Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



O ESSENCIAL

por Zilda Cardoso, em 24.04.10

 

 

Hoje, ao fim do dia, tomei uma decisão importante: juntar pedaços de mim que têm andado dispersos por aí e tentar construir uma unidade coerente. Como se isso fosse possível ou sequer desejável.

Metade dos filósofos que conheço pensam que tem que haver unidade para haver conhecimento, querem dizer, não se pode conhecer o que varia, o que não é uno. O que é uma tarefa transcendente, mas será o meu jogo para os próximos tempos. E que farei alegremente, não superficialmente. Porque tal como cita o meu amigo bloguista Manuel, a partir de Mário Andrade, não tenho tempo nem desejo de me ocupar senão do essencial.

E diz M. A. que não quer debater rótulos mas conteúdos… E que tendo poucas cerejas na taça (como eu trinco de vagar cerejas frescas e duras entre dentes quase com raiva mas com enorme volúpia), quer aproveitar todas as que restam a viver ao lado de gente humana, coisas e gente de verdade. E eu ponho-me a pensar no que é o essencial como se fosse um objecto e no que é gente de verdade como se houvesse gente de verdade ou como se eu a conhecesse.

Não será o essencial para alguns a telenovela diária? Ou o mexerico com o vizinho? Ou a luta fratricida com o colega de emprego competitivo? Ou com o atleta que corre ao nosso lado? Ou a discussão inflamada sobre futebol e o clube rival e o árbitro e o treinador e o dirigente…? Ou sobre estafados temas políticos?

Não será alguma dessas coisas o essencial? Serão algumas dessas pessoas… gente de verdade?

Haverá muitos essenciais. E muito diferente gente de verdade. De certeza, há conceitos a definir.

O que é para mim essencial não é para o outro nem para o outro?

Então o que me interessa descobrir é o essencial em si de que faria ciência, baseado em estudo e análise? Ou de que faria religião baseado em fé?

Ou interessa-me o variável essencial que satisfaz cada um que proclama a sua opinião sem fundamento?

Há os meus amigos e as pessoas que admiro a quem pergunto tudo isso e cujos textos vou ler com redobrado prazer.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:39


14 comentários

De Marcolino a 25.04.2010 às 01:13

Boa noite, Zilda!

Citando-a: «Metade dos filósofos que conheço pensam que tem que haver unidade para haver conhecimento,»

Confesso que, para existir a tal unidade, achei sempre, por óptimo, desligar-me daquilo que me rodeia, concentrar-me em mim, sem pontos de referência exterior que me distraiam da minha verdadeira essência!

Se os há melhores do que eu, que o sejam; se-lo-ei à minha medida, sem me desejar superar, muito menos inferiorizar.

Deus deu-me um corpo e uma alma, se em qualquer deles existir desajustamento, por falha de me saber dosear, estrago este conjunto maravilhoso, que sou eu, e que tanto amo!

Estas suas duas fotografias primaveris, estão de uma densadade harmónica, que me faz sonhar.

Abraço de óptimo fim-de-semana

Marcolino

P.S. Os meus alunos séniores, são de uma inteligência invulgar, a ponto de os olhar, a cada dia que passa, ainda com muito mais carinho!

De A.Küttner de Magalhães a 25.04.2010 às 02:03

Interessante, uma vez mais, o Essencial e o Acessório? Para cada Pessoa e como cada Pessoa mais valoriza determinados actos, determinadas situaçoes.
Deve haver relaçoes tempo/espaço próprio de todos e de cada um, para “isto ou aquilo, ser ou não mais relevante”.
Sendo assim , algo de essencial hoje, pode passar a acessório amanhã, e até o contrário, conforme o momento, conforme a vivência.
Sendo que presumo que o Essencial não possa ser, ou não deva ser o que “está a dar”, o que é politicamente correcto (dizer-se e falar-se), o que todos os meios de comunicação social relatam, até à exaustão, e, exagero.
Mas por certo que leremos aqui, mais sobre este assunto.

De A.Küttner de Magalhães a 25.04.2010 às 11:04

Este ano com o atraso da vinda do Bom Tempo - calor, ceú aberto, não chuva - tenho todos os dias de manhã e à noite, tentando perceber o "aumento" de folhas nas árvores que consigo vislumbrar à m/ volta.

Isto: evidentemente que tem a ver com as duas excelentes fotografias colocadas neste post.

De facto, quase todas as árvores estão, já? só agora? - com muita e belissima folhagem, já não era, sem Tempo, no Tempo em que estamos. Mas , dá para entender como aqui, a Natureza ainda funciona.

Claro que é bom, claro que é bonito, claro que é o desejado.

E o nosso papel no meio disto tudo. Degradando a Biodiversidade? Ajudando-o? Complicando-a, baralhando os Tempos! ?

Nem tudo de menos bom foi sendo, continua a ser feito pelo ser humano. Bem pelo contrário, temos feito muito de muito bom.
E de tremendamente útil, mas de repente desatinamos e queremos sempre mais e mais, e vale tudo, e aí com a nossa racionalidade e emocionalidade , cada uma a querer chegar primeiro, a querer estar mais em frente, dá-mos de facto cabo, de nos próprios e do que nos rodeia, mesmo quie seja nossos iguais.

Assim, fica-nos a necessidade de pensar, de nos sabermos controlar, de saber ter em conta o Espaço e o Tempo de hoje, já nem só para filhos e netos, mas até - e porque não? - para nós próprios, ainda hoje!?

De João Nuno a 25.04.2010 às 13:32

Já dizia Saint Exupéry que "o essencial é invisível aos olhos"...não é verdade querida Zilda?
Na realidade, acho que há muita coisa essencial que, felizmente, há quem as veja com os olhos da alma e do coração, talvez os mais profundos. E é esta certeza de que estamos, cada vez mais, a ficar despertos para o que nos rodeia que me faz acreditar neste mundo repleto de pessoa e lugares belos. Talvez a idade ainda me obrigue a ter apenas esta visão.
Acredito que o essencial de uns não seja o de outros, porém, também acredito que o essencial de cada um, ainda que diferente, faça sentido para essa pessoa, tendo em conta o que viveu, o que aprendeu, o que quis aprender e tudo o mais. Lá no fundo, bem lá no fundo, mesmo os mais díspares...tocam-se em alguns pontos.
Obrigado pelos maravilhosos textos que nos fazem sempre valorizar o sol, a vida e o tanto mais.
Com carinho,
João Nuno

http://joaonunomb.spaceblog.com.br

De Marta M a 25.04.2010 às 19:33

Zilda:
Apostaria aqui:
O Essencial não é o que nos "eleva" a alma e a mente?
Acessórrios, tudo o resto?
Abraço e bom Domingo
Marta M

De Zilda Cardoso a 27.04.2010 às 07:53

Obrigada, Marta. Será, mas é variável. Não tem um valor universal e absoluto.

De Isabel Maia Jácome da Costa a 26.04.2010 às 09:53

Zilda, de facto, "o essencial". Nos meus 51, é o que procuro. Juntar também "os pedaços de mim que têm andado dispersos por aí e tentar construir uma unidade coerente. Como se isso fosse possível ou sequer desejável." :) Quem me conhece sabe que o tenho procurado com seriedade, empenho, alegria e tristeza, também... mas muito consciênte dessa multiplicidade que existe em cada um de nós... ("Um, Nenhum e Cem Mil" do Pirandello...) e dos múltiplos apelos de tudo o que nos rodeia e nos dispersa... e da dificuldade de nos encontrarmos e a esse "essencial" em nós e dentro de um "sistema" preponderante ou tendencialmente aglutinador... esse que nos dificulta profundamente essa mesma procura e consequentemente esse encontro.
Não desisto no entanto. Reflicto na congruência. Em mim, com os outros, com a natureza e sobretudo em relação à postura a assumir na sociedade em que vivemos, de que fazemos parte e que, precisamente porque está doente, precisa que encontremos, cada um de nós, forma ou formas de conseguirmos intervir e ir mudando alguma coisa... quiçá, precisamente o "essencial", também... ou começando por aí.
Lirismo? Ás vezes sinto-me lírica. Outras não. Mas muitas vezes, cansada... cansaço que procuro, preciso combater. Mas faz parte dum pedaço de consciência que também é necessário ter.
E é bom saber que não estamos sozinhos. Que muitos se interesam e empenham. Que há quem esteja mais à frente e nos pode ajudar nesta caminhada. Caminhada individual, mas também caminhada conjunta. Caminhada que necessita ser de todos e de cada um de nós.
...o "essencial" portanto. Por mais tempo e dificuldade que exija a encontrar.
Sempre,
Isabel

De Zilda Cardoso a 27.04.2010 às 08:04

Aprecio os seus pensamentos profundos e sempre interessantes que se encadeiam, mas que nos levam a algum lugar sempre mais luminoso e mais próximo por caminhos que desejo não muito difíceis.

De CC a 26.04.2010 às 22:05

Muitas vezes é difícil discernir o essencial do acessório mas é importante que tentemos .
A própsito, lembrei-me de um episódio contado pela jornalista Aura Miguel. Quando estava credenciada, como jornalista, no Vaticano perguntou um dia ao Papa João Paulo II o que deveria fazer para ser uma boa jornalista. Depois de um grande silêncio o Santo Padre respondeu simplesmente: discernir.
Como digo, nem sempre é fácil mas temos que nos concentrar no essencial...
Fique bem!

De Zilda Cardoso a 27.04.2010 às 08:14

DISCERNIR, pois. Mas é extremamente difícil, não é verdade? Seja para quem for. Porque há sempre possibilidades sem fim. Se considerarmos todas, mesmo que todas sejam apenas as que nos ocorrem no momento, sabemos que há milhares de outras. E nunca realizaremos nada se sopesarmos todas as hipóteses e possibilidades. A vida do espírito é muito mais complicada do que a outra, a que nos faz mexer a todo o momento sem pensar muito no que vai acontecer a seguir. A vida que inventamos, pelo menos, neste lado do planeta, não nos deixa pensar muito e discernir. É pena.

De Augusto Küttner de Magalhães a 27.04.2010 às 17:02

Talvez estejamos demasiado agarrados ao "ter", esquecendo o "ser"! Mas do lado de lá do planeta, também se vai muito atrás do "ter".
Veja-se a globalização tão economica e tão pouco humana e social??!!!
Talvez seja necessário ficar-se pelo "ter" que já sem "tem" e começar-se a pensar em mais "ser".

Talvez abstaindo pensamentos: talvez agarrrando o essencial e o acessório em devida medida e contenção!

Como?

De Anónimo a 07.05.2010 às 20:21

Zilda,

O essencial...é o brevíssimo momento de amor pelos outros...independentemente do que eles sejam: bons, maus, criminosos, santos, humildes, violentos, justos, injustos, desprezíveis, traidores, ingénuos, ignorantes, medrosos, mentirosos, ingratos... é o brevíssimo momento em que sentimos por todos eles um amor límpido, sem julgamento. Um amor pelas criaturas de Deus que todos são. Um amor que é aceitação incondicional da vida.
O essencial, é a essência que se atinge. E a essência é o retorno ao estado de graça...

De Zilda Cardoso a 10.05.2010 às 08:07

Muito obrigada.

De Ana Filipa Oliveira a 13.05.2010 às 14:59

Conheço esta inquietação , esta vontade de agrupar tudo muito certinho como se fossem peças de puzzle, que muito bem se aconchegam e formam uma imagem una. Conheço bem a dificuldade de lidar com esta impossibilidade. "Agora vou arrumar tudo e renascer para a Vida.", ideias tolas que dão uma sensação de angústia, começando na contracção da barriga e um aperto na garganta. E depois acontecem momentos que dissipam esses pensamentos... até à próxima vez. Grata pela sua rica partilha! Um abraço e um ramo de flores bonitas. (virtuais, claro ;-)

Comentar post





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D