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Havia a questão do bolo, que era enorme. A questão, claro, não o bolo.
O Bolo... era o bolo da avó que ela confeccionava e oferecia quando havia festa em nossa casa. E mesmo quando não havia. A partir de certo momento na sua vida e na nossa, quando nos visitava, trazia o bolo. O que aconteceu durante anos, quase todas as semanas.
O bolo era rigorosamente igual, como se fosse o mesmo, cada semana, cada ano, mas não era de todo igual porque a sua história era outra.
A narrativa era o que lhe conferia valor, ele não era nada sem ela, por muito dourado e leve e simples… Mas estava longe de ser simples. E apenas fofo. E perfumado.
A história era emocionante e diferente para cada um ou de cada vez e sempre que havia um novo, semelhante ao antecedente.
A massa era batida na mesma tigela, as gemas com a mesma colher de pau até ficarem brancas como o açúcar, e as claras, à parte, deviam ficar em castelo duro com um garfo. Tudo isto à custa de grande esforço muscular, nada podia ser executado com qualquer tipo de máquina ou instrumento complicado.
Os ovos vinham das galinhas da capoeira do quintal ou da vizinha. Mas, ai, por razões impossíveis de determinar, as claras não subiam como devia ser e as gemas já não eram o que tinham sido noutro tempo ou da vez última. A forma não se deixava untar da mesma maneira e o forno… que lhe deu ao forno?!... tostou dramaticamente aquele objecto com estatuto mítico.
Por tudo isso, a Avó não se responsabilizava pelo resultado ali à vista: algumas vírgulas tinham sido mudadas inesperadamente.
Quando nos sentávamos à mesa da comemoração e ouvíamos a narrativa, sorríamos uns para os outros com uma certeza: o bolo era tão maravilhoso como das outras vezes.
Descobri mais tarde qual o sentido de a Avó encarecer de tal modo as qualidades do bolo e as dificuldades da sua confecção: tínhamos que saber todos os detalhes para lhe compreendermos o valor. E sabermos o AMOR com que era feito e oferecido e a quem.
E que sabíamos nós? Parecia fácil!...
E algum de nós começava a cortar o bolo e a distribuí-lo com grande satisfação de todos.
Uma vez, um espertinho fez uma ousada batota, quebrando a solenidade do acto. Cortou o bolo por baixo com uma faca fina, de modo que ficou reduzido a metade sem que se notasse qualquer diferença: era obra de perito.
O bolo estava minado e meio-comido. A Avó, a princípio estupefacta, acabou por desculpar, apenas por que sabia quem podia ter sido o autor da façanha – o seu próprio e querido filho.
Foi uma galhofa.
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