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suicídio involuntário

por Zilda Cardoso, em 05.12.10

Há tempos, sem querer, quase me suicidei.

Estava sozinha em casa e muito satisfeita com o silêncio que consegui, com a temperatura fresca ambiente, a luz, a música... tudo a meu modo e gosto.

Fiquei tranquilamente a ler, estatelada no sofá durante duas horas, seria poesia.

Entre o desejo de que o dia nunca mais acabasse e a fome que me assaltou a certa hora, levantei-me e fui ao congelador ver o que havia que pudesse preparar em cinco minutos, o máximo de tempo que suportaria na cozinha.

Encontrei qualquer coisa, talvez um bife, não sei bem, nunca como bifes. O que quer que fosse, estava fortemente colado num prato transparente. Tirei-o para fora, pousei em cima do balcão, tentei de vários modos descolar o objecto, mas ele não se comoveu com os meus esforços. Peguei desiludida numa faca de cozinha, de ponta bem afiada e, com o prato firme na mão esquerda, e a faca como um punhal na direita, tentei dar um golpe ou uma punhalada com força entre o vidro e o bife ou o que quer que era e, claro, o bico da faca foi espetar-se generosamente no meu pulso esquerdo que ficou para ali a sangrar doidamente.

Parei uns segundos, olhando o sangue vermelho escuro e brilhante, brotando e tombando no chão. Pensei que o melhor de mim podia estar a escapar-se por aquela via sinuosa.

“Que queres? Se queres esvair-te, isso vai acontecer rapidamente”.

Não queria morrer daquela maneira rude, suicidando-me de forma tão pouco romântica.

Então fui ao telefone e tentei chamar algum dos filhos, ou o marido, mas nenhum estava sequer na cidade.

“Que vais fazer?” Interroguei-me mais uma vez.

“Tenho que ir à urgência mais próxima”.

Então lembrei-me de ter visto em casa dos meus pais, quando era miúda, um galo com a faca espetada no pescoço, tentando escapulir da morte a que fora condenado, sangrando e correndo e esgotando-se pela casa toda… Que espectáculo deu de si próprio! (Que eu não daria, não estava ninguém para apreciar).

Pensei ir no meu carro, mas achei melhor não. Por essa altura, até a minha roupa estava sanguínea, sanguinolenta, sangrenta e vermelha. Corri a mudá-la e chamei um táxi.

Disse rapidamente ao motorista, que olhou com surpresa para o meu pulso envolto numa grande toalha branca já vermelha, que me levasse à urgência da Carcereira. Ele não disse uma palavra: acho que ficou em choque.

No Hospital, deram-me injecções e coseram-me, fui rapidamente tratada, voltei para casa. Recuperada, entrei na cozinha onde o primeiro acontecimento se dera, fui buscar um balde com água e uma esfregona, lavei o chão, a água ficou logo negra. Procurei a roupa mais que salpicada no quarto de banho e pu-la na máquina de lavar, antes que ficasse maculada de vermelho para sempre.

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publicado às 12:25


15 comentários

De Marcolino a 05.12.2010 às 15:41

Boa tarde, Zilda!
Rocambolesco...!!!
Abraço
Marcolino

De Caminhando... a 05.12.2010 às 20:02

Olá Zilda,

Que aventura esta. Ainda bem que apesar do tremendo susto, está tudo bem e a temos aqui : )

Abraço

De Isabel Maia Jácome a 06.12.2010 às 00:35

Zilda
Há mesmo histórias assim... meu Deus! Boa presença de espírito!!!
...da capacidade de contar... :) Vale o sorriso!
Abraço
Isabel

De Laurinda Alves a 06.12.2010 às 09:40

Querida Zilda, tudo isto depois da convalescença depois da queda do alto de um banco??? Ai meu Deus... Espero que esteja melhor, muito melhor das costas, do pulso, de tudo! Abraço enorme.

De Vicente Mais ou Menos de Souza a 06.12.2010 às 22:15

e eu a pensar que a côr do sangue era azul...enfim, castanha, mas ainda bem que se safou...eu hoje fui assaltado por um cara com um pistolão que me roubou um bom relógio, mas ficou por isso.

A vida não vale nada e como dizia Job" tu mo deste, tu mo tiraste"! Não era propriamente a um Frank Muller que ele se referia...

Mas enfim, não nos devemos agarrar às coisas demasiado.

De Zilda Cardoso a 07.12.2010 às 08:28

Voltou, Mais ou Menos? Ou está a falar-nos do lado de lá? Essa do cara!... Mas conta essa, conta. O relógio é o menos (!), mas do pistolão queremos saber, queremos muito saber.

De Isabel Maia Jácome a 07.12.2010 às 15:21

...concordo com a Zilda...
...pelo que me toca, queremos mesmo saber!
Saudades
Isabel

De Zilda Cardoso a 08.12.2010 às 11:21

Depois deste suicídio, fiquei com mais esta certeza: a de que o meu sangue não é azul. Que pena! Há sempre uma esperança, não é? Azul... seria mais bonito, mas afinal é da cor do do galo que deu espectáculo antes de morrer e já com a faca ao pescoço.
Quanto ao outro tema, o que se conclui é que não vale a pena ter frankmullers a não ser para dar brilho aos olhos do cara com pistolão que ganhou o dia com pouco esforço. E há sempre a esperança de que o dinheiro tenha sido para uma boa causa.
E foi deste modo que o amigo Vicente ganhou umas quantas indulgências.

De Zilda Cardoso a 08.12.2010 às 11:25

Ainda respondendo ao primeiro tema:



Que grande galo!

De Maria João Brito de Sousa a 07.12.2010 às 15:03

Que "aventura" assustadora! Já me aconteceu uma vez, qualquer coisa de semelhante, mas ainda menos romântica... como tomo um anti-coagulante - Varfarina Sódica - bastou um arranhão de gato para quase inundar a casa...
Um abraço grande!

De Zilda Cardoso a 08.12.2010 às 11:27

Por vezes é assustador... O bom é não perder a cabeça.

De Joana Freudenthal a 07.12.2010 às 15:04

Zilda,
Julguei que estivesse a contar uma história de outra pessoa! Ficção, sei lá!!!
Mais abraços...

De Vicente Mais ou Menos de Souza a 07.12.2010 às 21:56

oi minhas amiguinhas,

estou bem de saúde e recuperado do susto, e ainda por terras de Vera Cruz retornando a 11 de Dezembro.

De João Nuno a 08.12.2010 às 02:44

Já dizia a minha avó que "há horas do diabo".
Felizes os que, ainda assim, fazem das palavras uma história com final feliz.
Um abraço, Zilda.
João Nuno
http://joaonunomb.spaceblog.com.br

De Zilda Cardoso a 08.12.2010 às 12:16

Olá, João Nuno, bom dia

As avós dizem sempre coisas acertadas. E, de certeza, ela tb pensava que há horas divinas.
Agradeço a s/achega, sempre bem-vinda.

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