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O homem absurdo

por Zilda Cardoso, em 01.05.14

Ó minha alma, não aspires à vida imortal

Mas esgota o campo do possível.

(Píndaro)

 

Encontrei numa velha shelfie um livrinho de bolso muito mal tratado, de capa vermelha e preta, intitulado O mito de Sísifo. Despertou em mim vontade de reflectir sobre a ideia de absurdo que Albert Camus estudou e sobre que escreveu de forma tão inteligente, nada absurda.

O livrinho foi comprado há muitos anos por 12$50 numa livraria de livros usados – compre e vende – e editado por Livros do Brasil, não sei em que data. Foi classificado como de Filosofia e faz parte da colecção ciência do século XX ao alcance de todos, LBL enciclopédia, e é indicado um director científico e um enorme conselho consultivo.

Para mim, é uma excelente colecção de um tempo de modéstia, assumida e considerada valiosa e contém, além do ensaio que deu nome ao livro, três outros: sobre o raciocínio absurdo, sobre o homem absurdo e sobre a criação absurda.

E um apêndice, uma explanação enciclopédica, uma nota sobre o autor e a bibliografia, uma dedicatória, um texto de introdução e uma citação de Píndaro muito propositada.

Só. Todos temas de enorme interesse para quem quiser saber de Camus.

Há uma contra-capa que informa longamente sobre as intenções da editora, diz que cada volume contém “as últimas aquisições da investigação e do conhecimento humanos”. E que se trata de estudos da maior importância, escritos pelos mais ilustres e internacionalmente respeitados especialistas”.

Fiquei absolutamente tranquila: trata-se de uma enciclopédia do saber contemporâneo numa série de livros de formato reduzido, com pouco mais de um centímetro de espessura, “selecionada por um escol intelectual da mais alta categoria”.

Este, de filosofia, é um livro minúsculo, trata do absurdo, está amarelento e quase desfeito, páginas soltas, algumas rasgadas, a que faltam bocados. Encontrei três folhas de uma agenda caseira de Janeiro e Fevereiro de não sei que ano com receitas de culinária a lápis que eu não me atreveria agora a experimentar. Parecem-me totalmente absurdas, por mais atenção que lhes dê em repetidas leituras. Trata-se de sopas e também de doces e deixaram-me fascinada. De resto, as páginas estão numeradas de modo que a do dia 31 de Janeiro de uma Quarta tem o número 335, a do dia 1 de Fevereiro, Quinta, tem o número 334 e a de Fevereiro, Sexta, dia 2 tem o número 333  e eu pergunto se a ordem era arbitrária ou se devia ser absurda para que tivesse sentido.

Que absurdo é este?

O mito, tal como Camus o conta, ocupa quatro páginas. Fundamentalmente, o que diz é que Sísifo, ser humano ajuizado e prudente desafiara o poder dos deuses, que o condenaram a empurrar sem descanso um rochedo até ao alto de uma montanha donde a pedra sempre caía e rolava montanha abaixo até à planície. Então Sísifo recomeçava o trabalho inútil e aparentemente sem esperança de empurrar a pedra até ao cume.

Uma ideia interessante que Camus expressa acerca de qualquer mito é que, na sua interpretação, é permitido usar a imaginação. “Os mitos são feitos para que a imaginação os anime”. Por isso, os vemos explicados de diversos modos.

Poderá dizer-se que a actividade de Sísifo simboliza o homem comum no seu viver quotidiano, monótono e sem sentido. Ele recomeça todos os dias por hábito, decerto, ou será por ter esperança...?

O homem sofredor regressa cem vezes ao sopé da montanha para recomeçar a empurrar o seu rochedo desde o fundo e é o momento em que desce para regressar ao tormento quotidiano que a Camus interessa. Esse é também o tempo em que o homem tem consciência do que lhe acontece, em que é superior ao seu destino, e mais forte do que o rochedo que empurra.

Noutros momentos, Sísifo, sem esperança de fugir ao destino, é um herói trágico que desce da montanha para recomeçar sempre, apesar da consciência que tem do absurdo da sua actividade.

Digamos que ele recomeça porque é a sua vontade ou porque foi condenado, quero dizer, com alegria ou com dor?

E vale a pena recomeçar? Como ser humano dotado de razão, tento compreender com lógica, racionalizar. A vida vale a pena ser vivida? Mas “Para o homem absurdo não se trata de explicar e de resolver, mas de sentir e descrever”.

Camus termina o ensaio de maneira um tanto inesperada para mim: ”A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.”

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publicado às 14:17





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