Percebi que era uma falha reparável: da planta arbustiva chamada sabugueiro não tinha qualquer saber, até há poucos dias. Sei hoje ser objecto de lendas como a de a cruz de Cristo ter sido feita da sua madeira, de certo porque dos frutos - pequenas bagas vermelho-escuras - escorre um líquido intenso cor de sangue. Mas que admira, se mora nela uma curandeira, que o sumo das bagas maduras cure a enxaqueca? E que a casca actue como laxativo? E que das folhas se prepare um unguento? Das flores se prepara o chá perfumado e aconchegante que dizem ser bom para curar resfriados, tosse, sarampo…
Calculei que houvesse mais informações disponíveis, soube delas e… fiquei fascinada. Praticamente, não há nada que não possa ser curado com as flores secas, as bagas, as folhas, a casca ou o miolo do sabugueiro. São tantas as aplicações e tão valiosas – na indústria farmacêutica, agro-alimentar, têxtil e cosmética - que decidi falar com alguns cientistas meus conhecidos para que estudem a planta e lhe descubram atributos para além dos populares e explorados. E talvez valha a pena aperfeiçoar o seu cultivo, além de promover novas plantações.
De experiência, sei que se faz compota muito agradável das suas bagas - uma simpática amiga ofereceu-me um frasquinho artesanal com cobertura minúscula de pano aos quadrados vermelhos e um elástico em volta do gargalo. Moderação no consumo é recomendável porque as bagas serão ligeiramente tóxicas, ainda que a compota seja muito saudável! Coisas próprias de objectos muito antigos e lendários. "Par coeur", sei que das folhas pode sair um refresco muito fresco, espero pelo Verão para experimentar.
O que me perturba, é não ter descoberto estas árvores apesar dos quilómetros que já calcorreei na muito antiga Quinta do Casal, e dizem-me ser impossível não haver ali uma família tão velha como a dos sabugueiros. Eu não vi.
Acho que confundo um pouco os sabugueiros com os salgueiros que são árvores que há, já houve mais, junto do ribeiro ao fundo da quinta e que, em geral, choram para a água. Alguns são arbustos esquisitos, torcem-se e rastejam, e há-os brancos e há os negros, usam-se como vimes para cestos e cadeiras, e para o fabrico de aspirina. São plantas generosas até mais não, e pouco consideradas. A mim explicaram-me: cortam-se, não servem para nada. Deu-me um estremeção!
Tudo isto vem a propósito das memórias de infância de Mónica Baldaque. Com o livro diante de nós, discuti com a autora os perfumes, as cores e as qualificações dos sabugueiros, dos limoeiros e dos salgueiros. Mónica assegura-me que, quando era criança, o Porto cheirava a sabugueiro. Eu só posso dizer que, se conhecesse as qualidades do sabugueiro, não teria tido enxaquecas metade da minha vida.
“A folha do limoeiro", tem o retrato de Laura por seu pai na capa e um desenho de sua mãe no interior, dá-nos conta das aventuras de Laura que adorava a casa e a quinta dos avós no Douro, onde passava férias. E era lá que estavam as arcas dos tesouros.
“Vivemos rodeados de vozes” diz Laura. “Tudo tem voz: o vento, a chuva, as folhas das árvores… As próprias recordações têm uma voz. São companhias…”
Mónica ou Laura conta de forma muito bonita como ouve essas vozes e as fixa, e como partilha com elas a própria voz. E promete continuar com a pena e o pincel a fixá-las e a partilhá-las para nosso regalo.
Ouve igualmente o silêncio, houve muito silêncio nesse tempo que descreve, se bem que povoado dos mistérios e dos segredos e das histórias que a sua imaginação e a sua sensibilidade sabem construir murmurando. Do princípio ao fim desta primeira parte das memórias, há muito....
É o que nos acompanha, para além da folha do limoeiro em que bebia a água gelada da mina: o seu silêncio.