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Decidi-me. Entusiasmei-me com o quadro vangoghiano na busca de volteantes loucos amarelos e movimentos vibrantes, retorcidos e roxos com algum azul. Que formas nasceriam daquela força criadora?
Tinha-se falado muito em festas da cidade. Em fogo de artifício e em cachoeira sobre o rio. “Que bonito o incêndio de Roma”, dizia-se. “Se bem que muito ambicioso”, opinavam. Pode tirar-se-lhe o brilho, alvitrei. É evidente. Mas não, que ideia! Enfim, uma unidade de pensamento, uma ligação entre loucura e ritmo, entre arrebatamento e medida pode existir… Espectáculo dionisíaco a restabelecer a ordem?
Visto o ou apesar do gosto das pessoas pelos enormes espectáculos, as “festas do deserto”, soube que não ia resultar. Que poderia haver antes a preparar a sensibilidade…? Como nos aplicarmos? Incêndios menores produzindo-se devagar, aperfeiçoando-se, bem conduzidos; explodindo lentamente…?
A seguir a depois, não decidi o que aconteceu. Era necessário antes de mais, descobrir o motivo e a qualidade do motivo.
Deito-me ao comprido no chão, de costas, olhos nos olhos da madeira do tecto, resolvida a resolver.
Podia ser vingança. Desejo de vingança. Eles sabiam o que eu pensava. Pensava o que eles pensariam, diferente do que diziam, do que sorriam. Divertido isso. A luta era entre pensamentos esconsos. E saiu um espectacular ajuste de contas em som e luz.
Non sense.
Amor, talvez. Amor fora de moda e de convenção. Ele não correspondia. Eu não me encontrava no azul fluido dele. Então… lancei o cocktail.
Mas não podia ter lançado. Seria de um vulgar ressentimento, nitidamente fora da minha medida. A minha virtude é o desejo de bons desejos passivamente conformes com a disciplina, com a lei. Fugir à dor entrando no coro.
E por que encontrar alguma enredada razão? Apenas o gosto do espectáculo transbordou, do grande espectáculo de fachada que vai do esplendor da cortina de fogo de um lado à miséria que ela esconde do outro lado da ponte. Duas violências. Ou podia ser o gosto de degelo. Que não sucedeu: de facto, não atirei o cocktail.
Voltei para a sala a pousá-lo com cuidado, vermelho, sobre a mesa por entre as bolachinhas salgadas e leves, receita muito antiga, de avó, e a bola de carne, uma delícia quente.
Quanto ao que aconteceu a seguir, finalmente decidi: não voltaremos a encontrar-nos.
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