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As horas da Alice

por Zilda Cardoso, em 24.11.08

 

 

 

Não me falem em dias de 24 horas. Porque isso é treta!

Desde há um certo tempo, os meus dias não têm vinte e quatro horas, não são de vinte e quatro horas. Ou então as horas não têm sessenta minutos. E não consigo realizar o que pretendo com horas e dias tão pequenos!

Se alguma vez tiveram para mim aqueles minutos todos, isso passou-se há muito. E é pena: preciso bem daquelas vinte e quatro horas de sessenta minutos a que estava habituada para compor aquilo que tenho para compor cada dia.

Há pessoas privilegiadas que conseguem viver dias cheios daquelas horas comuns que todos conhecem.

Eu... não sei.

E não sei o que fazer: estou muito confusa.

Vivo a sonhar com dias compridos, possivelmente em fins-de-semana,  sozinha em casa, em que posso, com tranquilidade e sem que alguém ou algum acontecimento me estremeça, fazer isto ou aquilo. Ou isto e aquilo. Ou não fazer nada.

Em que tenha possibilidade de optar sem vacilantes pensamentos: faço agora isto ou faço aquilo? Ou deixo isto e aquilo para mais tarde e vou fazer aquele aquilo ou aqueloutro?

Por vezes, nalgumas manhãs, julgo que vou conseguir realizar a maior parte das minhas desejadas tarefas daí a pouco, a bem dizer, à tarde, nessa tarde. Porque há a tarde, caramba! Além da manhã, há a tarde.

Mas a meio da tarde, verifico que já não tenho tempo... e fico por de mais alvoroçada.

Interroguei algumas pessoas sobre este assunto. O que realizaram elas de excelente para merecerem o favor de terem tempo? Talvez eu possa corrigir algo que me está a impedir de ter assim um tempo.

Mas elas não explicam. Há pessoas que não partilham... Que havemos de fazer?

 

Por vezes, tenho vontade de reler, revisitar, reviver as histórias da Alice. Já me têm ajudado, noutras ocasiões,  a compreender temas complicados. Por isso, ainda uma vez, folheei um dos meus livros preferidos, de Lewis Carroll.

Ele compreendeu muito bem esta questão fundamental da falta de tempo e a sua Alice soube ultrapassá-la da melhor maneira. Em minutos, ela sonha e fantasia e vive longuíssimas e complexas aventuras cheias de personagens muito desiguais, de ideias e de soluções assombrosas e engenhosas,  histórias que demoram muitas horas só a contar.

 

Estão a ver que não posso acreditar que aquelas sejam horas de sessenta minutos cada.

 

Encontrei! Afinal, é muito simples: são fantasias novas que eu gostaria de viver, quanto mais não fosse, para vo-las contar.

 

"'Fica para outra vez...'; 'A outra vez é já!' Ordenavam as alegres vozes."   

 

 

 

 

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publicado às 09:52


12 comentários

De Romina Barreto a 24.11.2008 às 14:16

Obrigada pelo seu texto querida Zilda.

Quanto ao tempo a mim enerva-me porque passo os dias entre livros escolares, os outros livros (literários) que não passo sem os ler, entre idas ao cais ao fim do dia, o seu blog e o da Laurinda, também nunca me esqueço de fazer umas entrevistas imaginárias e de escrever qualquer coisa e a meio de tudo isto tenho sempre de ter tempo para sonhar, imaginar e viver uma outra vida. Diria mesmo que passo os meus dias embrenhada em pensamentos, em sonhos e em memórias indeléveis.

Mas eu gosto destes dias assim, fazem-me feliz!

Mais uma vez obrigada por este texto, sei que vou ficar a pensar nele o resto do dia.

Um abraço gigante!

Romina Barreto

De Jotacê a 24.11.2008 às 17:01

A droga é a net... os belógues, etc... ficaste apanhada e agora não tens tempo para nada! :)

De castigo vais ter que fazer um breve resumo da história da Vantag para a página www.vantag.com que está em construção.

Há uma zona que queria que fosse a história da vantag com as ddiversas fases e datas (colocamos na mesma página em construção... mas em vez de só ter essa frase teria desde já algumas linhas de texto.

obrigado!

De CC a 24.11.2008 às 22:18

Jotacê,

Não diga que a culpa é dos blogs, já viu se a Sra Zilda nos priva dos seus maravilhosos textos?

De VIGUILHERME a 25.11.2008 às 10:51

Sim a teoria da relatividade de Einstein,levou-nos a repensar sobre tempo e espaço.......ou "no mundo em que o tempo é um círculo ,cada aperto de mão ,cada beijo,cada nascimento ,cada palavra,irão repetir-se com precisão."...."e coisas que acontecem já aconteceram antes um milhão de vezes."tirado do livro"Os sonhos de Einstein "de Alan Lightman ,e do livro de "Alice do Outro lado do espelho"tirou-se este pequeno trecho ,quando Alice corria /voava com a Rainha e esta gritava"mais depressa!mais depressa! "Alice olhou á sua volta muito espantada.
______Ora,parece-me que temos estado sempre debaixo desta árvore!Está tudo tal e qual como estava!".....................___"Já estamos a chegar?lá conseguiu Alice articular.
_________A chegar !_repetiui a Rainha ___Ora,já passamos por lá há dez minutos! Mais depressa!"

Não sei se este pequeno apontamento a ajuda a entender o tempo que muda ao longo do tempo ,mas é sempre o tempo de cada um........
Até um reencontro no tempo......

De Zilda Cardoso a 25.11.2008 às 12:49

Acabo de chegar de uma aula de Astronomia com a Teresa Lago, em que se falou, entre muitas coisas, da teoria da relatividade de Einstein. E sobretudo de escalas de tempo e de espaço tão fora do n/ tempo e do n/espaço que são difíceis de entender pelo comum dos mortais. A menos que se use muito a fantasia. Ou talvez não: a base é científica e de observação.
Vem muito a propósito o s/ comentário, que agradeço. Ajuda-me sempre pensar na Alice a que chamo das Maravilhas, no para além do espelho e na Rainha, que lhe mandou cortar a cabeça e exigia que qualquer sentença fosse dada antes do veredicto do júri. São não apenas coisas que me divertem, mas com que aprendo a aceitar o mundo e a aceitar-me.

De Augusto Küttner de Magalhãesa a 25.11.2008 às 14:50

Mais uma excelente abordagem, a um tema tão real. Zilda, compartilhe p.f. conosco, sempre, estes seus pensamentos! Um destes dias falava com um médico sobre isso mesmo, e não chegámos a grandes conclusões, não porque a partir dos 55 / 58/ 60 anos algumas "coisas" se façam mais devagar. Não! Mas talvez haja em nós um acumular "grande" de situações, de conhecimentos, que nos fazem brutar outros tantos e se tudo queremos fazer o tempo para nada chega! Não sei se será só isso...ou também isso!

De concha a 25.11.2008 às 16:28

Curiosamente acabo de ler um post sobre o tempo .Chego aqui e o mesmo tema.
Hoje com tanta solicitação há de facto que controlar bem o tempo que se quer também livre para fazermos o que mais nos agrada .Por natureza, por vezes preciso de tempo para sonhar, para pensar ou pura e simplesmente para estar sem qualquer preocupação do que programei fazer .Penso que mais uma vez há que discernir sobre aquilo que verdadeiramente é essencial para nós .Então o tempo chegará para isso e se der para tudo o resto.
Um abraço e mais uma vez parabéns pelo excelente blog que pelo cuidado com que é feito, de certeza é feito com tempo.

De Zilda Cardoso a 25.11.2008 às 18:49

O tempo que nos faz mais falta é o PARA SONHAR. Mas tenho tempo para o blog, sem dúvida, mesmo quando não tenho para mais nada. No momento, dá-me satisfação, está a preencher uma lacuna. Num outro momento qualquer mais ou menos próximo, posso querer fazer outra coisa neste espaço de tempo. E aí, pode faltar-me o tempo e talvez não seja por fazermos agora as coisas mais devagar, como diz A. Magalhães, que nos falta o tempo. Talvez seja o tal acumular de experiências. Não sei, não sei. Apenas reconheço que me falta o tempo e não percebo onde ir buscá-lo.

De Primavera a 25.11.2008 às 18:46

Acho que devemos aceitar o nosso próprio ritmo para fazer as coisas...e assim a vida correr leve ...leve :)

De outraidade a 25.11.2008 às 18:59

Coloca-nos esta questão do tempo de uma maneira tão encantadora que, pessoalmente, me trouxe um conforto enorme. É que tenho muitos dos sintomas que desescreve, o que me causa alguma angústia porque me sinto a "perder o tempo". É como se o tempo fosse outro ou estivessemos noutro tempo. Aliás, essa minha preocupação, levou-me a escrever um post intitulado "tempo".
Obrigada por ter a sapiência de nos adivinhar os pensamentos e nos provocar o sorriso enquanto a lemos.

De Zilda Cardoso a 26.11.2008 às 08:16

Respondi no s/ blog a esta questão do tempo. Falámos de muita GENTE a este propósito e agora ocorreu-me ao lê-la um outro cientista, lavoisier, as palavras importantes dele, mais ou menos isto: no mundo nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, lembra-se?
Deve acontecer também com o tempo. O tempo não se perde, transforma-se naquilo que formos realizando...

De Jotacê a 27.11.2008 às 16:28

o humor é mesmo para gente inteligente (atenta)! :)

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