Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



B U R L E S C O (2)

por Zilda Cardoso, em 19.02.09

Coisas… como… bom… O que pretendo é… ajudar a não desalinhar o mundo mais do que ele está. Quando era pequena, olhava com curiosidade para o globo terrestre e perguntava-me porque estava ele inclinado. Mais tarde, soube pormenores bem interessantes sobre esse globo.

 

 

Aquele era de folha, com desenhos coloridos – vermelho, azul, cor-de-rosa, amarelo - e tinha um eixo preto de metal sobre o qual era possível fazê-lo rodar. As extremidades do eixo estavam presas a um arco preto do mesmo material. E formava um ângulo com a mesa sobre que se pousava o pé redondo do objecto. Em geral, era iluminado e decorativo. Não pensei, na ocasião, que ele fosse de estudo, parecia mais um brinquedo.

Fui tendo algumas noções sobre ele ao longo da vida, mas nunca estive muito certa delas. Por exemplo, aquela esfera representava o lugar, isto é, o planeta em que vivíamos. Parecia tão estranho! Para mais, de forma geóide e inclinado!

E rodava em volta de si próprio – o globo verdadeiro, o de carne e osso, quero dizer, aquele planeta que habitávamos, e que, em simultâneo, girava em torno do sol a boa velocidade. Como é que nós, seus habitantes e ainda por cima, pousados, apenas pousados na superfície, nos podíamos suster sem andar para aí aos tombos? Aos trambolhões, aos chutos e biqueiradas, às cabeçadas, violentamente atirados uns contra os outros… Trinta quilómetros por segundo é a sua velocidade de translação, meio quilómetro por segundo a de rotação… 

 

 

(cena do contrato)

Como não estariam os habitantes da Terra danificados da cabeça e radicalmente deteriorados doutras porções do seu corpo?! Não me admirava que os nossos comportamentos fossem destravados. A nossa vida só podia ser uma cena burlesca no género das que os irmãos Marx inventaram e representaram no cinema. Eles desarticulam a Ópera (nada mais formal) e transformam-na em circo, e os diálogos em delírio de palavras. O filme passado no último domingo em Serralves, UMA NOITE NA ÓPERA, testemunha isso. Tem cenas hilariantes, de chorar a rir, como as duas famosas, a do contrato e a do quarto. Simulam exactamente o que deveria acontecer se estivéssemos em movimento de translação e de rotação em simultâneo com outros movimentos como dizem que estamos.

 

 

(cena do quarto)

Apesar de tudo, não acontece tal qual. Por isso, não acredito naquela ciência.

O que esperava até há pouco era ajudar a ordenar o mundo, a pô-lo vertical, e sem brechas, sem manchas, sem irregularidades, sem ondulações, enfim, uma coisa bonita de se ver.

Pensando longamente, no presente, a minha vontade é contribuir para manter o mundo tão desalinhado como o encontrei.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:48


12 comentários

De Augusto Küttner de Magalhães a 20.02.2009 às 00:12

PASMO COM ESTA ULTIMA FRASE. Vou pensar nela! Talvez seja isso mesmo? Tudo, como estava? Será possivel, mesmo desalnhado, mas nada mudou, tudo mudou um pouquinho, talvez nem tudo para pior, nem tudo para melhor, tudo está difrente, mas desalinhado....vou pensar...escreva, escreva, sempre!

De VIGUILHERME a 20.02.2009 às 09:43

O desalinho ,a confusão,a irreverência, é sempre um desafio ,uma provocação,pois conduz-nos a uma sabedoria de saber estar sem estar ,de ser, sem ser, de fantasiar e imaginar como tudo seria diferente se se mudasse este banco ou esta poltrona......ou estas maçãs,ou estes pessegos ....ou estes cavalos ou este pó .......tudo ficaria limpo e arrumado .....mas o que seria harmonioso e arrumado para mim não o seria para ti ,nem para ele,nem para ela ......quem teria a verdade e o direito á arrumação ...?então todos consensam e por vezes há um padrão comum universal que vigora e se mantem a que alguém chamou arquétipos e que mantem esta desordem em ordem e o desiquilibrio em equilibrio em momentos e em certos momentos ,pois logo se cria/recria e acelera novos /velhos valores e volta-se a ........desiquilibrar até voltar a criar e recriar histórias e retóricas e pragmaticas ......para se alinhar o que estava ou começava a desalinhar .........não se diz que o TEMPO É UM GRANDE CONSTRUTOR .....não sei se o que digo é desalinhado ou alinhado mas é por vezes um prazer di -vagar para alinhar e desalinhar .........

De Zilda Cardoso a 20.02.2009 às 16:32

Muito obrigada pela sua achega. O mundo sempre foi confuso porque não podia deixar de ser, dadas as circunstâncias da sua vida. O que me admira é que desejemos nós sempre a perfeição, a regularidade, a bondade, o bem, a beleza em termos absolutos e nem sequer sabemos o que isso é. Mas sabemos que não chegaremos lá. Porque não é alcançável. Como se compreendem todas estas nossas construções?
E o absoluto não muda, não alinha e desalinha. É intemporal e imutável...

De serradolarouco a 20.02.2009 às 18:19

O Blog http://serradolarouco.blogs.sapo.pt/ , tem o prazer de cumprimentar e manifestar a s admiração pelo "ofiodeariadne". C os m cumprts a V.Exª.FL
......

PALESTINA, meu amor ! PALESTINA, irmã de Timor !
......

De VIGUILHERME a 20.02.2009 às 20:59

Gostei de viajar por Montalegre no seu blog,mas oque mais admirei foi fazer com a Unesco a visita ás ruinas do mosteiro de Pitões das Junias,convento de cister,fundado entre os seculos X-X||. A caminhada a pé até ele foi de uma beleza , onde a natureza nos envolvia sem horizontes finitos ,e onde a história caminhava também connosco. Parabens por tão bela terra , sua gastronomia e cultura .

De José Carlos Pereira a 21.02.2009 às 01:10

Quando a senhora compara o globo terrestre ao ser físico da matéria humana, não estará a querer dizer que o "Homem é a medida de todas as coisas"? Será esse o desalinho, ou irreverência, rebeldia (como queira chamar) de que fala?
Cumprimentos.
José Carlos Pereira (Felgueiras)

De Zilda Cardoso a 21.02.2009 às 09:22

Bom dia, José Carlos. É muito agradável para mim receber os seus comentários, espero que os meus escritos continuem a merecer a s/atenção.
Eu usei, é claro, de muitas liberdades poéticas. Utilizei propositadamente termos confusos para divertir e para dar boa ideia da barafunda que pode ser a nossa vida. Esqueci noções verdadeiras e mais que comprovadas porque convenientes para aquilo que queria dizer. Isto... visto de uma perspectiva de perfeição absoluta, a que todos aspiram.
E sim o homem é a medida de todas as coisas. E depois há o mistério.

De José Carlos Pereira a 21.02.2009 às 15:07

Cara Zilda (permita-me tratá-la assim, que retire "senhora"):

Com certeza, os seus escritos continuarão a merecer a minha atenção (e até o meu modesto comentário), porque dou muita importância às palvras inteligentes, de pessoas inteligentes, independentemente de estar, ou não, de acordo com as opiniões formuladas. Acimo de tudo, priveligio a inteligência e a seriedade. E também a independência! Apesar de esta ser sempre relativa.
Respeitando a liberdade poética reivindicada pela Zilda, creio na sua boa-fé, ou seja de que não se trata de mero hermetismo, de estados de alma, estes seus textos... (desculpe se estou a ser grosseiro!). É que o tempo urge para novos desafios. A descoberta, no limiar do século XXI, do Homem-Só, nu, sem as roupagens das consciências dos que que, até a um momento recente da História, cometeram as maiores crueldades, deixando herdeiros e herdeiras anunciadores de modernidade, ou de pós-modernidade, ou de pós-pós-modernidade, mas velhos nos actos e atitudes, mais grosseiros que o homem das cavernas. O Homem Novo tem que romper com o Velho, mas como?
Há que formular opinião (já estou farto de opiniões de chama ardente!), há que formular o debate (sem surdos-mudos, e muito menos aos berros!).
Congratulo-me com gente inteligente, de palavras inteligentes, e a Internet, os jornais e toda a comunicação são um espaço onde é possível dialogar, instruir e partilhar... E há jorros de intenções, de facto, de plataformas, em que toda a erudição fica bem, principalmente (ah! ah!) em anos de eleições, como o de 2009.
A cultura e a democracia não devem ter calendários-guias, de oportunidade aos cargos públicos, isto é, em busca de palcos em que uns carregam os entremezes da corte dos momos, à boa maneira medieval, de que nem Gil Vicente se viu livre de tamanha ornamentação, com diabos velhos a compromter as ideias renascentistas. E Sá de Miranda já falava de falsos devotos (no sentido mais lato do termo)!
Eu, por mim, sou como os "Vencidos da Vida". Ah, pobre Antero!... É na derrota, no pós-facto que é possível idealizar caminhos; em que é possível ser-se mais sincero, solidário, amargo e alegre, poeta e sonhador, mais humano, não corrompido com poderes ditos democráticos mas já com mais de 50 séculos de vícios. E o importante seria que rompessemos de vez com o Velho.
Ser-se "vencido da vida" é escolher a Utopia como possível, e realizá-la mesmo, no concreto, com alma e com as mãos, para trabalharmos o barro. E tudo o resto é Carnaval.
Com estima e consideração pela Zilda.
José Carlos Pereira (Felgueiras)

De Zilda Cardoso a 22.02.2009 às 10:18

José Carlos, perdoe mas não vou responder directamente ao s/comentário, que agradeço.
Aprecio o burlesco dos Irmãos Marx porque inclui uma crítica à sociedade, não apenas americana, mas ocidental. A sociedade que enveredou pelo caminho do desenvolvimento económico, abandonando muitas vezes os valores morais que nos orientavam e que eram fundamentais para um outro tipo de desenvolvimento. O desenvolvimento económico não faz mal nenhum, pelo contrário, todos o desejamos, não faria mal se se não tivesse tornado desenfreado, ganancioso e destruidor. Arrasador. Aprecio os filmes dos Irmãos porque a brincar e de forma inteligente clamam a n/ atenção para as injustiças, as mentiras, as perversidades, as diferenças. Talvez pensassem que estávamos mais interessados em ver comédias que tragédias e elas chamariam melhor a atenção para os problemas sociais importantes, os que realmente nos afligem e se vão transformando em acontecimentos trágicos mundiais. Porém, podemos sempre, cada um de nós, fazer alguma coisa boa e apropriada para inverter o processo. E sei que há quem esteja a trabalhar nesse sentido.

De José Carlos Pereira a 22.02.2009 às 12:55

Cara Zilda:

Fico feliz por ter encontrado uma "fórmula", a "resposta-chave", quiça uma "estética" de desenvolvimento económico... Um deus material. Sei lá!... Eu, por mim, estarei sempre do Outro lado, não oposto a si nem a ninguém, mas em vigília pelos "meus" contra o "desalinho organizado" - os velhos poderes, com os quais se torna muito difícil romper. Mas deixe lá: o defeito é meu... É o Desassossego, de que nos fala Fernando Pessoa!
Cumprimentos.
José Carlos Pereira

De Cabecilha a 01.03.2009 às 19:22

burlesco = burla com ar fresco?

De Zilda Cardoso a 01.03.2009 às 21:20

DEVE SER ISSO, que boa ideia!

Comentar post





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D