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“A maré subia e vinha quebrar-se à beirada da alma, no búzio da capela. Perto, cada vez mais perto. Por caminhos secretos, desfeitos os cabelos, o corpo flácido, as mãos abertas às correntes, a ressaca arrastava-me, irresistível. Para as lonjuras, onde cessa o palor da lua. Fundo… ziguezaguear de peixes, carícias viscosas… cada vez mais fundo e frio… Névoa revolta de areias … cada vez mais frio… Até àquela eternidade sem primaveras, nem manhãs, sem contingências de sóis ou de chuva, dos jardins do mar. E aí enquanto a madrugada não vendasse de bruma os olhos dos luzeiros, na fosforescência íris-azul dos abismos, na quietação de toneladas de silêncio, as águas lavavam, pacientes, o sangue e o fel, descarnavam de fibras e pulsações os filamentos multicelulares e cruciformes da minha dor.”
(Luísa Dacosta, A-Ver-o-Mar, crónicas,1980
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