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Festa no Deserto (O Degelo)

por Zilda Cardoso, em 21.03.09

Porém, naquele dia, veio ao meu encontro - de olhos azuis com o sorriso escolhido embora alto e toda a doçura musical na voz: "Tanto gosto!"; "Ainda bem que veio!"; "E a família?".

Eu suspeitava vagamente. Perguntei-me se iria acontecer alguma coisa a seguir a depois. Se continuaríamos a ver a vida por uns visuais diferentes: eu passando abaixo do seu olhar para o longe, desconhecida, pequena, autopiedosa; ele...

Depois, foi o cocktail que sempre aprecio como devo: não para conhecer as actividades de seja quem for, mas para imaginar pensamentos, sentimentos, vontades. De forma aberta a todas as surpresas e riquezas possíveis.

As apresentações, o deambular de grupo em grupo de sorriso colado como o copo de sumo vermelho aos dedos, usado como arma de defesa. Ou de ataque para alguns. (Também pode ser um microfone que registe). Sempre perigoso utensílio cuja função com rigor desconheço.

Cocktail especial com petróleo e areia – se o arremessasse ao longe, tapado, com força… Se lançasse o fogo…

Pode ser hoje, pensei. Posso libertar-me hoje. Há um poder de que devo proteger-me ou que posso dominar sem ritos mágicos ou encantamentos. Apenas um gesto simples…

Espreito o seu jardim de óptimas dimensões, perfeito. Cerejeiras em flor, “Já estiveram mais bonitas”, diz-me com orgulho olhando a direito para a sua árvore, e relvado imenso. Saí para a frescura, farta de bater coros com toda a gente. Assembleia de aristos – os melhores sem ressentimentos – gozando ainda a velha herança de costumes e de opiniões que se não transformaram em sabedoria. Porque eles não transformam nada. Conservam e classificam. A mim, sem avós, como se fosse possível. Errante. Qual a sua/minha moral? Sem avós, a moral não é possível.

É certo que havia os quase mestiços em menor número. Eram intelectuais práticos ensaiando não imitar tudo, mas dando ordens do berço senão por vocação. Top ten people. Por que dissimulavam? Verdadeiramente era tão aberta a dissimulação que só podia ser outra coisa: subtileza ou requinte. Fosse como fosse, parecia natural. O fingimento.

Pus-me a supor o raro espectáculo que daria: as chamas altas enquanto os gritos do jardim agredido, os brilhos soltando-se para o infinito em faíscas e pedaços cintilantes. Então o vermelho líquido espalhava-se no chão e uma harmonia de sons e cores trazia com o prazer uma pequena felicidade; vinha sabiamente iludir uma certa angústia.

Entendamo-nos: o conflito era solúvel, não trágico. Devia resultar um espectáculo justo que colocaria cada um no seu lugar, sem dissenções. Talvez que a memória dele viesse a ser um elo de ligação entre nós. Um verdadeiro elo.

(termina depois)

Texto publicado na página Das Artes Das Letras, O Primeiro de Janeiro, 1982

 

 

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publicado às 18:22





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