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Que dois!

por Zilda Cardoso, em 20.01.10

 

 
Não sei bem quem são, estes passarocos. São gente que aprecia ter os pés assentes no sólido, e que provavelmente não gosta da água nem do cheiro dela, dita doce, hoje muito forte na saída da ribeira (com minúscula) da Granja para o Rio (com maiúscula) Douro. 
 
O Douro estava bonito à sua maneira estouvada e aquela ribeira que podia ser gentil mas não é, polui o mais que pode, espalhando um odor nauseabundo que outros pássaros - os que precisam comer muito - suportam. Porque ali, há sempre muito que comer. E muito com quem cavaquear.
 
Estes dois, porém, solitários e bem comportados, fecham os olhos e tentam não se perturbar. Se há pessoas que permanecem sete dias sem comer nem beber, por baixo de escombros, e vivem e sorriem, cheias de bons sentimentos para com toda a gente... por que razão não haviam de alegrar-se, estes pássaros?! É que eu achei que eles estavam a sorrir, apesar de sonolentos, perdoem-me.
 
Os nossos sentimentos são coisas estreitas e próximas que se colam a nós, nos apertam o coração ou o alargam e não nos deixam raciocinar.   A cabeça aquece, conseguimos respirar, mas não… pensar ponderadamente.
Os sentimentos limitam-nos. No caso das pessoas sob os escombros, não é preciso nem conveniente raciocinar, (por uma vez!). No caso dos pássaros, a questão é de instinto.
 
As nossas atitudes seriam aceitáveis, se a cabeça clara e firme fosse realmente o que comanda o corpo em toda a sua complexa realidade física e mental.
 
Por tudo isto, adorei ver aqueles dois, afastados dos outros e da saída da água pestilenta, aonde chegava o cheiro, (sinto-o com clareza quando olho para as fotografias que tirei no sítio),  e os ecos do "gossip" desenfreado daquelas pernaltas cinzentas ou garças e dos outros, as lindíssimas rolas do mar, os borrelhos,  os guinchos, as alvéolas, os maçaricos das rochas e a grande colónia de corvos marinhos, circunspectos, de preto, malta arrebatada que só quer sobreviver.
 
Na companhia um do outro, aqueles dois, apesar de todas as impertinências, ensaiavam uma felicidade que nenhum pensamento pode legitimar.
 

 

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publicado às 21:38


12 comentários

De Vitor Raimundo Martins a 20.01.2010 às 23:08

Essa poluição que refere, infelizmente não deverá ter solução, pois não se percebe porque é que passados tantos anos, tudo permanece igual?!
Quando eu vivia em Luanda e ia passear para a marginal, lembro-me com saudades do cheiro pestilento da baia que contrastava com a beleza dos crepúsculos! As fotos que guardamos nos armários, mostram-nos a natureza, o cheiro esse, só o recordamos se formos aí ao Rio Douro! É quase cómico e caricato, mas é verdade, por isso quando vou para esses lados, lembro-me sempre tanto da minha infância!

Triste sina a minha, o cheiro fétido… leva-me com saudades à minha infância!
vrm

De Zilda Cardoso a 21.01.2010 às 10:42

É um comentário surpreendente. Decerto, tem saudades da infância, não do mau cheiro. É engraçado um mau cheiro trazer boas recordações. Eu nunca pensaria possível!
Tenho pena que esta questão da pestilência aconteça aqui mesmo, na margem da cidade, mas provavelmente os pássaros não estariam aqui se não houvesse coisas a apodrecer e a cheirar de forma repugnante. Para termos coisas boas, temos que aceitar más... deve ser isso.
Este passeio à beira rio... é muito agradável para mim e para muitas outras pessoas, gosto da passarada selvagem, diverte-me observá-la mesmo a olho nu - neste momento o binóculo desapareceu.
É um dos bens da cidade que continua desconhecido da maior parte dos portuenses ou que não o gozam embora saibam que existe. Tenho levado là muitos gente nascida aqui tal como os seus trisavós e que desconhece o lugar. O Porto é uma cidade maravilhosa ligada ao rio e ao mar. Mesmo que Gaia seja oficialmente uma outra cidade por razões de que não sei falar, para mim, o Porto tem um rio e pontes que ligam uma zona a outra e é sempre a mesma cidade.

De Marcolino - Passatempo a 23.01.2010 às 18:06

Ivan Petrovich Pavlov
(Fisiologista russo)
14-9-1849, Riazán
27-2-1936, Leningrado (atual São Petersburgo)

Pavlov era filho de um sacerdote e começou a estudar Fisiologia aos 26 anos, depois de ter-se dedicado também à Teologia e às Ciências Naturais. Estudou principalmente a fisiologia da digestão e, sobretudo, realizou investigações com cães, examinando sua salivação e os sucos gástricos. Baseou seus estudos no condicionamento: fez a experiência de alimentar os cães ao som de uma música determinada; posteriormente, ao ouvirem apenas a música, suas cobaias reagiram com secreção de saliva e de sucos gástricos. A distinção entre o reflexo condicionado e o não-condicionado tornou-se básica para a psicologia que estuda a reflexologia e a mecânica. Foi essa a direção que tomou, mais tarde, a chamada corrente "behaviorista", segundo a qual ocorre no cérebro humano uma série de reações reflexas e de comparação. Em 1904, Pavlov obteve o Prêmio Nobel de Fisiologia e de Medicina.

De Zilda Cardoso a 23.01.2010 às 20:14

Onde quer chegar, caro behaviorista? Reflexos a propósito das recordações que o mau cheiro traz? Neste caso, haverá uma relação permanente entre o cheiro e a resposta do organismo? Há um reflexo incondicionado?

De Marcolino - Passatempo a 23.01.2010 às 23:18

Olá, Zilda!
Respondi ao meu lacónico comentário, complementando-o com algo de muito interesse sobre Pavlov.
Noite tranquilissima e continuação de um óptimo fim-de-semana!
Marcolino

De Zilda Cardoso a 24.01.2010 às 09:00

Compreendo e agradeço as suas informações interessantes e sempre muito úteis. Eu estava a querer ir mais longe com o Pavlov e os reflexos condicionados que acho um tema de extraordinário valor.

De Augusto Küttner de Magalhães a 21.01.2010 às 22:16

A Ribeira da Granja, penso que há 2 ou 3 anos começou a ser melhor resguardada em todo o seu percurso, mas penso que está votada ao desleixo, neste ultimo ano.

Se a Zilda conseguir ver alguns pontos a montante do Rio Douro, onde aparece - a ribeira da Granja - a ceú aberto, notam-se os melhores tratos havidos ..... e um menos cuidado hoje! Porquê? não sei, responder! Mas com estas chuvas deste verdadeiro Inverno, ficou até bem limpa, agora já está suja, a chuva limpou, sem chuva voltou a sujar-se!!!!!!!

Quanto à Foz e o Rio Douro trazerem recordações pelo mau cheiro!!!! nem pensar!!!!!! aqui houve ou há um problema de olfacto, e não de Pavlov e do seu cão, como o nosso Amigo Marcolino refere....a Foz, o Porto, o Rio Douro, podem trazer boas ou péssimas recordações, mas não pela petilência!!!Never!!!

De Eulália Mota a 22.01.2010 às 19:18

Olá Zilda
Tenho seguido e apreciado o seu blog quase desde o início, sempre com prazer e muitas vezes tive vontade de aparecer mas por isto e aquilo nunca o fiz. Calhou hoje.
Apenas lhe quero transmitir o quanto tenho apreciado os seus comentários, o seu estilo e a sua sensibilidade. O modo como por vezes transforma um momento prosaico como este de hoje nalguma coisa de sentido mais profundo. Por vezes é autêntica poesia em singelas palavras. Continue para deleite de quantos deste lado a vão lendo mesmo que nem sempre apareçam.

De Zilda Cardoso a 26.01.2010 às 19:34

MUITO OBRIGADA PELAS SUAS PALAVRAS. É muito bom ouvi-las ou vê-las e senti-las como um carinho!
Há coisa melhor do que ter amigos?

De MCA a 26.01.2010 às 13:49

Boa tarde Zilda,
que texto bonito. Soube mesmo bem ler, então a parte dos " nossos sentimentos..." apetece ler e reler...
Confesso que gosto mais quando as" atitudes aceitáveis " são tomadas com a grande incerteza que o sentimento nos traz. Creio que torna tudo mais especial mas também mais dificil é certo.
Isto de cabeças claras e firmes... não costumo confiar muito...Confio mais no que o coração me mostra....
Agora falando de pássaros... Eu gosto muito de pássaros, muito mesmo. É o que costumo chamar às minhas filhas: que são os meus 2 passarinhos.
Com este céu azul de Lisboa é muito bonito ver as nuvens de estorninhos nos seus desenhos espantosos. Olho muitas vezes para o céu para ver por onde eles andam. Por aqui, ando também atenta aos melros, que há bastantes e ás andorinhas que são sempre tão especiais.
Vejo o voo dos pássaros como a pincelada que faz a diferença final na tela. (Parece uma frase feita...)
Um beijinho para si e foi muito bom passear nesta hora de almoço, à beira rio consigo para ver esses "seus" 2 passarocos. Obrigada.
MCA

De Zilda Cardoso a 26.01.2010 às 19:31

Aprecio muito a diversidade e a beleza dos pássaros. E a dos peixes. Só que estes são mais dificeis de apreciar, sempre debaixo de água, sempre no banho.
Mas são maravilhosos, lindíssimos e tão variados nas suas formas e cores que penso não haver nenhuma semelhança com qualquer outro ser em quantidade e em beleza.
Os pássaros têm uma vantagem: não são mudos. E cantam. Alguns cantam tão bem que enternecem. Que vida teríamos sem pássaros e sem poetas com voz? Quanto aos sentimentos e aos pensamentos, a cabeça e o coração... hum... concordo consigo. Seria mais fácil viver pela cabeça, mais justas as decisões.... mas não há maneira de fugir ao coração. Sofrer também é interessante.
E um coração sem arritmias, sereno, talvez seja possível.
Foi precisamente depois do m/passeio real pela beira da água, à hora do almoço, que encontrei o s/comentário. Hoje não tirei fotografias.

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