Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



NOVA CRISE

por Zilda Cardoso, em 01.05.10

Estamos fartos de ver os semblantes sombrios dos que dela falam. Ou o seu ar de vencedores – “eu bem disse!” E de sentir à nossa volta que qualquer coisa se vai desmoronar… sem sabermos o quê. Felizmente (!), a maioria das pessoas vive exactamente como antes e por isso é difícil compreender o que seja isso de que tanto se fala.

Na verdade, não nos apetece ouvir continuamente e como tema primordial alguma coisa que não vemos possibilidade de entender. E preferimos continuar com a nossa pequena rotina. Como alguém disse: ”é-nos dado apenas um dia de cada vez para viver”. Vamos vivê-lo.

Que temos nós com os outros dias que vão continuar quando nós já não estivermos cá? E com os que já estavam cá quando ainda não existíamos? Por que temos que nos preocupar com esses dias?

Não temos.

Dá-nos vontade de os deixar discutir em termos económicos e financeiros e políticos e judiciais e escolares… e por aí fora sem nos metermos no assunto. No entanto, ele é da nossa conta. Cria instabilidade e crispação. Se bem que a nossa vontade seja dizer-lhes: cheguem lá a uma conclusão e depois comuniquem-na, digam-nos só a que desfecho chegaram. E pronto, nós acreditamos. Acreditamos?

A verdade é que não podemos fazer isso. Eles têm que saber que estamos atentos e não somos assim tão ignorantes. Não sabemos de economia (mas quem verdadeiramente sabe?) nem de finanças nem de justiça nem de educação… De política sabemos alguma coisa mas não o suficiente e, por isso, eles não podem dizer seja o que for e ficarem com aquele ar sábio e sabido e poderoso e desconcertante.

Talvez nem todos tenham tempo, embora tempo seja o que verdadeiramente nos é dado a todos, para estudar a fundo essas disciplinas, mas temos todos bom senso, não é verdade? E isso, nestas questões é o mais importante. Porque imaginação… têm eles, os analistas. Nós temos bom senso, caramba, já desde o século XVII! E eles devem saber a importância deste pormenor.

Eles têm que ter isso em conta: não vamos abdicar, se bem que haja coisas muito valiosas que nós sabemos fazer e eles não. Que são muito mais importantes do que pensam. Por exemplo, saber plantar batatas. Há muito quem saiba fazer isso? E tratar delas? Acarinhá-las durante meses, sofrer com elas, arrancá-las da terra com as próprias mãos, para que tenhamos alguma coisa substancial para comer? Quantos milhares de prisioneiros foram salvos pelas batatas só na última guerra? Quantas toneladas de batatas livraram quantos detidos da miséria-da-morte-à-fome?

Devem saber que não podem pôr o pé em ramo verde, apenas pela razão de estarmos atentos e possuirmos bom senso. Estudamos, analisamos a perversidade dos seus discursos usando o bom senso comum. E não se trata de ir para a rua gravar as opiniões inauditas daqueles que sabem de outras coisas e de nenhuma daquelas de que temos estado a falar. E de que são chamados a falar.

A escolha do que deve ser divulgado para que todos tenham saberes, notícias, informações, para analisarem e reagirem de acordo deve ser feita com outro critério.

E eles que ouçam os que usam as aptidões que lhes foram concedidas e que são competências para pensar, reflectir e decidir. Não existem capacidades nem faculdades de abdicar. Nem mestrados nesta disciplina. Para já.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:37


12 comentários

De João Nuno a 02.05.2010 às 00:09

Querida Zilda,
é bem verdade...este tema é uma roda viva que vai ganhando contorno enormes à medida que o tempo passa.
Fazemos de tudo isto um circo mediático e acolhemos em nós quase que a consciência de que a crise será algo contínuo sem grandes soluções.
Bem concordo quando diz que é importante e crucial tomar-se decisões que valorizem os reais problemas.
Felizmente que ainda há pessoas como a Zilda que têm esta disciplinar de olhar solto e o vai transmitindo a quem por aqui passa. Obrigado.
Com muito carinho.
João Nuno
http://joaonunomb.spaceblog.com.br

De Fulano a 02.05.2010 às 00:11

Um exercício esclarecedor é comer salada plantada por nós próprios. A "mísera" salada. A trabalheira que é. Nas escolas devia haver a disciplina SALADA. Um exercício de humildade.

De Zilda Cardoso a 02.05.2010 às 14:13

O mais de acordo que é possível! SALADA com possibilidade ou obrigação de doutoramento. Mas não acho que fosse um exercício de humildade. Salada tem muito que se lhe diga, além de que inclui matemática acerca da qual a maioria dos alunos acha de bom tom dizer que não gosta. Que não gosta de matemática! Essa agora!

De Isabel Maia Jácome da Costa a 04.05.2010 às 00:52

Zilda... :)... "SALADA com possibilidade ou não de doutoramento"!... decididamente!!!!!
Abraço... com uma gargalhada sentida, bem disposta e completamente solidária...
Isabel

De Marcolino a 02.05.2010 às 11:17

Olá, Zilda!
Desejo-lhe um Dia da Mãe, passado em Familia, pleno de afectos!
Abraço
Marcolino

De Anónimo a 02.05.2010 às 11:58



NÃO GOSTO!

De Zilda Cardoso a 02.05.2010 às 14:15

De que é que não gosta, Anónimo?
Não tem nome e não diz de que não gosto?! Assim não podemos jogar. não entro.

De Zilda Cardoso a 02.05.2010 às 22:38

No facebook diz-se gosto ou não gosto querendo significar o assunto interessa-me ou não , gosto de vê-lo discutido ou não. Mas este comentário apareceu primeiramente no m/blogue e aqui costuma-se dizer de que se gosta ou não e porquê. Não é? Obrigada.

De CC a 02.05.2010 às 20:46

Pois eu gostei, e muito!
Eles, os que acham que são responsaveis pelas nossas vidas e os que não achando acabam por nos dar ou retirar os meios para a vivermos, eles, têm a capacidade de tornar o dia seguinte assustador: hoje é mau mas é melhor do que ontem e pior do que o amanhã; a gripe das aves vai matar uns tantos, os outros, vão morrer com a gripe dos porcos; obrigam-nos a descontar para um sistema de saúde e de reformas mas não garantem que quando lá chegamos o sistema ainda funcione... quando é que nos deixam viver o dia a dia sem sobressaltos? Se mais nada fazem, ao menos deixem-nos viver o dia a dia sem sobressaltos.
Fique bem!

De Manuel a 04.05.2010 às 11:11

Acho a maior graça. Comer tomate (odeio, cru) previne isto, a cebola previne aquilo, o chocolate faz bem, o chocolate faz mal, um copo diário de vinho é saudável, qualquer tipo de álcool é nocivo, deve-se beber água em abundância, mas não se pode exagerar...

Diante desta profusão de conselhos, acho mais seguro não mudar de hábitos.

Sei completamente o que me faz bem e o que faz mal à minha saúde.

Ter prazer faz-me muito bem.
Dormir põe-me o conta-quilómetros a 0.
Ler um bom livro faz-me sentir novinho em folha.
Viajar causa-me tensão antes de embarcar, mas depois rejuvenesço.
As viagens de avião não me incham as pernas: incham-me o cérebro, volto sempre cheio de ideias.
Zangar-me provoca arritmia.
Ver pessoas tomarem atitudes estúpidas dá-me voltas ao estômago.
Ver pessoas atirarem fora lixo pela janela do carro, faz-me perder toda a fé no ser humano.
E os telejornais... os médicos deviam proibir de se ver - como doem!
Andar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está ao rubro,
faz muito bem! Exercita o autocontrole e ainda se acorda no dia seguinte sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que se disse ou do que se fez na véspera à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas magoadelas aos outros faz cancro, não há cá tomate que se tome ou mozzarela que previna.
O ir ao cinema é melhor para saúde do que comer pipocas!
Conversar é melhor do que estar sempre a dizer piadas.
Fazer exercício é muito melhor do que nos fazerem uma cirurgia.
Fazer humor é melhor do que ter rancor.
Ter Amigos é melhor do que conhecer gente influente.
Poupar é melhor do que dever.
Perguntar é melhor do que duvidar.
Sonhar é melhor do que nada!

MNA

De Ana Filipa Oliveira a 13.05.2010 às 14:48

Zilda, sou sincera: este post é um texto longo e que, quanto a mim, não é de uma leitura tão ligada como outros. E não sei se isso não se prende também com uma falta de clareza. Pois, no fim do texto, sinto que entrei num viagem em que chego ao mesmo local sem o sentimento de descoberta de soluções , de paisagens novas. No outro dia, ouvia uma portuguesa indignada a ver as notícias que vinham de aumento de impostos. E ela perguntava-me "Onde é que eu posso reclamar? Onde é que eu posso manifestar-me e ser ouvida?" e ficou por aí. Acho que somos todos um pouco assim. Reclamamos, dizemos que vamos fazer e acabamos por não fazer nada. Acomodamo-nos. No entanto, sinto-me grata pela partilha da sua visão e pela reflexão que ela gerou. Votos da continuação de uma boa blogagem !

De Zilda Cardoso a 14.05.2010 às 09:40

Querida Ana Filipa
Tem de certeza toda a razão e eu agradeço-lhe ter dito o que pensava e pensa sobre a forma como eu própria disse o que pensava - foi de forma confusa, sem dúvida, e que pretendia ser bem humorada.
Muito obrigada.
A crise é real mas talvez os meios de comunicação possam ajudar-nos melhor a sair dela - eles são tão importantes na nossa vida - incitando-nos a estar atentos e a usar a inteligência e sobretudo o bom-senso para discernirmos o que é importante do que não é. Porém, se estivermos mal informados - se as notícias estiverem sofismadas e, em cosequência, os nossos conhecimentos enganosos - como podemos
pensar, reflectir e decidir bem? Refiro-me às notícias que vemos e ouvimos nos jornais, mas também às análises dos especialistas, aos discursos dos políticos...
No fundo, o que quis dizer, é que devemos prestar "atenção plena" para chegarmos a algum tipo de compreensão.

Comentar post





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D