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Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio…

por Zilda Cardoso, em 20.11.15

 

Deram-me uma vida, há muito tempo e devo vivê-la. Continuo a vivê-la, mas não sei bem o que fazer com ela. Acontecem coisas a mais, neste nosso mundo - estranho - muito mais do que posso absorver ou apreender, haverá mais do que supõe a minha vã filosofia

E eu já não a quero, a vida; se algum dia soube, já não a sei viver.

Interrogo-me e interrogo-vos agora: como vivê-la?

Gozando as eternas belezas naturais de A a Z que se repetem ao infinito? É só aquilo, naquela escala, não pode haver mais novidades. (Pelo que sei, o Mundo é limitado, não falo de Universo.) Assim quando chego a Z volto a A e aí estão idênticos poentes e luares parecidos, análogos movimentos da água ou do vento, as mesmas primaveras e outonos semelhantes …

Ou vivo-a chorando as maldades próprias dos seres da minha espécie sempre em guerra de todos contra todos, já que não sabem coabitar doutra maneira? Simplesmente seguem as instruções do seu complexo sistema cerebral, não têm culpa.

Há outras atitudes possíveis, sem dúvida. Há quem viva para ajudar os outros a viver ou a sobreviver, segundo a sua ideia do que isso é. E há os que se exploram mutuamente e a sua vida é uma contenda por coisas sem valor em si porque quem sabe o que é o valor e aquilo que o detém?

É um grande grupo, este, o maior talvez, e subdivide-se em menores. Um destes é o dos terroristas que não são apenas islâmicos, oh se fossem!, são terroristas profissionais e existem em todas as partes do mundo. Com estes não há nada a fazer: pode-se estar com eles e morrer com eles ou combatê-los. Posso incluir neste grande grupo os políticos profissionais e seus praticantes indefesos.

Mas há outros: os que tentam fortuna de qualquer ou de alguma forma e encontram nesse objectivo uma razão de viver.

Devo dizer que me apercebi de que existem ainda os que apreciam aprender coisas e estão atentos. Até há os que se interessam por pensar. Este é um grupo muito esquivo e surpreendente, porque nunca chegam a uma conclusão: só pensam, repensam e voltam a pensar… não passam disso. E não servem de nada. (Já diz o Dalai Lama: é necessário agir).

Tem sido interessante para mim descobrir os que gostam de representar, os que fazem música e a tocam em instrumentos apropriados, os que pintam, os escultores, os que escrevem e inventam mundos difíceis, mas não podem engendrar muito para além do que vêem, sentem e pressentem. Não muito, não muito. Apaixonam-se pelo que fazem e sabem que apaixonarem-se é fundamental - é a única maneira de atingir o que julgam ser a inalcançável perfeição. Por isso, não querem conhecer o que os rodeia, verdadeiramente, não querem saber. Vivem o seu mundo.

Porém, eu pergunto-me agora com frequência, como decerto todos se vão interrogar um dia, como vou ainda viver a minha vida. Em que grupo me integro, se não quero e não quero, se não sou contemplativa, se não sou artista nem estou apaixonada, se não tenho um objectivo de importância transcendente ou somente elevada, se… se… se…

Como me vou salvar, como nos vamos salvar?

Não sei como vivê-la… a vida, nem por quê nem para quê. Do mesmo jeito, não sei como não a viver.

Então como me justifico?

 

 

 

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publicado às 13:12





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