Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A POLÍTICA

por Zilda Cardoso, em 04.01.09

 

 

A cada passo, sinto imensamente a necessidade de repensar o que é a política e, naturalmente, o que é a democracia.

Para repensar a política, socorro-me da experiência que tenho tido e do que li no tempo em que não tinha essa experiência. E também procuro com frequência ler o que no presente se escreve sobre o assunto.

Esta foi a vez de alguns textos de Hannah Arendt nascida na Alemanha , Hanover, em 1906. Formada em filosofia, em teologia e em filologia, exilou-se nos Estados Unidos em 1941 e aí ensinou ciências políticas e filosofia; morreu em 1975.

Os textos são por isso contemporâneos. Resultaram de encontros e conferências e terão sido escritos ainda nos anos 50 do século XX, se bem que a sua edição original seja de 93 e a que eu tenho nas mãos, edição do Seuil, seja de 1995.

É uma tradução para francês intitulada Qu’est-ce que la politique?  em que Arendt tenta definir o que é a política: são fragmentos e ensaios de quem dedicou a sua vida ao pensamento político filosófico teológico.

Segundo Arendt, a política não nasce com o homem, não faz parte da sua essência. A política nasce com a comunidade, nasce das relações entre os homens.

É claro que há o sentido geral do termo que tem a ver com a forma como nos relacionamos com o outro ou com os outros.

A política de que falamos, ao contrário da ciência - a biologia, a psicologia, a teologia, qualquer pensamento científico - que se refere ao homem,  a política toma como referência os homens, a comunidade dos homens, as relações entre eles.

No entanto, os homens são diferentes uns dos outros.

Então de que modo, visto que é isso que queremos, se pode garantir os mesmos direitos a indivíduos tão diferentes?

Diz Arendt que “A política organiza d'emblée seres absolutamente diferentes considerando a sua igualdade relativa e abstraindo da sua diversidade relativa”.

Quer dizer, a política organiza as relações entre os homens esquecendo que são diferentes e considerando-os como iguais. Ou dito doutra maneira, considerando-os como iguais embora saiba que são diferentes.

Poderão estar aqui as razões das dificuldades da política.

Isto são noções básicas de que se pode partir para uma reflexão aprofundada, embora a política não se dê muito bem com pensamentos profundos.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:12


14 comentários

De Augusto Küttner de Magalhães a 06.01.2009 às 14:04

Começando pelo fim: ...embora a política não se dê muito bem com pensamentos profundos!

Este ponto é muito necessário, sendo que o que para traz está escrito merece a nossa análise cuidadosa, dado que se fala tanto de política e sobre política, tantas vezes nem se sabendo do que se está "bem"!!!!a falar!.
Li em tempos uma definição, de política = como sendo a ciência e a arte da promoção da justiça e do convivio social. Aqui fala-se em ciência, e a Zilda enquadra-a (a política) como não ciência, e porventura com razão. É um tema a dissecar!!

De outraidade a 06.01.2009 às 21:47

Será que a política organiza as relações entre os homens, independentemente das suas diferenças? Ou será que as diferenças são consequência da desorganização que, engenhosasamente, os homens constroem através da política?

De Zilda Cardoso a 07.01.2009 às 07:35

Penso que a política, a democracia, melhor dizendo, organiza as relações entre os homens considerando-os iguais. E não conhecemos nenhum país no mundo democrático em que os homens sejam iguais. Quem organiza sabe que não são iguais (a ambiguidade que sempre detectamos na política pode vir daqui) e havia que, antes, através da educação e da instrução, tentar aproximar a idade mental uns dos outros. Só desse modo podemos compreender o que é o nosso interesse maior, que seria o famoso interesse comum, o bem comum. Não acredito que a intuição resolva todos os problemas, embora seja muito importante (refiro-me, p.e., à escolha de quem nos deve governar).
Não penso que os homens construam engenhosamente ou maldosamente a desorganização de que as diferenças provêm. Acho que as diferenças, para já, são reais.
Que pensa a minha amiga?

De Augusto Küttner de Magalhães a 07.01.2009 às 11:54

Posso?
Penso que alguns homens e mulheres, constroiem engenhosa e maldosamente a desorganização da qual e pela qual as diferenças provêm! Muitos, tantos, sabem que quanto pior - melhor, outros que se descomposerem tudo, talvez sobrevivam - eles - recolocando a seu favor os cacos! Mas não todos , evidente e felizmente!
Algo que a Zilda Cardoso aqui muito bem refere é a educação da qual faz parte a instrução, e aquela tem também - deveria ter - principios, valores, respeito e rumo, tudo isto junto faz com que a democracia, sem lirismos e utopias possa ser um regime politico, o mais igualitáio possível! Penso!!!!

De outraidade a 09.01.2009 às 01:29

Tem toda a razão, as diferenças são reais e condição de qualquer sociedade. Talvez a minha falta de experiência política me leve a acreditar que se os homens, incluindo os políticos, tivessem mais consciência na percepção das diferenças, poderiam adquirir mais consciência de si próprios como homens o que transformaria, eventualmente, a sua forma de fazer política.

De Augusto Küttner de Magalhães a 13.01.2009 às 14:24

Penso ser muito complicado na polítca como em algumas outras áreas, as pessoas funcionarem sem algo que as descompensa, que é uma necessidade de notoriedade, e mesmo que involntariamente de poder, e de repente, estão noutra órbita, noutro mundo que não é bem "aquele": - o "efectivo".

De Laurinda Alves a 07.01.2009 às 11:22

"Segundo Arendt , a política não nasce com o homem, não faz parte da sua essência. A política nasce com a comunidade, nasce das relações entre os homens". Muito interessante esta definição inaugural. Gostei da clareza deste post e da maneira simples e profunda como nos interpela. Obrigada Zilda! Venho diariamente ao seu blog e vejo que nem todos os dias escreve, coisa que egoisticamente me enche de pena pois a sua escrita inspira-me. A simplicidade de muitos dos seus posts fascina-me por serem sínteses incríveis de temas de grande complexidade e profundidade. Muito bom. Muito obrigada. Se puder escreva mais! :)

De Augusto Küttner de Magalhães a 08.01.2009 às 14:08

Laurinda estou inteiramente de acordo consigo. Quer no aspecto da Zilda Cardoso, vir menos vezes do que o desejado a este seu blog, dado que rem uma formas de fazer abordagens simples mas com muita profundidade e conhecimento, o que é cada vez mais necessário!
Quanto à política nascer com a comunidade das relações entre os homens, é evidente!

De Augusto Küttner de Magalhães a 09.01.2009 às 15:14

Laurinda já reparou que a Zilda, não nos dá atenção? Pedimos-lhe mais post`s, com mais assiduidade, mas nada!!!! Estes são DIGA-SE SEMPRE - poucos - MAS MUITO MUITO BONS! Pelo que fica-se pela QUALIDADE!

De Zilda Cardoso a 10.01.2009 às 10:18


Agradeço muito o s/ interesse e simpatia, A. de Magalhães, todos nós precisamos muito disso... que nos alegra o coração. Infelizmente, não me tem sido possível escrever com regularidade como gostaria, por pequenos motivos.
Tenho esperança de poder recomeçar em Fevereiro e continuar a merecer o interesse dos m/ comentadores, sempre oportunos.
Um abraço para todos.

De Augusto Küttner de Magalhães a 10.01.2009 às 12:58

Zilda Cardoso o pouco com a Sua qualidade é mais que suficiente! E todos temos fases em que "outras coisas" se intrometem, e a essas teremos que dedicar mais do nosso tempo!

De Maria João Brito de Sousa a 09.01.2009 às 23:18

Disse que gostava de desafios, por isso tomei a liberdade de lhe atribuir o MASTER BLOG AWARD. Se tiver a bondade de o aceitar, poderá recolhê-lo no http://premiosemedalhas.blogs.sapo.pt/
Obrigada!

De Zilda Cardoso a 10.01.2009 às 11:27

Estou imensamente orgulhosa do prémio que me foi atribuido MASTER BLOG AWARD. Agradeço a poetaporkedeusker e, como se diz em Hollywood, a todos os que tornaram possível... É como um Óscar para mim.
Recomendo a visita a este blog e aos dos seus amigos.
Muito obrigada.

De Maria João Brito de Sousa a 10.01.2009 às 13:25

Muito e muito obrigada! Também é para mim uma honra saber que o aceita!
Um abraço.

Comentar post





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D