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Vazias de sentido

por Zilda Cardoso, em 28.03.09

Imponho-me quebrar o silêncio acerca deste importantíssimo tema.

As palavras são vazias de sentido, todos sabem, não têm conteúdo definido. Como nos entenderemos com as incertezas da linguagem que as usa?

A nossa experiência da língua e a consulta de um bom dicionário (o que é?) ajudam, mas o próprio dicionário dá vários significados que nada têm a ver entre si, e que podem contradizer-se e deixar-nos irreparavelmente na mesma. E quanto à experiência da língua que é uma coisa viva que ganha sentidos novos a cada passo… que dizer?

O menos que posso dizer é que é perigoso, e toda esta indefinição arriscada e conflituosa.  E que quanto ao discurso, quanto mais sofisticado, quanto mais simbólico, mais perigoso é e arriscado.

Penso como superar as dificuldades que tornam para mim obscuro um discurso. Quando alguém fala, procuro considerar o tom da voz, a expressão do rosto sobretudo dos olhos, a atitude, os gestos… Sei que, desse modo, tenho alguma possibilidade de compreender o que diz. Alguma possibilidade, porque me posso enganar quanto ao significado do comportamento em causa.

Se quiser ir mais longe, devo levar em conta o grupo social e cultural e político a que pertence, a educação, os interesses e os gostos, todas as circunstâncias da sua vida. Se souber, considerarei o ADN. E o melhor é acrescentar o estado do tempo naquela manhã e a disposição boa ou má do indivíduo falante.

Quero dizer, qualquer de nós, interessado em entender o interlocutor deve analisar e reflectir maduramente, com tempo e com inteligência e com toda a sua experiência de vida e cultura, antes de interiorizar e de dar resposta.

Isto sobre a fala vem a propósito de seja o que for, mas é especialmente importante em ano de eleições. Se percebermos o sentido ou o projecto, se conseguirmos ver para além do que nos é mostrado, do que vemos, do que podemos ouvir… , TALVEZ SAIBAMOS ESCOLHER O MELHOR. Porque temos obrigação de pôr tudo permanentemente em questão e de escolher o que nos convém mais e à maioria.

Quanto às palavras escritas, os romancistas do século XIX, descreviam com detalhe o ambiente, as feições, o vestir, a classe, a ascendência, o tempo… antes de pôr a falar qualquer das personagens. E isso facilita enormemente o funcionamento da imaginação do leitor. Ou antes, facilita a sua visão dos problemas e da história a contar.

 


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publicado às 17:45


3 comentários

De outraidade a 30.03.2009 às 19:05

Que boa achega para os tempos que aí vêm e os tempos que atravessamos em que se usam as palavras e não se vestem. Tal como diz, o discurso é muito mais do que aquilo que se diz da boca para fora.

De Romina Barreto a 31.03.2009 às 22:05

Querida Zilda tem toda a razão. Eu, que ainda sou leiga até acho o mesmo. O discurso para além de um punhado de palavras que depois, se desmultiplicam no mais fundo da consciência e da mente é bem mais do que isso, do que simples palavras. É pena de facto que a esmagadora maioria das pessoas não consiga por vezes descortinar o seu significado mais fundo e a sua essência, não é?
Quanto às palavras escritas também estou inteiramente de acordo consigo. A palavra é tudo e a escrita sobretudo.
Ás vezes até “Sonho que sou a Poetisa eleita, aquela que diz tudo e tudo sabe, que tem a inspiração pura e perfeita, que reúne num verso a imensidade!” como se lê num poema de Florbela Espanca. Abraço apertado querida Zilda.

Romina Barreto

De Zilda Cardoso a 31.03.2009 às 22:09

Recebi-o. Que saboroso, que bom!

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