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Ainda acontecem coisas novas e excitantes nesta beira-mar por mim calcorreada diariamente.
Imaginem: saí com um esplêndido sol sobre os ombros, o mesmo da cidade e sobre o mar. Estava quente em Dezembro, não importa que os meteorologistas estejam desde há tempos a ameaçar chuva e tempestades. É com eles. O sol e o calor aqui estão e temos de nos render a uma evidência muito palpável: são assaz saborosos.
E, se é assim, é porque merecemos.
Meti no bolso um mini-papel e um lápis e fui palmilhar mais uma vez a avenida.
Num certo momento, sentei-me no banco corrido de madeira quase ao nível do areal e escrevi sobre o telemóvel um precioso poema. Não foi fácil, a caneta, (não era lápis, afinal, embora continue rendida às vantagens do lápis) recusava-se a trabalhar nessa superfície deslizante e fria, polida de mais, e eu não tinha nenhuma outra maneira...e não podia perder a ocasião.
Depois de ansiosas e impacientes tentativas, consegui demovê-la, rabisquei o poema ao mar em palavras cheias de transparências, enigmas e metáforas. Já não tinha nenhum pedacinho de papel vazio quando o meti ao bolso e retomei o meu trilho, toda sorrisos, o sol a projectar a sua luz num mar tranquilo, transformado no jogo permanente de brilhos agitados e doces de todos estes dias.
Caminhei para casa, ansiosa por passar ao computador as palavras bonitas e as metáforas que me tinham surgido por milagre e, por isso, não iam repetir-se. Tinham um sentido, uma sinceridade... acolá perto do meu objecto de veneração, não podia mentir, dissimular, inventar… era uma linguagem natural.
Só que ainda antes de chegar a casa, revistei os bolsos e não encontrei nenhum papel azul! Tinha voado com o inexistente vento ou imaginei tudo aquilo? Seria o pássaro azul que passou perto de mim em direcção ao sul, o tal…?
O certo é que perdi o poema da minha vida laboriosamente construído à beira-mar como sempre desejei, num tempo brilhante como o de hoje: nunca mais o vi.
O que me custa é que, pela primeira vez no que me diz respeito, ele era uma obra-prima. Ainda estou a ouvi-lo, todo feito de intuições e de analogias, tal como me soa na memória (como acontece com aquela canção perfeita que escutei de manhã e continua..., embora não seja capaz de a reproduzir).
Ouço a música do poema, os pensamentos, o que suscitaria de emoções que estavam lá antes da linguagem existir…
Antes das palavras existirem
Porém, agora sem palavras não posso dizê-lo, como me tinham avisado pessoas muito inteligentes, essas palavras terão voado. Não poderei recuperá-lo nem perdoar-me a perda de momentos preciosos. No entanto, desfrutei-os.
Gozei o poema, mas sabem, talvez o goze ainda a um nível desconhecido porque o sinto.
Não sei dizê-lo.
Por isso, mas só por isso, não posso explicar-vos.
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