Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Marechal Saldanha

por Zilda Cardoso, em 11.11.10

Nas minhas recentes andanças a pé pelos arredores da casa à chuva, ao sol, ao vento irritadiço, encontrei uma amiga que não via há bons dez anos.  -Gostei de a rever - embora mais branca e mais pequena era bem ela.

Vivemos no mesmo prédio desta rua Marechal Saldanha há bons 40 anos, quando os nossos filhos eram crianças pequenas. Habitávamos o mesmo andar, o direito e o esquerdo, e recordo ter as portas abertas para o patamar comum, quase todo o dia, para que os pequenos pudessem andar fora e dentro, de uma casa e da outra, sem impedimentos.

Estivemos em contacto durante muito tempo, das formas mais amigáveis e simpáticas. Havia um grande respeito mútuo, por isso, nunca houve desentendimento a perturbar a nossa afeição.

Fizemos com a nossa amiga, só ela, uma viagem muito especial de automóvel que durou um mês e meio – Espanha, França, Suíça, Itália, acampámos pelo caminho em diversas cidades onde havia parques nem sempre razoáveis até que chegámos a Genebra onde ficámos três semanas.

O meu marido era o representante dos trabalhadores portugueses à reunião anual da Organização Internacional do Trabalho – a O.I.T. e eu e a minha amiga ficávamos quase todo o dia livres para conhecer a cidade que não tinha assim tanto que ver, em todo o caso não para três semanas.

De modo que, imaginem, todos os dias íamos investigar no único centro comercial da cidade, na época não havia muitos e em Portugal nenhum, era tudo novidade para nós, e descobrimos que havia uma secção, renovada todos os dias, em que qualquer objecto custava apenas um franco (suíço, um dinheirão em escudos, mas comparado com tudo o mais, era a coisa mais barata que podíamos comprar na Suíça). Devíamos ir logo de manhã cedo, à abertura da loja, para apanharmos as novidades, antes que acabassem. E íamos. Despertávamos com aquela no pensamento e corríamos para o armazém. Então inspeccionávamos com cuidado e sempre vínhamos de lá com um sorriso largo, um objecto/pechincha e o dia ganho.

Trouxemos cada uma a sua mala de bugigangas, comprada para o efeito e, durante anos, foi fácil ver pelos cantos das nossas casas e dentro de armários e gavetas as ditas e sugeridas peças.

Todavia, a um acontecimento assistimos todos os dias e a todas as horas, a menos de um franco - um repuxo monumental subia do Lago Leman para o céu da cidade completamente grátis. Todo o santo dia. Na verdade, havia castelos e vilas medievais, anfiteatro e forum romano mas, o repuxo…

Aquilo começou a incomodar-nos, mas nunca encontrámos modo de nos livrarmos dele. De todas as ruas e praças, varandas e balcões ele era visível eternamente a sair do Lago, a elevar-se contra as montanhas nevadas e o céu azul como distante pano de fundo. Mesmo de noite e a dormir na minha tenda rasteira fora da cidade, via o repuxo. E tê-lo-ia visto para o resto da minha vida se não tivéssemos partido para Itália, onde por várias semanas nos deixamos embeber e empapar de civilização romana e renascentista, esquecendo o resto.

O resto que era também a cidade centro de diplomacia importante, onde diversas organizações internacionais tinham sede como as Nações Unidas e a Cruz Vermelha. E também a Organização Europeia para a Investigação Nuclear. Quase metade da população era estrangeira, não sei se ainda é.. Era uma das cidades com melhor qualidade de vida e mais caras. Todas as actividades desportivas e náuticas eram praticadas em volta do lago, em cada localidade havia um posto náutico...

Que valia tudo isso? Despertava a nossa admiração... mas na verdade nada era em comparação com aquele repuxo e a imensa secção de objectos atraentes perfeitamente inúteis a 1 franco a peça.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:24


1 comentário

De Isabel Maia Jácome a 11.11.2010 às 19:25

Acontece-me enquanto leio alguns autores, dar conta de que, na minha cara, se vai distentendo um sorriso...
...não como um repuxo, claro, porque esse seria forçado pela força da ejecção dos músculos.
Mas a presença desse sorriso suave e prazenteiro lembrou-me esse repuxo de que fala como uma recordação agradável que se mantém e de que dou conta de cada vez que a leio. :)
Isabel

Comentar post





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D