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PALAVRAS (2)

por Zilda Cardoso, em 28.03.09

 

 

Em Os Miseráveis, Victor Hugo dedica o primeiro capítulo do Livro I a esta descrição:

“Em 1815 era bispo de D…. o sr….; contava 75 anos de idade e ocupava o episcopado desde 1806.

Conquanto este pormenor não tenha a menor relação com o verdadeiro fundo do que temos para contar, nem por isso é inútil ainda que seja senão por sermos exactos em tudo, indicar aqui os boatos e contos que tinham circulado a seu respeito, na época em que entrou na diocese. Verdadeiro ou falso, o que se diz dos homens ocupa muitas vezes tanto lugar nas suas vidas e sobretudo nos seus destinos, como o que eles fazem”.

O autor continua com ordem e detalhes por todo um capítulo para dar a conhecer a personagem: seremos desse modo muito capazes de compreender o que diz quando o disser.

Assim são também importantes os boatos e os mexericos e tudo o que diz respeito ao personagem. Quer dizer, o contexto material e mental.

Nos romances contemporâneos não é bem assim. Colho um livro de Lídia Jorge – O Cais das Merendas - e leio as primeiras linhas.

“A décima nona foi anunciada não como merenda, coisa que lembraria figos mas como party, ajuntamento que falava festa, doces gestos, meus amigos. Esse foi o verdadeiro momento. E para tanto não é preciso deitar o olho para trás, e acontecido, como a espelho retrovisor de carro, e dizer. Foi assim. Porque a própria Zulmira Santos se apercebeu do significado desse passo, incansável pelo sucesso do encontro, o rigor das coisas, a combinação dos sortidos, a pontualidade das horas.”

Não saberemos senão o contexto porque, quanto às falas da Zulmirinha, acho que nunca vieram. Sabemos no entanto indirectamente o que disse, o que pensou, o que os outros disseram e pensaram dela. É sugerida a existência de um grupo de desenraizados de que ela participa, que fala bocados de línguas e que tem em comum um desejo de encontro num local  de simbólico desencontro. É da forma como se comportam que se sente ou pressente que se vão esquecendo do passado e dos antepassados e se vão aculturando.

Agora que a organização cronológica está fora de moda, e a clareza também, é muito mais difícil compreender o que alguém está penosamente a contar e, para os contadores, organizarem o seu pensamento. A vida será assim mesmo, desordenada, talvez as coisas não aconteçam em cronologia (!), mas para explicar, e visto também a natureza simbólica da linguagem e os seus múltiplos sentidos, para contar por escrita os acontecimentos entendivelmente, dar-lhes um sentido, é preferível conhecer um pouco da lógica que o contexto,  aqui com valor essencial, sugere.

De maneira geral, as pessoas preferem preguiçosamente o cinema mudo, porque as imagens dizem imediatamente tudo o que é necessário saber.

 

 

 

 

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publicado às 17:55


18 comentários

De CC a 29.03.2009 às 21:14

Zilda,
Ajudou-me imenso a compreender o que se passa comigo, enquanto leitora.
É verdade que há livros que devoro e outros, sem que soubesse explicar, nunca mais me saiem das mãos. Ás vezes acabo por desistir de os ler.
Aconteceu com dos autores que referiu e, remetendo para mim essa falta de interesse, pensando inclusivé, que era ignorância literária minha, insisti em ler outro livro do mesmo autor. Eu até me esforcei mas, também este ficou pelo meio, acabei por desistir.
A sensação é sempre a mesma: de que não fica nada do que estou a ler e, portanto, estou aperder o meu tempo.
A falta de cronologia e de clareza aborrecem-me e questiono qual a necessidade, para o escritor, destes malabarismos literários...
Gostei dos seus dois posts relativos a este assunto...

De CC a 30.03.2009 às 22:00

Só agora, lendo o meu comentário, me apercebo de alguns erros:
onde se lê "aperder" é bem " a perder" naturalmente... erro de rapidez a teclar....

De Paula Santos a 31.03.2009 às 15:18

Olá!
Sou uma leitora não tão assídua do seu blogue como gostaria mas cada vez que faço uma visita, encontro algo com que me relaciono. Neste caso, como diz a CC "...há livros que devoro e outros, sem que soubesse explicar, nunca mais me saiem das mãos." Comigo, acontece exactamente a mesma coisa. Certos livros são practicamente devorados em cada minuto de tempo livre. Outros, são simplesmente lidos (a muito custo) e nunca relidos. O que é mau sinal!
Espero que não considere esta pergunta, um abuso de confiança mas como escritora que é, deve poder responder-me. E agradecia muito que o fizesse!
Adoro escrever e ler. Há uns tempos, enviei um e-mail para a Sociedade Portuguesa de Autores com a pergunta que lhe vou fazer agora e até hoje, ainda não obtive resposta. Gostaria de saber, se quando uma pessoa escreve um livro, deve primeiro registar a sua obra em algum lado (ex. IGAC) e depois enviar o manuscrito para várias editoras ou enviar primeiro o manucristo e só proceder ao registo da obra, quando for contactada por alguma editora.
Desde já agradeço a sua atenção e peço mais uma vez desculpa, pelo incómodo.
Obrigada!

De Zilda Cardoso a 04.04.2009 às 17:29

Peço desculpa por só agora lhe responder, mas queria falar com outras pessoas capazes de dar uma resposta adequada. Só poderei falar-lhe da m/experiência e não quero. Peço-lhe então para esperar mais uns dias, não se importa? Peço desculpa e agradeço o s/interesse.

De Paula Santos a 04.04.2009 às 18:43

Desde já agradeço o seu interesse e disponibilidade.
Claro que esperarei a sua resposta e entendo perfeitamente a sua posição.
Entretanto, enviei também um e-mail para o IGAC.
Ao contrário da SPA, recebi uma resposta 2 dias depois. Explicaram-me que qualquer obra, independentemente de ser registada ou não, tem direitos de autor mas que é preferível registá-la, o que irei fazer nos próximos dias.
Agradeçia-lhe também que me esclarecesse se é preferivel enviar para as editoras uma cópia do manuscrito em formato papel ou digital.
Mais uma vez agradeço a sua paciência e disponibilidade e peço desculpa por qualquer incómodo.
Atenciosamente, Paula Santos.

De Zilda Cardoso a 04.04.2009 às 19:08

Costumo enviar um exemplar em papel e gravado em pen.
É necessário facilitar ao máximo.

De Paula Santos a 05.04.2009 às 23:06

Muito obrigada pela resposta e peço desculpa por estar a ser tão chata!
Obrigada!
Paula Santos

De Zilda Cardoso a 24.04.2009 às 08:09

Peço desculpa só agora responder à sua pergunta sobre formas de abordar as editoras. Depois de falar com diversas pessoas, posso dizer que há diferentes abordagens possíveis, dependendo da forma de trabalhar da editora e do nome das pessoas que pretendem editar. No caso de principiante, o caso torna-se difícil de qualquer modo. O mais geral e sensato é pedir uma entrevista com a pessoa que na editora costuma fazer as escolhas, que pode ser empregada da empresa ou consultora. Enviar um exemplar do original e aguardar, será perfeitamente inútil se não for acompanhado de telefonemas pedindo leitura e opinião. E pedir uma entrevista.
Pode acontecer que a editora peça a determinada pessoa que ela conhece para escrever sobre um certo tema. Desse modo, é tudo fácil.
Fui agora verificar a s/pergunta e, veja lá, com isto não lhe respondo ao principal! Sobre o registo, e o momento oportuno para ele... de facto não sei nada. Mas creio que já a registou e por isso está tudo bem. Penso que o importante é conseguir interessar o editor, não é verdade? Conseguir que o editor leia o original (primeiramente em papel) e se interesse pela publicação quando se não tem um nome conhecido é um risco muito grande para o editor e que ele não quer correr a bem da empresa que dirige e de que é responsável.
Vou continuar a fazer perguntas e voltarei a falar consigo.
Felicidades.
Até breve, um abraço amigo.

De Paula Santos a 24.04.2009 às 10:56

Muito obrigada mais uma vez, pela paciência em responder às minhas questões.
Já enviei o manuscrito para três editoras. Enviei um e-mail a 2, perguntando se estavam neste momento a aceitar manuscritos. Uma respondeu-me que sim e disse-me para enviar o manuscrito e quais os dados a enviar, outra disse-me para enviar por mail e o nome da pessoa para quem enviar e a terceira, vi no site deles, que agradeciam que novos escritores lhes enviassem manuscritos e que depois entrariam em contacto.
A ver vamos, o que sairá daqui!
De qualquer maneira, não tenho palavras para lhe exprimir o meu agradecimento pela sua paciência!
Obrigada!
Paula Santos.

De opoderdapalavra a 31.03.2009 às 19:54

Zilda,
Continua a escrever textos de grande profundiade humana e filosofica , parabéns. Venho também dar-lhe a conhecer que o meu livro "Os Senhores da Vida e da Morte", pela Mill Books , sai a 23 de Abril, terá lançamento nacional em Lisboa no El Corte Inglês, dia 24 Abril, se for possivel para si estar presente, terei todo o gosto. Até breve
Carlos Almeida

De Zilda Cardoso a 04.04.2009 às 17:32

Muito obrigada pelo apreço. Se estiver em Lisboa, tenho muito gosto em assistir à apresentação.
Para já, desejo-lhe um êxito enorme.

De opoderdapalavra a 06.04.2009 às 14:07

Zilda,
Corrijo o local da apresentação, assim vai ser dia 24 de Abril, pelas 19h na nova livraria Ler Devagar na Lx Factory ( Alcântara) com apresentação do Comendador António Laranjo. Se estiver em Lisboa terei todo o gosto de a ter na apresentação, depois ainda lhe enviarei o convite. Obrigado.

De Romina Barreto a 31.03.2009 às 22:16

Pois é! As pessoas (e a sua quase desmedida preguiça) preferem as imagens porque basta olhar e elas já dizem tudo (ou não), é muito mais fácil. Já as palavras implicam um certo “esforço” intelectual quase, e como bem sabemos, têm um poder mais transformador e vão ao mais fundo da consciência mas as pessoas por vezes não o percebem e como reza o ditado “Uma imagem vale mais do que mil palavras”, se bem que eu não concordo inteiramente com isto. Eu prefiro as palavras ditas e escritas. Ponto. Abraço.

Romina Barreto

De Marcolino Osorio a 03.04.2009 às 20:07

Olá, estimada Amiga!

Li este seu texto, e sorri-me!

Por outro lado vejo-a alheada dos novos termos para as antigas profissões, isto é, escreve «caixeiros-viajantes» quando na realidade são Delegados de Vendas.

Por exemplo; eu não tenho «Mulher-a-Dias» mas sim uma « Técnica Periódica de Asseio Donéstico»

Farmácia também se escrevia com «Ph» neutro ou pomposo, composto, queria eu dizer...

Carinhos meus!

De Zilda Cardoso a 03.04.2009 às 21:07

Agradeço as achegas (ou é antiquada a palavra?). Felizmente não se liga a nenhuma profissão, que eu saiba. A da técnica periódica tem muita piada, só por piada. Delegados de vendas são sofistas para mim. São também professores daquela técnica de que falei - a de contestar, de seduzir, de envenenar... conforme convier. Já reparou como toda a gente agora sabe discursar? É bom, era uma falha do n/ensino tradicional em que o Prof estava na cátedra e não permitia discussão. Mas o pior é que os sofistas anseiam sempre ganhar mais, de todos os modos, não apenas dinheiro. Ganhar causas injustas devia ser divertido para esses, se o sistema de justiça funcionasse. Assim, não dá grande luta.

De Marcolino Osorio a 03.04.2009 às 22:42

Estimada Amiga,

Darei minhas mãos à palmatória:

Referia-me ao seu belissimo texto: «SOCRATES: "moscardo" ou caixeiro-viajante?», peço-lhe mil perdões, pois está completamente fora do dontesto a minha ironia, neste local que nada tem a ver com o anterior...!

Problemas de quem é ambliope, na visão central e, volta e meia, por confiança a mais, falha a pontaria aos links!

Cumprimentos e, mais uma vez, mil perdões. respeito-a muito!

De Zilda Cardoso a 04.04.2009 às 09:40

Não deve dar a mão à palmatória. Lembro-me de apanhar com ela algumas vezes e tenho bem viva a recordação da maneira como ficava ofendida. É certo que considerava o castigo injusto e isso é que magoava. Neste caso, não tem importância, compreende-se bem a que se referia.
Agradeço o s/comentário.

De Marcolino Osorio a 04.04.2009 às 11:53

Mais uma intromissão minha, para lhe dar a saber duas coisas:

1 - Quanto à «Palmtória, ou menina-dos-cinco-olhos», na escola primária, na 4ª Classe, do ensino oficial, uma professora, mulher zeda como só ela, feita numa noite de tempestade rocambolesca, castigou-me. por ter dado apenas 3 (três) erros num ditado, quando o meu normal era entre 1 e 0, com 60, note-se bem, sessenta, palmatoadas, mas faquelas bem puxadas, à bruxa malvada, feita mestra escola. Cheduei a casa com as mãos a sabgrar. Ainda hoje se nota uma pequena cicatriz. Tinha 9 anitos...

2 - Por outro lado, se gosta de aventuras muito leves, descobri um blogue anónimo, «literatura de cordel» http://detectivesco.blogspot.com/, com pequeninas historinhas de alguém, já reformado, que exerceu a profissão de detective privado. A meu ver até vale a pena seguir. Há coisas que não lembra ao diabo!

Bom fim-de-semana!

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