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não tenho dúvida de que o mundo hiberna

por Zilda Cardoso, em 10.01.10

 

Saí, apesar do frio e das ruas molhadas e de não haver quase ninguém fora. Em casa, aquele ar morno acastanhado e seco fez-me ter vontade de estar na montanha coberta de neve... não resisti muito tempo. Não respirava… dentro.

Em Kitzbuhel para onde fui com a família durante muitos invernos para os desportos da neve, entrava de vez em quando naquelas cabanas de madeira onde serviam chá  de hortelã a fumegar e café com natas e outras coisas reconfortantes. E o calor era intenso. De seguida, outra vez o ar frio da montanha e o movimento e as cores vivas sobre o branco e o entusiasmo das descidas e dos saltos, e das crianças que começavam e parecia já saberem tudo. Porque tudo é fácil para elas.

Recordo a primeira vez que fomos com os filhos. Procurámos logo um professor, mas não havia, seria domingo ou havia candidatos a mais. Contudo, como prendê-los uma tarde inteira?! Não quiseram esperar: aquilo era demasiado tentador, as correrias loucas e as subidas esforçadas, os risos, os trambolhões, uma certa confusão. Alugámos-lhes o material necessário, esquis e batons (não sei se é assim que se deve escrever) e eles começaram sem noção de nada, apenas o desejo de participar na brincadeira.

Eu só queria e me preocupava com que aprendessem a travar. Andava muita gente por ali e eles nem sequer sabiam desviar-se quanto mais deter-se. Só contra um obstáculo! E o obstáculo, na maioria das vezes, eram os corpos dos passeantes que apanhavam em cheio com um torpedo a grande velocidade. Para os incipientes esquiadores, era o melhor estorvo que podiam encontrar – nunca ficaram magoados e as palavras que ouviam… nem as ouviam.

Hoje, do meu passeio, vejo o mar da cor que não aprecio mas resignado, sem ondas, apenas um “biquinho” branco rendado contra as rochas. E os barcos de velas brancas lá vão lentamente, recolhem num dia sem história. Não está vento nem chuva, apenas o chão molhado e uma deliciosa brisa.

Gostei do ar ameno, perfeitamente compatível com os meus pulmões e capacidade de respirar. E com a minha habilidade de andar a bom andar, meia hora apenas.

Regresso ao calor, retemperada. Talvez prepare um chá de hortelã.

 

 

 

(irmãos Jorge e Pedro "skinoar" em Kitzbuhel)

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publicado às 18:34


8 comentários

De Joana Freudenthal a 10.01.2010 às 23:20

Aqui já sabiam travar... ;)

Que bom foi o abraço!

Mais um.

Joana

De João Nuno a 11.01.2010 às 01:33

Com desejo de boa semana:

Vive-o intensamente até à última
gota de sangue. É um instante
banal, nada há nele que o distinga
de mil outros instantes vividos.
E no entanto ele é o único por ser
irrepetível e isso o distingue
de qualquer outro. Porque nunca
mais ele será o mesmo nem tu que o
estás vivendo. Absorve-o todo
em ti, impregna-te dele e que ele
não seja pois em vão no dar-se-te
todo a ti. Olha o sol difícil
entre as nuvens, respira à
profundidade de ti, ouve o vento.
Escuta as vozes longínquas de
crianças, o ruído de um motor que
passa na estrada, o silêncio que
isso envolve e que fica.

E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és.

Vergílio Ferreira

João Nuno
http://joaonunomb.spaceblog.com.br

De Zilda Cardoso a 11.01.2010 às 10:02

VERGÍLIO FERREIRA É UM DOS MELHORES ESCRITORES QUE TEMOS. Aprecio muito a sua inteligência e filosofia. Acho que nunca foi reconhecido e premiado como devia.
Agradeço muito ao João Nuno ter-me passado as palavras do grande escritor e pensador. Também espreito o sol, ouço o vento e, sobretudo, escuto o silêncio, o tal silêncio que fica.
Quando não for capaz de escutar o silêncio... não será já possível pensar-me.
Muito obrigada.

De Nucha a 28.01.2010 às 00:09

Zilda,
Passo silenciosa mas este não posso silenciar. O Vergílio era primo direito do meu avô...ambos nascidos em Melo.
Um homem que me marcou pelo parentesco, pela sua austeridade para nós miúdos que lhe chamávamos Tio!
Obcecado pela ideia da morte repousa a ver a Serra, ao lado do meu avô como ambos queriam...
Abraço sentido,
Nucha

De Zilda Cardoso a 28.01.2010 às 08:33

É tão bom conhecer e conviver com pessoas excepcionais! Marcam para sempre. E temos obrigação de tentar, pelo menos tentar, ser melhores, pois que tivemos oportunidade de saber o que isso é. Tivemos oportunidade de conviver com pessoas inteligentes e cultas e bondosas.
Muito obrigada pelo seu comentário.

De Cabecilha&Flipado, Lda. a 11.01.2010 às 13:59

divertido é ver a evolução dos skis: tamanho e forma! Não queres falar do trema... está bem! oohh Kitzbühel...

De Zilda Cardoso a 11.01.2010 às 14:10

Pois, são muito mais pequenos. Quanto ao trema... não sei pô-lo e pronto! Tentei, mas são coisas para os einsteins deste mundo.

De Augusto Küttner de Magalhães a 12.01.2010 às 09:46

Parece que também l´estávamos:

"Não está vento nem chuva, apenas o chão molhado e uma deliciosa brisa.

Gostei do ar ameno, perfeitamente compatível com os meus pulmões e capacidade de respirar. E com a minha habilidade de andar a bom andar, meia hora apenas.

Regresso ao calor, retemperada. Talvez prepare um chá de hortelã."

Por certo preparou e tomou o chá!

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