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Reparto o tempo entre viver os acontecimentos da minha vida e os das histórias que me são contados no teatro, no cinema, nos livros, na pintura, noutras artes.
A vida é vivida à pressa. Porque é assim que se vive. Para mim, porém, há uns intervalos vazios e talvez desagradavelmente silenciosos, que tento preencher vivendo as vidas dos outros: dos que ouço e vejo e leio no palco, no ecrã, na tela, no papel.
Às vezes, estou feliz com as minhas próprias histórias, com o meu ambiente – o mar brilhante, o céu azul, o sol resplendente, os barcos ao longe… os jardins que frequento e os que construí… Sou capaz de desenhar e de realizar um jardim e é como se estivesse a compor e a escrever música. Não sei tocar nenhum instrumento, penaliza-me isso, mas sei compor um jardim. E gozar o jardim, num dia de boa luminosidade e delicada temperatura, é como ouvir um concerto de Bach: não posso ficar mais feliz. Excepto quando danço ou vejo dançar com eficácia.
A música é parte importante da vida feliz tal como a entendo, dá um conforto em todo o caso. Não precisa de significar nada. Aproxima-me de um nível superior de consciência sem ligação com a natureza, ao encontro do transcendente talvez, ou do melhor que há em mim fora de mim.
Faz boa companhia não por ser de fácil entendimento, mas porque me invade, me toma, me satisfaz, as mais das vezes. Um silêncio com música… não há melhor. É como um vazio que se não sente como esvaziamento. Porém, há um cansaço.
É nessa circunstância que me ocupo em viver a tal vida que me não pertence, a dos outros, as histórias representadas, a sentir leve, levemente, as dores e as alegrias inventadas.
Durante esse tempo, o tempo não passa, o silêncio… não o ouço, o vazio… não está. E logo depois, já tudo passou… sem dano. Tinha-me esquecido de viver… Por um certo tempo, a vida não existiu.
A privação em qualquer história não é dilacerante, como seria se fosse minha. E há a alegria.
A alegria que a representação me dá pode ser quase tão valiosa como se fosse realidade. É atraente: sorrio, rio, atiro os braços ao ar como se o meu favorito fizesse “goal”, sei lá o que faço.
No entanto, há uma distância. Não me esqueço de todo de que não há pessoas ali - há personagens e actores, há imaginação. Não há acontecimentos – há gestos e atitudes criados para dar um sentido, revelar uma ideia, apresentar uma história.
Que não é a minha, é uma história imaginada com talento... para mim.
A maior diferença entre as histórias de ficção e os acontecimentos reais é que eu posso escolher, ver as histórias que me dão prazer e pôr de lado as outras. Não sou masoquista, não gosto de sofrer. Quando elas têm a intenção deliberada de provocar o sofrimento… desligo, elimino, ponho de lado, saio.
Que me importa? Perco a companhia, rejeito a companhia. Fica um silêncio que nem sempre é estimulante. Ou procuro o que posso fazer na realidade, aumentando o meu tempo de vida vivida... todos sabem como é.
E tudo acaba sem estar acabado.
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