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A propósito de "desalento"

por Zilda Cardoso, em 11.05.10

Peço licença, mas avanço já para a publicação de um comentário que me foi enviado por um bom e divertido amigo e que aparece hoje no seu blog vindo de um Anónimo. Foi dirigido a PU-JIE a quem agradeço os esforços para me animar e para nos animar.

 

Vou tentar alegrar o teu dia. Mas atenção, isto é historicismo, e o Popper dizia com razão que não devemos ser historicistas - a história nunca se repete.
Mas ao conhecermos os factos que fizeram história, ficamos a conhecer a fibra (ou falta dela) de um povo - e a fibra permanece.

Desde 1833 até 1931 o País esteve sempre em bancarrota técnica; em 1892, se não me engano, a bancarrota foi mesmo oficialmente declarada.
Mas se olharmos para este período (exceptuando os 16 anos da 1ª República) de relance constatamos:
- duas das mais brilhantes gerações de intelectuais portugueses viveram neste tempo - primeiro os romãnticos, Garrett e Herculano, etc, depois a geração de 70, Eça, Antero, Oliveira Martins, além do gigante Camilo que atravessou as duas gerações;
- Construiram-se pontes (algumas desenhadas por Eiffel), estradas, caminhos de ferro, barragens, monumentos - olha o palácio de cristal no Porto (!), olha o teatro D. Maria, olha o castelo da Pena;
- o nível de vida real das pessoas subiu efectivamente em média - com excepção da úlima década do sec. XIX em que houve um breve surto de miséria;
- basta ler "As Farpas", "Os Gatos", e todos os jornais e revistas deste período para constatarmos que o políticos do tempo eram, sem excepção, considerados umas bestas e uns cretinos, quando não ladrões encartados (olha o Costa Cabral).

Ora, desde a década de 40 do sec. XIX que os profetas da desgraça auguravam a invasão de Portugal ora pelos ingleses ora pelos espanhóis como consequência da bancarrota iminente - lembras-te do Cohen (aliás Henrique Burnay) no célebre jantar do Hotel Central: "a bancarrota é inevitável e aproxima-se num galope certinho"?
Mas a bancarrota ficou na história como uma nota de rodapé. O importante foram as grandes revoluções políticas - o Setembrismo de Passos Manuel, depois neutralizado pelo Costa Cabral, e este por sua vez apeado por um levantamento popular, a Maria da Fonte, e mais tarde outro movimento popular mais sério contra os "ordeiros", a Patuleia, a Regeneração, o Fontismo, e por fim o declínio e queda da monarquia, estritamente por razões ideológicas, melhor dizendo, por ódio ideológico.

E todo este fervilhar político e militar ia atemorizando os credores da banca internacional que, na verdade, nunca conseguiram que os respectivos países tomassem uma posição de força e foram engolindo década atrás de década os refinanciamentos que os bons do Silva Carvalho e Rodrigo da Fonseca lhe foram impingindo in extremis. Só para veres, sempre que o Silva Carvalho desembarcava em Portsmouth, a bolsa de Londres baixava...

O que é que eu quero dizer com isto? É que compete ao bom velho povo português dar o coice de mula nesta malta e partir para a 4ª República, ou para a restauração da monarquia, recuperando a fibra que tem sustentado o país independente desde 1143. Conheces pois tu algum Saldanha ou um Spínola disposto a sair com a tropa para a rua? Se sim, manda-me o telemóvel do gajo para pôr as coisas em marcha.

Vou tratar de saber o nº do telemóvel da pessoa em questão para começar a pôr as coisas em marcha.

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publicado às 18:17


6 comentários

De Marcolino a 12.05.2010 às 05:26

Bom dia, Zilda!

Sempre adorei sentar-me a meia distância, e a boa altura, olhando o espectáculo no redondel. Só se me obrigarem, e não tiver para onde fugir, é que participarei como figurante, caso da guerra colonial...

O texto está de ironia acidulada...!

Abraço
Marcolino

De Zilda Cardoso a 12.05.2010 às 08:05

A principal ideia do texto, no meu entender é, mais uma vez, convidar-nos à acção - não necessariamente com armas.
mas "recuperar a fibra que tem sustentado o povo português desde 1143".
Independente é difícil desde que pertencemos orgulhosamente a uma "empresa multinacional". Convida-nos a uma visão optimista, contando com bom humor o que aconteceu antes, por diversas vezes na nossa História. Situações semelhantemente confusas de que saímos com maior ou menor dificuldade.
O nosso amigo Anónimo calcula que sairemos desta como doutras no passado, dependendo da nossa vontade e querer e da "atenção plena" que dermos aos problemas de todos.

De Marcolino a 12.05.2010 às 12:16

Olá, Zilda!

Entendi o texto, e achei-o pleno de ironia acidulada, convidativa a nunca baixarmos os braços...

Zilda, passei por várias fases, bem diferentes, umas das outras. Nasci em plena 2ª guerra, e em minha casa, além da fominha, passou a existir o desemprego do meu falecido Pai. Depois entrei na sonhadora década de 50, convidativa a ter melhor futuro. Depois segui-se-lhe a década de 60 em que interrompi os meus estudos de medicina para ir para as matas fazer o que não deveria ser feito, em completo desacordo com o curso que estava a fazer... Segui-se-lhe a década de 70 e as suas diatribes, entramos pela a de 80 em que me vi desempregado em 1987. Nunca fui de esmorecer e passei a uma fase de comerciante. A década de 90 mostrou-se-me mais ductil e lá fui de vento em pôpa desejoso de concretizar sonhos realizáveis. Entrei na 1ª década de 2000, bem mais velhote e com aquela teoria dos que nos enviaram para a guerra do ultramar. Agora será a vez dos mais novos que, por mim, já dei o meu contributo, doem-se-me as cruzes, penso mais lentinho, esbronqueio por quase nada, e quando, com auxilio de Mebocaína, grito pelos meus direitos, lá diz um dos desgovernos. Para aquela mêsa não vai mais euforia, que ainda dá a travadinha ao velhinho que irá encarecer ainda mais o Serviço Nacional de Saúde...
E assim, de década em década, vou ver se chegarei a 2020, isto é aos meus 78 anitos. Depois, é dever meu, ser bem mais modesto, e pedir apenas, de lustro em lustro...
Já agora, entre no meu link e veja o resultado que deu, ter descurado, um pequenino sinal no nariz. Fui operado em Dermatologia Oncológica no passado dia 7 de Maio, a um Melanoma na narigueta. Já nem conseguia respirar!
Graças a Deus correu tudo o melhor possivel e a equipa médica foi de um profissionalismo e humanidade exemplares.
Coloquei aquela fotografia, nada simpática, mas como chamada de atenção aos futuros candidatos/as (...)

Abraço
Marcolino

De Zilda Cardoso a 12.05.2010 às 13:28

A sua vida tem sido exemplar de coragem, de boa vontade e de bondade: esta chamada arte de viver funciona muito bem consigo. É um privilégio tê-lo como amigo.

Que tudo corra bem, uma vez mais.

De Ana Filipa Oliveira a 13.05.2010 às 08:43

Zilda, o humor ajuda muito. Gosto deste texto, com um humor incentivador. (Gosto muito de ver todas as fotografias que publica nos seus textos. Mesmo que este não tenha qualquer imagem, apeteceu-me dizer-lhe: Por favor, continue a partilhar os seus ângulos connosco.) Um abraços e beijinhos.

De Zilda Cardoso a 13.05.2010 às 13:35

Muito obrigada pelas suas palavras simpáticas.
O humor é fundamental para todos especialmente em épocas ditas conturbadas. Precisamos de festas e de encontros alegres para dizermos uns aos outros o que sentimos e o que pensamos, positivamente. Talvez em conjunto, descubramos a melhor forma de agir.
Se não trocarmos opiniões e ideias... não descobrimos nada.

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