Hoje o silêncio é verde e real. Deve ser dia de descanso para aqueles que ali ficaram quietos como ao sétimo dia. E eu aproveito para observar.
Pousam os ramos pesados sobre a ramada de quivis que se escondem, emagrecem, murcham de todo. E sobre as belas uvas agora empoladas, mas visivelmente incomodadas pela falta de espaço, de humidade e de ar.
Logo depois, estão os girassóis que já não giram muito bem, os hibiscos entristecidos e as outras flores e arbustos do canteiro. Há o relvado e o tanque pacificamente aguardando os acontecimentos.
Quando os castanheiros crescem até devorarem tudo o que se lhes atravessa, quando os seus frutos incham e atingem dimensões tais, pergunto-me para que servem … qual é a sua ideia… o que estão a fazer, a querer fazer e farão provavelmente se desistirmos.
Andamos muito distraídos a meditar em coisas complicadas que acontecem na América e no Médio Oriente e no Centro da Europa e não reparamos em acontecimentos tão próximos. Da minha varanda (tenho duas: uma em frente ao mar azul e reluzentemente líquido, outra de onde aprecio o mar verde e tão sólido), desta, vejo-os na sua missão de avançar sem possibilidade de réplica dos outros. Sem que os outros, os vizinhos, defendam o seu lugar neste mundo que afinal… de quem é?
É uma situação nova no Casal, uma quinta com séculos onde havia, entre outras culturas, alguns castanheiros. Porém, esta invasão de um elemento que avassala tudo desenfreadamente é a grande novidade deste século.
Resolvi estudar com profundidade o que está a acontecer.
Comecei por querer entender a situação, a palavra.
“Que tipo de coisas constituem uma situação e como se relacionam essas coisas entre si?” Isto é o que pergunta Graham Priest, professor de Filosofia na Universidade de Queensland.
Será uma boa pergunta. Pelo menos em Portugal, é uma palavra que esteve irritantemente na moda durante alguns anos.
Acontece com frequência que alguém adopte uma palavra e passa a usá-la em todas as situações; daí a pouco, e não sei porque razão, um grupo começa a utilizar a mesma palavra, a repeti-la até que a novidade deixa de ser novidade, deixa de interessar, e passa a outro grupo menos classificado culturalmente, que a aplica mal. E andámos nisto, muitas vezes, anos.
Até que, ao fim de diversos grupos, deixa totalmente de ser moda, morre, e há que inventar outra para ser usada obsessivamente em todas as frases dos nossos discursos.
No presente, a situação da palavra situação é periclitante: já passou por todos os grupos, está em agonia. Contudo, pergunto ainda quem a fez nascer e quem lhe dará agora o golpe de misericórdia?
Voltarei a falar de situação e de castanheiros, naturalmente.