haver um momento em que o artista, tratando-se de uma obra de arte, a considere suficientemente perfeita ou seja organizada segundo as exigências de uma obra de arte. E decide terminar o seu trabalho nesse momento e mostrá-lo tal qual. Por razões estéticas. Esta forma de inacabar funciona como um estilo, um novo estilo.

Por outro lado, este pensamento do inacabado é muito moderno e estende-se a todas as realizações humanas. E, sabem, a todas as realizações humanas. A tudo.

Não há obras realizadas por humanos que sejam acabadas, perfeitas. Quaisquer que sejam as obras.

Já repararam como se sai despenteado do cabeleireiro? Mais despenteadas e despenteados do que quando entrámos depois de uma hora de tratamentos complexos com produtos caríssimos, e de escovadelas em todos os sentidos.

Estaremos artisticamente despenteados e muito felizes. O penteado é uma obra estética inacabada, um novo estilo.

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publicado às 11:45





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