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QUE DISPARATE!

por Zilda Cardoso, em 03.09.09

 

Os pensamentos são por vezes demasiado complexos para serem traduzidos em palavras. Sobretudo, em palavras escritas. Mesmo se se pensa conhecer bem a língua social... Sabe-se que uma língua é constituída por signos, isto é, significantes e significados, que se utilizam para comunicar facilmente as ideias que nos ocorrem, falando ou escrevendo.
Apesar disso, uma das razões porque gosto de escrever é por ser sempre uma provocação, um repto a mim própria. Serei ou não capaz de escrever o que estou a pensar? Nunca sou capaz. Por vezes, sinto que a cabeça vai estourar se persistir, tenho a certeza que vai. Estourará muito antes de eu conseguir dizer aquilo que imagino. E também não quero aprofundar mais este pensamento que me ocupa a cabeça. Querem saber um segredo? Não quero que ela estoure. Receio ser internada num hospital especial daqueles donde nunca se sai. Por isso, abandono com pena a complexidade do pensamento que me ocorre e me havia de levar à descoberta de coisas transcendentes. Abandono-o por ser de vidro – duro e inflexível e possível de estilhaçar de um momento para o outro, se bem que transparente. Embora sinta que é esse o caminho… abdico e continuo rasteirinha a pensar e a falar e a escrever coisas sem espessura.
Gostava verdadeiramente de trabalhar e transformar a língua que me foi imposta e mesmo de criar uma língua, mas quem me entenderia, para já, para já? Acontece-me todos os dias escrever de certa maneira e depois voltar atrás e emendar tudo, quero dizer, vulgarizar tudo. Corto aqui, acrescento acolá e a coisa fica entendível. Fica linguagem, só que me não satisfaz como escrita. Afinal, o que pretendo: escrever ou comunicar? É verdade que quase sempre quero ambos. De certo modo, esta vontade e a sua dificuldade têm-me impedido de ter uma escrita festejada.
Quando falo é para que me entendam, é verdade; quando escrevo pode ser outra coisa. Pode ser uma perversão ou um desejo de perversão. De vontade, escreveria para ninguém ler.

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publicado às 22:17


2 comentários

De Marta M a 06.09.2009 às 23:02

Mas lemos e..estamos aqui. Devo contrariá-la a afirmar, sem favor ou cortesia, que a sua escrita é tudo menos "vulgar".
Quanto ao desafio de por em palavras o que se sente e, nesse processo produzir uma escrita literária, parece-me um desafio absolutamente fascinante e só ao alcance de alguns.
Do que já li, é o seu caso.
Esta habilitada para fazê-lo e criar a sua tribo de leitores - muitos a entenderão.
De certeza.
Bom Domingo
Marta M

De Patricia Baetslé a 10.09.2009 às 09:39

As suas palavras fizeram estremecer o meu coração. Exprimiu aquilo que já pensei tantas vezes e que me acontece também a mim. Não é que escrevo (pelo menos não num blog) para o público, mas de vez em quando as palavras surgem do nada e criam uma vontade própria de serem transpostas em escrita, e assim sendo, tenho uns cadernos com palavras que procuram expressar sentimentos. Quem as leria talvez não ficaria muito impressionado, porque elas só ganham vida aos meus olhos. Obrigada Zilda.

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