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A poesia do FUTEBOL

por Zilda Cardoso, em 03.07.16

Fundamentalmente, posso ver o mundo de duas maneiras : uma com cores brilhantes como esta manhã de sol e rosas perfumadas, temperatura amena, velas muito brancas no mar calmo e azul… Outra pleno de sombras, humidade, vento irritante, frio… Ou ainda tempestuoso, com belos fulgurantes relâmpagos, trovões medonhos, chuva torrencial e… por aí fora. Até talvez uma onda gigante, como nunca se viu por aqui, avance pela praia até às casas mais próximas.

É sempre o mesmo mundo, a forma de o ver e sentir, depende da minha disposição e da dele. Porventura, de outras existências e influências.

É desse modo que a minha posição ou o meu humor depende do dele. Como vejo sempre tudo isto como obra inacabada e com espaços em branco que não sei definir, imagino milhares de outras formas diferentes de o encarar e classificar cada dia.

Assim é o mundo ou assim sou eu. Ou é o mundo para mim. Ou sou eu para o mundo?!

Porém, posso vê-lo como quem vê um jogo de futebol: um espectáculo que é mundo de emoção e de agitação,  de surpresas e de abalos. Embora no futebol, haja apenas duas hipóteses: ou ganha um ou ganha outro dos dois em campo. Cada assistente na bancada ou noutro lugar qualquer se liga fortemente a um dos contendores, emocionalmente, loucamente, apaixonadamente e nada o fará raciocinar com lógica ou com moderação. Isso é posto totalmente de lado e… compreende-se. Não tem que haver razões nenhumas, não é essa a ideia.

Aquele jogo recente entre Portugal e a Polónia merece a análise de um perito, é exemplar. Eu apenas participo da assistência, por isso, sofri até ao último segundo, como milhares de outros do meu grupo. Estive arrasada mas terminei feliz, ou como se designa aquele contentamento descontente.

Os polacos são tão simpáticos, custou-me vê-los chorar como miúdos a quem foi recusado, no último momento, um brinquedo sedutor. Mas preferi… a ver lacrimejar o Cristiano, apesar de pensar que o faria com elegância, ou o Patrício ou outro qualquer desses Grandes, novos heróis.

É divertido o entusiasmo geral e o interesse da população, mesmo dos intelectuais ou distraídos, mesmo desses, por um jogo bastante estúpido. Se bem que, como em tudo, ganhem os que têm mais capacidades específicas, não apenas físicas mas intelectuais de qualquer ordem: inteligência -  base da compreensão, da aptidão para a escolha, da interpretação, do pensamento -, a sensibilidade, o instinto…

Os jogadores (e os treinadores, entre parênteses) são poderosos e necessários para incertas catarses e promovem com regularidade a Festa Mítica tão necessária.

Eles sabem fazer o teatro de máscaras exacerbado que se espera, e que, por vezes, não passa de fita de má ficção. Os seus gestos desamparados, os reparos, as atoardas e as manhas, as invocações de olhos voltados para o céu, todas as exuberantes expressões que podem ser igualmente de alegria triunfante com qualquer coisa de vulnerável e é tocante, como quer ser, toda essa ostentação e agitação apaixonada faz parte do espectáculo a que temos o direito de assistir já que pagamos um bilhete caro de mais para as nossas posses. É o que leva a perdoar a possível falta de concentração, de gestos precisos e de habilidades essenciais, de empenho que levam ao fracasso… e aos pontapés nas canelas dos adversários.

Porque é preciso ganhar de qualquer jeito para que os adeptos fiquem satisfeitos e continuem adeptos: os jogadores ganham e são heróis ou perdem e são vítimas de injustiça. Nada mais importa, na verdade.

É isto poesia pura?

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publicado às 12:56





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