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De que falam os que falam...?

por Zilda Cardoso, em 20.08.09

 

O jornal O Tripeiro de Agosto de 2009 fala de Moledo, a praia de maior prestígio no Norte, desde há muitos anos. Traz artigos de Rui Moreira, de Sérgio Andrade, de Alberto Martins, de Manuel Correia Fernandes, de A. Alves Costa, de António-Pedro Vasconcelos, de Júlio Gago.
De que falam os que falam de Moledo?
Falam de terra refúgio, de praia de arquitectos e de artistas e de políticos e de imenso pequeno lugar convivial; falam de tempo, de lugar e de mistério – tudo em Moledo encoberto. Recordações e nostalgia, dias felizes, António Pedro e o seu sonho de novo teatro e de pintura surrealista. Lembram o pintor, dramaturgo, encenador revolucionário que, depois de vagabundear pelo mundo, escolheu Moledo, apaixonou-se, semeou por lá a sua poesia, ficou.
”Eu caibo aqui”, diz ele…, “a paisagem… entra-me pelos olhos… e enche-me a alma. Aqui os homens e as árvores têm raízes no chão.”
Eu também caibo aqui.
Quando chegava a Moledo vinda de onde fosse, inquieta, inquieta, até angustiada, sentava-me no relvado e ficava imóvel, voltada para entre nascente e sul, e daí a pouco, o milagre começava a acontecer. Rodeada de asas brancas, ali assentava até ao fim do dia em silêncio. Nunca apreciei a noite mesmo com muitas estrelas, (a menos que houvesse festa no clube), as noites foram sempre difíceis para mim. Mas pela manhã, mal o Sol nascia, eu esperava a pé que nascesse, caminhava no jardim levemente, apercebendo-me da alfazema e do alecrim, de outros odores como o das ameixas douradas e o das roxas, o perfume das amoras e das framboesas, o das maçãs ácidas que conhecia e apreciava hoje mais que ontem, à mistura com as pequenas gotas de luz pousadas nos ramos….
Apanhava os frutos doridos do chão, voltava à casa, dava-lhes outra vida.
A casa muito à minha medida, onde nada me era estranho e me não sentia estrangeira, onde recebia os amigos de forma simples… enfim, onde vivi os melhores momentos da minha juventude com a família.
E agora que estive na praia/aldeia minhota alguns dias com os netos, eles sem saudades mas com amores, fascinados como os os seus pais pelos encantos de Moledo,  receio pensar que todo o tempo passado noutro lugar foi um total desperdício.
 
 
 

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publicado às 17:44


18 comentários

De pc a 21.08.2009 às 09:30

olá bom dia
texto muito bonito!
obrigado abraço
(embora não tenha compreendido o ultimo paragrafo)

De Zilda Cardoso a 21.08.2009 às 09:42

Obrigada, pc. O que é que não compreendeu?
Todos falam de Moledo com saudade, com nostalgia, excepto os mais novos, os que não podem ter saudades de Moledo (ainda não) mas amores por ele. Para os mais velhos, parece desperdício o tempo passado fora desse lugar de felicidade. Está claro?

De Nucha a 21.08.2009 às 12:15

Zilda,
Amei o texto mas não pode ser desperdício o tempo passado noutros lugares...
São esses e outros lugares que ficam marcados em nós, indelevelmente, que fazem de nós estes seres que somos.
Cada um de nós tem o seu Moledo para regressar e aninhar.
Bom fim de semana!
Nucha

De Zilda Cardoso a 21.08.2009 às 13:04

Desejo vivamente que cada um tenha o seu Moledo, onde sempre possa regressar.
Nenhum tempo pode ser perda de tempo?

De Nucha a 21.08.2009 às 13:08

Zilda,
Há tempos que são, de facto, pura perda de tempo. Mas não podemos então considerar esses momentos, certo?
Respondi à sua questão?
É sempre bom vir, aqui a este espaço onde podemos reflectir e questionar.
Abraço.
Nucha

De Zilda Cardoso a 21.08.2009 às 17:57

Nucha, minha amiga
Devemos então esquecer os momentos que são perda de tempo? Esquecer? Ou aprender com eles?
Eles são também nossa experiência de vida, enriquecem-nos ou empobrecem-nos. O eu ter considerado desperdício o tempo passado noutro lugar tem a ver com a comparação que faço entre o prazer de viver aquele lugar e o (des)prazer de viver outro. É de tal modo superior o primeiro prazer que não resisti à tentação de exagerar poeticamente para me fazer acreditar (não diga a ninguém, Nucha). Se bem que eu tivesse dito que RECEAVA PENSAR...
Para mim, o prazer daquele lugar tem tb a ver com um tempo que passou e não volta, só porque nenhum tempo passado volta.

De Nucha a 21.08.2009 às 23:46

Zilda,
Obrigado por me dar este colo de poesia e de vida... não mereço tanto!
Eu também tenho um Moledo (o meu chama-se Melo!).
Quando disse que alguns são pura perda de tempo são aqueles que não contabilizamos.Sim porque há momentos que não podemos ou devemos contabilizar,não há?
Por outro lado como disse no 1º comentário "São esses e outros lugares que ficam marcados em nós, indelevelmente, que fazem de nós estes seres que somos".E aí sim,podemos "exagerar" (não sei se será a palavra) como fez... porque entendo esse (des)prazer em beneficio do prazer que Moledo lhe deu.
Claro que nada será como antes...o tempo não volta atrás...e tenho pena!
Abraço. É bom vir aqui.
Nucha

De Maria João Brito de Sousa a 21.08.2009 às 14:29

Penso nunca ter estado em Moledo... se estive, era tão pequenina que me não recordo minimamente, mas sei o que é esse "encontrar Moledo", esse "caber aqui"...
Um abraço!

De Zilda Cardoso a 21.08.2009 às 17:36

Moledo é lugar de poetas, M. João Poeta. É um lugar seu. Caberá lá!

De Maria João Brito de Sousa a 24.08.2009 às 15:15

:) lançarei os ramos sobre Moledo, Zilda. As raízes têm-me bem presa aqui, neste pedacinho de terra que me viu crescer.
Um grande abraço.

De Marta M a 22.08.2009 às 18:03

Zilda:
Admiro a forma como escreve, é poética e concreta ao mesmo tempo...Obrigada por ter um blog tão bonito e acolhedor.
Hoje estou muito donw e vir aqui, fez.me sentir acompanhada. Obrigada, mesmo.

De viguilherme a 22.08.2009 às 18:22

Olá ...,reviver .repensar Moledo é devanear pelo cheiro da maresia , da nortada que percorre tantas vezes esta vila ,é sentir o sol nas douradas areias beijadas e abraçadas pelas ondas deste Mar Atlantico ,onde guerreiros das ondas se aventuram em sonhos de ancestrais viagens fantasticas ......é o reencontro com a fortaleza da Insua cuja magia nos leva de 50 em 50 anos (aproximadamente )ir visitá-la a pé ,através de uma lingua de areia que se forma entre esta fortaleza e a terra .......fenómeno vivido como presente da Natureza para visitar/explorar esse castelo defensivo de antanho que parece suspenso no meio do Mar ......é o comboio que passa ao longo da costa e que da praia parece ser de brinquedo de corda .......é ao longe divisar o monte de Santa Tecla que por vezes é o nosso boletim metereologico ,(se tem capuz mautempo pode vir ou se não tem tempo limpo acontece )........são as neblinas matinais , a luz coada dos azuis roseas do amanhecer , e os adormeceres do astro Rei de uma beleza por vezes fulgorante .......É Moledo entre festas e languidês .......são as pessoas com olhos de Mar e saudade .....

De Zilda Cardoso a 23.08.2009 às 23:06

Ola, Viguilherme.
Toda essa poesia está em Moledo como noutros lugares. Para mim, está sobre o mar, ou perto do mar. São lugares de sonho que apenas em sonhos existem. Tudo lá podemos encontrar: caminhos de areias queimadas ao encontro de fortalezas, talvez de guerreiros e de barcos, de velas e de aventuras como em viagem a terras de Preste João.
E depois, em verdes salgados, há o outro lado, onde passa o combóio de corda entre neblinas, onde nos encontrámos as mais das vezes, com música e luzes e danças. Com sol e alegria, no presente.

De Sara a 22.08.2009 às 23:08

eu tenho saudades do meu "Moledo" na praia da Foz do Neiva em Esposende... Já alguma vez lá esteve amiga Zilda?

Quando era pequenina era uma praia linda e sossegada :)

Lá está cada um tem o seu "Moledo" nas suas recordações! O importante é termos lugares para recordar e onde nos sentimos "em casa"...

Ao fim de uns dias ausente, voltei agora cheia de energia :)

Até breve!

De Zilda Cardoso a 23.08.2009 às 20:43

Benvinda, Sara.
Conheço quem tenha casa nesse lugar lindo, onde não vou há muitos anos.
Creio que continua muito bom. O melhor é ir tendo moledos sucessivamente porque enquanto os tivermos, estamos bem. Temos o que vale a pena. Aprecio a s/energia saudável.

De Alfacinha a 24.08.2009 às 00:00

Zilda, admirei a sua descrição, poética e encanto.
Artigo no seu blog é muito bonito e Moledo é recanto.
Estive ler que sempre que apeteceu, porque já fez-me sentir acompanhada e confortavel. Soube bem da sua sabedoria.
Obrigada por ter o blog para acompanharmos.

O Moledo é muito bonito, sempre gostei lá e fui apenas uma vez de visita de uma viagem com meus pais. Admirei e adorei o cheiro de ar puro, alivia-me.
É o sitio para reflexão a mente. Não sabia que eram o refúgio dos artistas. Fiquei por curiosa e emocionada e prometi a mim própria que irei no fim de semana qualquer deste ano para me encantar e lembrar do "de que falam os que falam".
Um carinho, de verde mais verde como esperança.

De Marcolino Duarte Osorio a 25.08.2009 às 01:34

Olá, Querida Amiga!!!

Aos poucos, depois do desmame de determinados medicamentos nada condicentes com a minha boa disposição..., regressei à Nete e, a este espaço Fraterno! Apenas em Setembro é que poderei ser intervencionado! Sinto-me Homem de Fé mas ... «caguinchas...», porque o mal do corpo não me afecta o raciocinio..., ainda....!

O seu texto, inspirou-me, não só o meu imaginário, semore de asas ao vento, mas também o seu título: «De que falam os que Falam...» originou este texto que já publiquei no meu Blogue e o transcrevo por aqui como reinicio das minhas deambulações Bloguistas!

Aqui vai, então:

Crónicas da Vida Real IV

Quando se atiram pedras, fomentam atoardas, lançam calúnias, com a finalidade intrínseca de demolir com o fim de satisfazer o intimo prazer primário da destruição pela destruição, mesmo que se consiga agir de uma forma quase que cirúrgica, jamais se consegue atingir o sujeito visado porque as veracidades das mentiras são antagónicas às Verdades das Verdades...

Raríssimas excepções, mas na sua maioria, o Ser Humano tem aprazimento na destruição de tudo quando gira à sua volta. E quando deixa de existir quem girava a sua volta, por si foi destruído, lá vai ele astuto, polido, sorridente, bem-falante, mãos discretamente afagando-se uma à outra, fato escuro de linhagem italiana, de bom corte, camisa e gravatas a condizer além das meias de seda e sapatos de cor preta, afilados, etiquetados por caras marcas das terras dos tenores, em busca de mais um grupo de vítimas, para adicionar, umas às populações das antigas Catacumbas, outras para construir novos cemitérios porque os anteriores ficaram superlotados.

São mais os que o defendem, mais por cobardia complementada pelos medos irracionais. Os que o atacam, ao de leve, juntamente com os restantes que se mantiveram calados para sempre, por cobardia latente, vão super-povoar as Catacumbas, não dos Cristãos fugidos das mãos criminosas dos Carrascos de Roma, mas feitos medrosos, cobardes, que discutem entre si, digladiam-se entre si, com medo de um só que, ou abre a boca, ou risca com a pena, coisas e loisas mentirosas à cerca de quem mais lhe apraz!

Assim, aos poucos, os Seres Humanos juntam todos os Erros das suas Vidas para, mais tarde, os apelidarem de Destino...!!!

Marcolino Duarte Osório
- Peregrino -
2009-08-25

Se me permite, um beijinho para si!

Marcolino

De Zilda Cardoso a 25.08.2009 às 05:36

Benvindo, Marcolino.
Ter medo, é natural. Conservar a esperança é exemplar. Só espero que em Setembro a operação vá correr bem
Vai correr bem.
Com muita amizade.

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