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Gozei o poema...

por Zilda Cardoso, em 11.12.15

DSC00998.JPG

Ainda acontecem coisas novas e excitantes nesta beira-mar por mim calcorreada diariamente.

Imaginem: saí com um esplêndido sol sobre os ombros, o mesmo da cidade e sobre o mar. Estava quente em Dezembro, não importa que os meteorologistas estejam desde há tempos a ameaçar chuva e tempestades. É com eles. O sol e o calor aqui estão e temos de nos render a uma evidência muito palpável: são assaz saborosos.

E, se é assim, é porque merecemos.

Meti no bolso um mini-papel e um lápis e fui palmilhar mais uma vez a avenida.

Num certo momento, sentei-me no banco corrido de madeira quase ao nível do areal e escrevi sobre o telemóvel um precioso poema. Não foi fácil, a caneta, (não era lápis, afinal, embora continue rendida às vantagens do lápis) recusava-se a trabalhar nessa superfície deslizante e fria, polida de mais, e eu não tinha nenhuma outra maneira...e não podia perder a ocasião.

Depois de ansiosas e impacientes tentativas, consegui demovê-la, rabisquei o poema ao mar em palavras cheias de transparências, enigmas e metáforas. Já não tinha nenhum pedacinho de papel vazio quando o meti ao bolso e retomei o meu trilho, toda sorrisos, o sol a projectar a sua luz num mar tranquilo, transformado no jogo permanente de brilhos agitados e doces de todos estes dias.

Caminhei para casa, ansiosa por passar ao computador as palavras bonitas e as metáforas que me tinham surgido por milagre e, por isso, não iam repetir-se. Tinham um sentido, uma sinceridade... acolá perto do meu objecto de veneração, não podia mentir, dissimular, inventar… era uma linguagem natural.

Só que ainda antes de chegar a casa, revistei os bolsos e não encontrei nenhum papel azul! Tinha voado com o inexistente vento ou imaginei tudo aquilo? Seria o pássaro azul que passou perto de mim em direcção ao sul, o tal…?

O certo é que perdi o poema da minha vida laboriosamente construído à beira-mar como sempre desejei, num tempo brilhante como o de hoje: nunca mais o vi.

O que me custa é que, pela primeira vez no que me diz respeito, ele era uma obra-prima. Ainda estou a ouvi-lo, todo feito de intuições e de analogias, tal como me soa na memória (como acontece com aquela canção perfeita que escutei de manhã e continua..., embora não seja capaz de a reproduzir).

Ouço a música do poema, os pensamentos, o que suscitaria de emoções que estavam lá antes da linguagem existir…

Antes das palavras existirem

Porém, agora sem palavras não posso dizê-lo, como me tinham avisado pessoas muito inteligentes, essas palavras terão voado. Não poderei recuperá-lo nem perdoar-me a perda de momentos preciosos. No entanto, desfrutei-os.

Gozei o poema, mas sabem, talvez o goze ainda a um nível desconhecido porque o sinto.

Não sei dizê-lo.

Por isso, mas só por isso, não posso explicar-vos.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 18:19


2 comentários

De A.Queiroz a 14.12.2015 às 01:50

Olá Zilda !
Parece que agora no Natal Lhe vou oferecer um caderninho para que uma tal perda não volte a acontecer !
Mas não esteja triste ! Será que o tal poema era melhor do que o texto que a sua perda originou ? Será que esta sua prosa não é um autêntico poema ? ? ?
Cumptºs.
A.Q.

De Zilda Cardoso a 14.12.2015 às 08:08

De certeza! Era transcendente. E agradeço o cadreno, mas não acredito na eficácia dele. Ando sempre carregada de cadernos e de folhas e de...mas não consigo. Sou mesmo desarrumada e já agora... olhe não há nada a fazer.
Mas agradeço o seu comentário, é muito bom ter diálogo com quem compreende.
Abraço
ZM

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