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Castanheiros & C.ia

por Zilda Cardoso, em 27.08.09

 

Hoje o silêncio é verde e real. Deve ser dia de descanso para aqueles que ali ficaram quietos como ao sétimo dia. E eu aproveito para observar.
Pousam os ramos pesados sobre a ramada de quivis que se escondem, emagrecem, murcham de todo. E sobre as belas uvas agora empoladas, mas visivelmente incomodadas pela falta de espaço, de humidade e de ar.
Logo depois, estão os girassóis que já não giram muito bem, os hibiscos entristecidos e as outras flores e arbustos do canteiro. Há o relvado e o tanque pacificamente aguardando os acontecimentos.
Quando os castanheiros crescem até devorarem tudo o que se lhes atravessa, quando os seus frutos incham e atingem dimensões tais, pergunto-me para que servem … qual é a sua ideia… o que estão a fazer, a querer fazer e farão provavelmente se desistirmos.
Andamos muito distraídos a meditar em coisas complicadas que acontecem na América e no Médio Oriente e no Centro da Europa e não reparamos em acontecimentos tão próximos. Da minha varanda (tenho duas: uma em frente ao mar azul e reluzentemente líquido, outra de onde aprecio o mar verde e tão sólido), desta, vejo-os na sua missão de avançar sem possibilidade de réplica dos outros. Sem que os outros, os vizinhos, defendam o seu lugar neste mundo que afinal… de quem é?
É uma situação nova no Casal, uma quinta com séculos onde havia, entre outras culturas, alguns castanheiros. Porém, esta invasão de um elemento que avassala tudo desenfreadamente é a grande novidade deste século.
Resolvi estudar com profundidade o que está a acontecer.
Comecei por querer entender a situação, a palavra.
“Que tipo de coisas constituem uma situação e como se relacionam essas coisas entre si?” Isto é o que pergunta Graham Priest, professor de Filosofia na Universidade de Queensland.
Será uma boa pergunta. Pelo menos em Portugal, é uma palavra que esteve irritantemente na moda durante alguns anos.
Acontece com frequência que alguém adopte uma palavra e passa a usá-la em todas as situações; daí a pouco, e não sei porque razão, um grupo começa a utilizar a mesma palavra, a repeti-la até que a novidade deixa de ser novidade, deixa de interessar, e passa a outro grupo menos classificado culturalmente, que a aplica mal. E andámos nisto, muitas vezes, anos.
Até que, ao fim de diversos grupos, deixa totalmente de ser moda, morre, e há que inventar outra para ser usada obsessivamente em todas as frases dos nossos discursos.
No presente, a situação da palavra situação é periclitante: já passou por todos os grupos, está em agonia. Contudo, pergunto ainda quem a fez nascer e quem lhe dará agora o golpe de misericórdia?

Voltarei a falar de situação e de castanheiros, naturalmente.

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publicado às 09:01


8 comentários

De Fátima André a 27.08.2009 às 11:09

“Seu blog é viciante!”

Este é o prémio/selo que pode levantar no “Revisitar a Educação”

Um caloroso abraço :)

De Zilda Cardoso a 28.08.2009 às 07:16

Muito obrigada, Fátima André, pela sua nomeação do m/blog como VICIANTE: é um excelente prémio.
A sua apreciação tem muita importância para mim, por isso lhe agradeço com um grande abraço.

De Cabecilha a 27.08.2009 às 13:38

Os americanos gostam de a usar nos filmes policiais para significar incidente:

"hello, chief... we have a "situation"!!!

Ao fim de algum tempo de ouvir sempre isto também começa a ficar irritante... como aliás são quase todas as séries de polícias, médicos, advogados e tudo o mais!!!

têm que começar a fazert séries com outras profissões... é um bom tema de debate...

eu proponho os limpa-chaminés! :)

De Zilda Cardoso a 28.08.2009 às 06:31

Os limpa-chaminés... acho muito bem. Vai ser muito divertido. Queres começar? Podemos principiar aqui o debate sobre uma profissão em vias de extinção. Continua a haver chaminés para limpar? Está a extinguir-se ou não, a profissão? SE está... tl não valha a pena discuti-la. Estaríamos a falar de quê?
Há ou não necessidade de limpa-chaminés? E possibilidade? SE há necessidade deles e possibilidade de os haver, vamos então discutir.
Iniciaremos pelas condicionais, os ses, que terão um "papel fundamental" nesta discussão e serão mesmo "profundamente enigmáticas" como dizem.

De concha a 27.08.2009 às 14:47

Mesmo se nem sempre comento ,leio-a sempre e acho fabulosa a sua perspectiva da vida .É como se o mundo que nos rodeia a todos, em si seja visto de dentro para fora, num olhar talvez até único e isso fascina-me, porque me "obriga" a olhar mais além .
Nada nos é imposto no sentido de vivenciarmos o Mundo segundo o padrão tradicional .A descoberta de outras perspectivas tem o dom de nos preencher e mostrar que afinal nós somos o essencial naquilo que pensamos e isso basta .
Um abraço amistoso

De Zilda Cardoso a 28.08.2009 às 06:47

Bom dia, muito obrigada. Ainda bem que aprecia "olhar mais além". O importsnte é saber olhar, não é? E sentir que há algo por trás que não vemos numa vista de olhos superficial.

De concha a 28.08.2009 às 17:58

O importante é mesmo saber olhar ,porque na Natureza estão todas as respostas, assim as consigamos captar .Tudo depende de olhar o que nos rodeia com simplicidade ,porque o Universo rege-se por leis que são simples , por vezes nós é que complicamos tudo .
Um abraço

De CC a 28.08.2009 às 20:24

Também as palavras têm o seu tempo!
Lembro-me há alguns anos que a palavra ´"sistema" era sistemáticamente usada. O sistema era o causador de todos os males. Se alguém não conseguia integrar-se, a culpa era do sistema; se uma ou outra regra não estava bem, era preciso alterar o sistema.
Hoje a culpa é da crise! Será concerteza em alguns casos, mas já não tenho muita paciência para aqueles que capeiam a falta de seriedade com a crise.

Um bjnh.

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