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O silêncio da folha do limoeiro

por Zilda Cardoso, em 15.03.10

 

Percebi que era uma falha reparável: da planta arbustiva chamada sabugueiro não tinha qualquer saber, até há poucos dias. Sei hoje ser objecto de lendas como a de a cruz de Cristo ter sido feita da sua madeira, de certo porque dos frutos - pequenas bagas vermelho-escuras - escorre um líquido intenso cor de sangue. Mas que admira, se mora nela uma curandeira, que o sumo das bagas maduras cure a enxaqueca? E que a casca actue como laxativo? E que das folhas se prepare um unguento? Das flores se prepara o chá perfumado e aconchegante que dizem ser bom para curar resfriados, tosse, sarampo…
Calculei que houvesse mais informações disponíveis, soube delas e… fiquei fascinada. Praticamente, não há nada que não possa ser curado com as flores secas, as bagas, as folhas, a casca ou o miolo do sabugueiro. São tantas as aplicações e tão valiosas – na indústria farmacêutica, agro-alimentar, têxtil e cosmética - que decidi falar com alguns cientistas meus conhecidos para que estudem a planta e lhe descubram atributos para além dos populares e explorados. E talvez valha a pena aperfeiçoar o seu cultivo, além de promover novas plantações.
De experiência, sei que se faz compota muito agradável das suas bagas - uma simpática amiga ofereceu-me um frasquinho artesanal com cobertura minúscula de pano aos quadrados vermelhos e um elástico em volta do gargalo. Moderação no consumo é recomendável porque as bagas serão ligeiramente tóxicas, ainda que a compota seja muito saudável! Coisas próprias de objectos muito antigos e lendários. "Par coeur", sei que das folhas pode sair um refresco muito fresco, espero pelo Verão para experimentar.
O que me perturba, é não ter descoberto estas árvores apesar dos quilómetros que já calcorreei na muito antiga Quinta do Casal, e dizem-me ser impossível não haver ali uma família tão velha como a dos sabugueiros. Eu não vi.
Acho que confundo um pouco os sabugueiros com os salgueiros que são árvores que há, já houve mais, junto do ribeiro ao fundo da quinta e que, em geral, choram para a água. Alguns são arbustos esquisitos, torcem-se e rastejam, e há-os brancos e há os negros, usam-se como vimes para cestos e cadeiras, e para o fabrico de aspirina. São plantas generosas até mais não, e pouco consideradas. A mim explicaram-me: cortam-se, não servem para nada. Deu-me um estremeção!
Tudo isto vem a propósito das memórias de infância de Mónica Baldaque.  Com o livro diante de nós, discuti com a autora os perfumes, as cores e as qualificações dos sabugueiros, dos limoeiros e dos salgueiros. Mónica assegura-me que, quando era criança, o Porto cheirava a sabugueiro. Eu só posso dizer que, se conhecesse as qualidades do sabugueiro, não teria tido enxaquecas metade da minha vida.
A folha do limoeiro",  tem o retrato de Laura por seu pai na capa e um desenho de sua mãe no interior, dá-nos conta das aventuras de Laura que adorava a casa e a quinta dos avós no Douro, onde passava férias. E era lá que estavam as arcas dos tesouros.
“Vivemos rodeados de vozes” diz Laura. “Tudo tem voz: o vento, a chuva, as folhas das árvores… As próprias recordações têm uma voz. São companhias…”       
Mónica ou Laura conta de forma muito bonita como ouve essas vozes e as fixa, e como partilha com elas a própria voz. E promete continuar com a pena e o pincel a fixá-las e a partilhá-las para nosso regalo.
Ouve igualmente o silêncio, houve muito silêncio nesse tempo que descreve, se bem que povoado dos mistérios e dos segredos e das histórias que a sua imaginação e a sua sensibilidade sabem construir murmurando. Do princípio ao fim desta primeira parte das memórias, há muito....
É o que nos acompanha, para além da folha do limoeiro em que bebia a água gelada da mina: o seu silêncio.

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publicado às 19:06


11 comentários

De João Nuno a 16.03.2010 às 02:01

Fiquei, como sempre, rendido ao texto. Adorei.
Sente-se e respira-se alma!
E, nestes dias de sol, acredito que os sorrisos tenham tido mais energia e vitalidade.
Até si, um abraço e uma boa semana!
João Nuno
http://joaonunomb.spaceblog.com.br

De Zilda Cardoso a 20.03.2010 às 11:22

Muito obrigada, João Nuno: é a sua simpatia. Acabei de visitar o seu blogue, a sua manta de retalhos

http://joaonunomb.spaceblog.com.br

Tocam-me as suas palavras de jovem que tem um objectivo e sabe que vai atingi-lo... Gostava muito que todos os que me lêem habitualmente e os outros, milhares de outros, tivessem interesse em o visitar e em comentar os seus posts.
Até sempre e desejos de sucesso.

De Isabel Maia Jácome da Costa a 21.03.2010 às 08:43

Querida Zilda

Aproveito este seu post para pedir um favor.
Não sei se por ignorância minha deixei de conseguir "comentar" no blog do Nuno. Tenho-o visitado, já consegui trocar algumas palavras com ele mas, não tendo resistido aos últimos textos lindíssimos que escreveu, não voltei a conseguir que qualquer comentário, por mais simples e elogioso, fosse aceite.
Dá sempre "erro" depois de digitar o "texto" de código: três letrinhas que experimentei colocar de todas as formas que a minha maginação me foi pedindo. Será que está a haver algum problema no Blog do Nuno? Se ele me ler aqui, ou a Zilda lhe puder dizer algo, poderia verificar se se passe alguma coisa. Acho estranho a ausência de comentários a textos tão bonitos! Muitos como eu não resistirão a envir-lhe sorrisos em palavras quando terminam de o ler.
Concordo consigo. Vale a pena visitar o blog do Nuno e dar-lhe a maior força. Ele merece.
Obrigada
Sempre,
Isabel

De João Nuno a 21.03.2010 às 21:15

Querida Zilda, já deixei o mesmo comentário no meu blogue, mas como a Isabel escreveu estas palavras aqui...aproveito também para as deixar. Obrigado.
***

Querida Isabel,
Não sei como lhe hei-de agradecer as suas palavras. Na verdade, acho que nem sou merecedor de tanto.
Fico muito feliz por passar aqui e por gostar do que lê. Fico, na verdade, imensamente feliz.
Não sei o que se passou com os comentários. Eu, depois de ler o seu comentário no blogue da Zilda Cardoso, tentei e consegui adicionar um comentário. Não sei o que se passa, às vezes, com estas tecnologias! Na verdade não gosto muito do “spaceblog”…mas falta-me vontade e tempo para mudar tudo para um novo servidor. Uma hipótese é começar um blogue do zero…vou pensar no assunto.
Em jeito de curiosidade, quer apresentar-se de um modo mais detalhado Isabel? Sei apenas que tem filhos (pelo facto de já o ter mencionado nos seus comentários) e que é muito simpática.
Acabei de actualizar o blogue.
Um resto de dia feliz, com a certeza de que a vida é um mar…e aí, enrolados nas ondas, cabem todos os nossos sonhos.
Obrigado por tudo e por tanto.
Com ternura,
João Nuno

De Augusto Küttner de Magalhães a 16.03.2010 às 16:18

Um , mais um, excelente texto. Gostei muito.

Augusto

De Isabel Maia Jácome da Costa a 21.03.2010 às 08:48

Ah Zilda... a magia das árvores e a magia das suas palavras...
que bom e que bonito!...
Muito obrigada
Isabel

De monica baldaque a 31.03.2010 às 21:00

Zilda!!!!!!!!!

Confundir sabugueiro com salgueiro!! Não!!

Espero que o sabugueiro que mandou plantar na quinta cresça depressa, e lhe ponha a língua de fora sempre que a vir passar!

De Zilda Cardoso a 01.04.2010 às 09:37

Vou dizer-lhe um segredo, Mónica: gosto muito de me enganar. Isso permite-me reflectir sobre o assunto, às vezes, sobre vários assuntos e fico muito mais sábia! Imagine o que eu aprendi sobre essas árvores nestes últimos dias!

De Zilda Cardoso a 01.04.2010 às 19:38

Não falei do sabugueiro-com-a-língua-de-fora, falo agora. Calcula que adorava ver isso, não? Vou pedir-lhe que faça uma aguarela de um sabugueiro nessa postura descarada, género País das Maravilhas. Tudo muito bonito e colorido. Please.

De monica baldaque a 01.04.2010 às 21:03

Zilda,

Vou fazer. De resto não é difícil. O sabugueiro é uma árvore com um certo mau humor, teimosa e respondona, de carácter um pouco duvidoso, sobretudo malcriada. Pela frente, são só sorrisos e mesuras, mas vira-lhe as costas e põe-lhe a língua de fora!
A minha avó odiava-a. Todos os anos a mandava cortar rente, mas ela renascia, sorrateira, meio escondida entre a folhagem de um castanheiro, e as pedras do muro, para passar despercebida. E depois, só crescia de noite, para ninguém ver . vou desenha-la!

De Zilda Cardoso a 02.04.2010 às 08:57

Mónica, gostei de saber tudo isso do sabugueiro. Precisamos desses loucos, malcriados e fingidos para apreciarmos melhor os outros. No design contemporânio a forma segue rigorosamente a função e é tudo tão clean que rapidamente se tornou clássico. Não é defeito nenhum, pelo contrário. Mas surgiu logo a vontade de introduzir uns arabescos barrocos para animar. O que eu penso do sabugueiro da s/avó é que ele era indispensável naquele jardim.
Vou ver se já plantaram o meu, lá para o fundo da Quinta. De certeza que me vou divertir com ele!
Muito obrigada pelas suas palavras.

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