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inquietação

por Zilda Cardoso, em 25.10.10

Há no tempo presente uma inquietação em todos nós.

Inquietação quanto ao futuro. Indefinida talvez mas real. E pode ter surgido com o anúncio da crise económica que é cada vez mais real e definida e traz outros desassossegos e inseguranças. Surgiu ela, a económica, de golpes financeiros, de excesso de ambição, de crimes nesse campo que se processavam surdamente de longo tempo e que, de súbito revelados, nos deixaram perplexos quanto à sua realidade e extensão. Vinham de há muito num processo encadeado e aparentemente imparável.

E isto leva-me à turbulência em França, às novas regras na Alemanha quanto a estrangeiros a viver no País, a um bom presidente em apuros na América, à inviabilidade do Orçamento em Portugal, a problemas políticos e a condições económicas precárias em todo o mundo, mais nuns países que noutros.

Isto leva-me também à emigração, ao multiculturalismo, à aceitação e reconhecimento ou não do outro. Até que ponto podemos aceitar o outro tal como é se não houver de ambas as partes vontade de colaborar para um entendimento?

Há muitos factores contra e muitos factores a favor do multiculturalismo que é a existência de várias culturas no mesmo espaço sem que alguma predomine. Seria uma situação ideal se os conflitos não surgissem, digo eu.

Penso na emigração que em certos momentos e para algumas pessoas surge como inevitável por condições económicas precárias no país de origem e por políticas desfavoráveis e perseguições devidas às diferenças de raça ou de religião e por guerras.

O que acontece em França pode ilustrar a inquietação indefinida de que falo. O que acontece na Alemanha é mais concreto e possível de compreender e tentar resolver.

Se alguém decide sair do seu país e ir viver para outro é porque alguma coisa importante e insuperável lhe falta onde está. Ele irá à procura do que lhe falta, não estará nas melhores condições para exigir. No entanto, espera ser bem tratado, como pessoa humana e digna, porque vem, se vem, com desejo de trabalhar e de se integrar.

Insuperáveis impedimentos para a integração surgem por intolerância de um lado e do outro e, em geral, têm ligação com religião, com racismo e com valores fundamentais. Isto é fácil de constatar se estudarmos a História.

No entanto, é sabido que ideias inovadoras vêm da diversidade, que é portanto vantajosa e mesmo essencial.

E há o caso de estrangeiros que vieram para estudar ou para ensinar e voltarão ou não ao seu país de origem, os que são chamados e lhes é proposto um trabalho interessante, os que vêm porque casaram com naturais do País e os que escolheram viver no País por razões e condições favoráveis de clima e outras.

Não são refugiados, nem emigrantes, são apenas estrangeiros, são outros/diferentes que não causam problemas porque não são forçados a integrar-se. Escolheram e desejam integrar-se.

O que se passa com as novas leis de emigração na Alemanha, onde há quinze milhões de emigrantes, é compreensível. O que lhes é exigido faz sentido: que aprendam a língua, que aceitem as regras.

Eu diria – façam por se integrarem!

Aprender a língua é facilitar a comunicação e logo o entendimento. E é possível que tenham que recalcar velhas heranças, mas esse é o preço. Não é tudo excelente. Aceitar as regras é o mínimo que se pode exigir, foi pela razão das regras em vigor que o País foi desejado.

E da parte da Alemanha, é necessário que tenham presente memórias recentes de nacionalismo e de nazismo. Ninguém vai esquecer onde é que isso levou.

Quanto a mim, que estudei recentemente a História da Hungria e estou a estudar a História do Nazismo na Alemanha, tenho todo esse horror bem presente e gostaria que o recordassem comigo.

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publicado às 15:03


7 comentários

De Vicente Mais ou Menos de Souza a 25.10.2010 às 15:50

Olá Zilda,

Gosto muito do seu texto e identifico-me totalmente com o respectivo conteúdo.

Os emigrantes devem ser respeitados em virtude de sua dignidade enquanto pessoas, muito para além do regime vigente em cada país ou do lugar aonde residem.

Os seus direitos não derivam do facto de pertencerem a um Estado ou a uma Nação, mas da sua condição de pessoa cuja dignidade não pode sofrer variações ao mudarem de um País para outro.

A emigração tornou-se, hoje em dia, um factor preponderante da vida social, política, económica e cultural do mundo actual.

Mas, este fenómeno massivo, mundial e urgente corre o risco de ser cerceado por conceitos de segurança nacional, de combate ao terrorismo e de outros discursos, quando, na verdade, se considerado na óptica dos direitos humanos e da família humana, pode aportar importantes contribuições, tanto para os países de chegada como para os de destino.

No paradigma dos direitos humanos, surge o conceito de família humana, de família universal, e nesta evolução histórica das últimas décadas, construíram-se possibilidades e instituições admiráveis.

A perspectiva dos Direitos Humanos passou a construir um sistema internacional, a rechear diálogos e a confrontar governos, atitudes, intenções e democracias. Por outro lado, no coração de 200 milhões de emigrantes, tal noção abriu a possibilidade de, às vezes fugindo do pior, às vezes buscando alguma coisa para além do conhecido, superar as noções antigas de fronteiras e de procurar horizontes em países que antes eram inimagináveis.

No século XIX, muitos países não adoptavam diferenças entre os direitos dos nacionais e os dos estrangeiros. Contudo, com as guerras mundiais ocorridas nas décadas dos anos 20 e 30 houve um retrocesso em relação à compreensão dos direitos do emigrante e muitos países passaram a estabelecer restrições.

Devemos reagir com indignação e lamentar o avanço, no mundo actual, de legislações xenófobas e atitudes abomináveis, pelo conteúdo e forma com que tratam os emigrantes.

De cabecilha a 25.10.2010 às 18:11

num autocarro há muitos outros; nós até queremos gostar deles em termos teóricos, não é?! Mas, têm odor corporal, vestem-se mal, falam alto de mais, têm um sotaque parolo ou estranho...

De Zilda Cardoso a 25.10.2010 às 19:44

Eles vão aprender connosco e quando souberem que devem tomar banho todos os dias, e que se devem vestir desta ou daquela maneira porque é assim o costume cá, a regra, vão deixar de ser outros. Vão falar com sotaque igualzinho ao nosso e fica tudo bem. Somos iguais e amigos, e não vamos sofrer a bomba deles, porque se calhar não há bomba nenhuma.

De Isabel Maia Jácome a 25.10.2010 às 23:07

Vou lendo os comentários com um prazer enorme porque constituem para mim uma aprendizagem complementar aos posts... um acréscimo fabuloso que aqui no seu blog torna notória a importância da participação das pessoas e lhes permite a criação de uma afinidade crescente. É fabuloso promover a troca de opiniões e muito, muito enriquecedor...
...a Zilda participa e modera... com uma sabedoria fantástica... com uma serenidade e ao mesmo tempo um humor que nos prendem aqui, transformando este "lugar" num ponto de encontro e de partilha!
Estimulante!
Beijinho com admiração crescente pela sua sabedoria que não me fez enganar por considerá-la "mestre"!
Isabel

De Vicente Mais ou Menos de Souza a 25.10.2010 às 23:29

O orgulho e a vaidade, tornam-nos grandes,
iludem-nos o espaço e o tempo,
constroem palácios e templos,
para os que se acham reis e donos da perfeição!

Mas baixemo-nos só um pouco,
para perceber que neste campo em que vivemos,
encolhemos nessa situação.

De Isabel Maia Jácome a 25.10.2010 às 23:12

Acho que e precisamente essa "inquietação que me tem acentuado o meu estado de certa perturbação cada vez mais acentuada nas últimas semanas.
Mas sinto precisamente por isso e por toda a participação aqui promovida que é preciso, é necessário reagir!
Acho que vou deitar mãos à obra e já tenho tema para nova reflexão que me desiniba deste impasse de estar há muitos dias mesmo sem escrever... É preciso reagir!
Obrigada uma vez mais!
Sempre,
Isabel

De Zilda Cardoso a 26.10.2010 às 09:57

Que bom vê-la animada. Que agradável sabê-la a viver! Precisamos de si, cada vez mais.

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