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Deitar contas à vida

por Zilda Cardoso, em 28.06.16

DSC03819.JPG

 

Quando me perguntam se alguma coisa se alterou no mundo desde que estou nele e porque estou neleDSC03916.JPG… tenho que dizer sim.

Alegra-me pensar que o que fiz nascer e realizei de algum modo alterou muito o mundo. Não há aqui falta de humildade. Acontece que tive tempo, tenho tido tempo que teria sido desperdiçado se não tivesse trabalhado no sentido dessa realização.

Na verdade, nunca me interessou dizer o que toda a gente disse e repetiu, nem tentar descobrir o que está descoberto; não pretendo fazer o que está feito, a menos que isso seja inevitável. Muitas vezes, é. Procuro não passar por caminhos muito traçados e pisados. Não cair na deprimente rotina. Nunca me interessou, não digo que tenha conseguido.

O que estou a tentar explicar é que as minhas sementes são minhas e reproduziram o possível, segundo as minhas capacidades e as delas. Se eu não as tivesse posto a jeito, provavelmente nada teria acontecido quanto a isso. É claro que as reguei e abriguei do mau tempo, protegi-as enquanto foram frágeis, falei com elas. Apenas lhes dei independência quando isso foi considerado devido-tempo.

Criei no papel uma certa Escrita ou tracei um Desenho, usei a imaginação de formas diversas e realizei empresas concretas de desenvolvimento do que me pareceu razoavelmente interessante na ocasião.

Criei uma família que continua a crescer, o que não é pequeno feito.

Calculo que construí muitos objectos e realidades, embora de maneira geral ninguém tivesse reparado neles, talvez porque não topei a linguagem antiga e original ajustada e desejada por mim.

Fiz muitas perguntas, foram-me dadas poucas respostas satisfactórias, não fiquei a saber. Nem sequer sei, e sobre isso me interrogo, se alterei o silêncio que tanto aprecio, o silêncio do mundo, a que julgo ter direito, tal como considero que os outros o têm. Os outros sem os quais não saberia viver e, por isso, me importa o que lhes acontece.

De qualquer modo, já tudo isso esqueceu, passou à história. Mas esqueceu… quem, o quê? O mundo esqueceu o autor que, sozinho ou acompanhado, deu nascimento a essas realidades. E também a maioria delas, realidades. E continuou a rolar, o mundo continuou a rolar.

Trata-se de coisas que fiz por bem, é isso que quero recordar, o que realizei foi a bem da nação, como se dizia noutro tempo. Direi agora a bem de cada habitante da Europa e do Mundo.

Não recordo nada que tenha feito por mal, quase nada, vejam só. E não por bondade natural, mas porque nunca achei que valesse a pena. E suponho que acontece o mesmo com quase todos nós.

Dá muito trabalho e apreensão fazer o mal: mentir, destruir, atraiçoar, matar, mexericar, fazer queixa e queixar-se, ter pensamentos absurdos e sombrios, dizer banalidades de grande porte, passar rasteiras… e depois concertar as coisas, reordená-las de forma aceitável.

É assim que se entende que tudo o que consegui compor ao longo de uma vida longa foi feito a bem da humanidade e isso é uma das razões por que passou despercebido. Era tudo natural, simples e humano.

Tal como aquilo que resolvi contar pela razão de ter compreendido o seu significado. Significado que é perfeitamente refutável.

São obras inacabadas. Todas.

Eu descobri isto, atribuo-me o mérito da descoberta, conquanto saiba que mil pessoas o descobriram antes de mim.

E aquele silêncio que, um dia destes, será feito dentro da minha cabeça… ainda não se fez.

 

 

 

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publicado às 14:40





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