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Mobilização geral da sensibilidade

por Zilda Cardoso, em 25.10.17

A cidade recortava-se a toda a minha volta e pareceu-me mais espigada hoje, mais saída, desenhada no céu, mais alta do que é hábito, como pode ser?

Os entalhes vão até mais perto das estrelas, exactamente onde elas costumam aparecer. Alguém lhes puxou pelas orelhas, às casas da cidade que cresceu para o céu.

Eu andava a espreitá-lo, há um certo tempo, a espreitar o Sol. Julguei que já eram horas de se levantar.

Preguiçoso, 7 horas e 40 e nada!

Há uma bonita claridade por aqui, esta manhã, mas eu quero vê-lo, tocar-lhe, ter a certeza de que vem, de que veio.

E volto atrás. Como pode a cidade ter crescido para o céu? No entanto, foi isso que aconteceu, se é que compreendem o que quero dizer. (Sempre ouvi Helder Pacheco afirmar que esta cidade não tem por onde se expandir…)

E o Sol?… que não há meio de se erguer! E tem que assomar  acima da Terra para que tudo aconteça.

8 menos ¼! Devo chamar a Polícia, é isso que se faz. Ou uma ambulância, o 115?! O 112!

Faz-me falta. Aprecio o conforto que o Sol me dá. É tão oferecido!

Sei bem onde o avisto, cada manhã, o lugar certo de raiar, os seus fios luzentes… O mundo todo se altera, o meu mundo muda de cor, de temperatura, de beleza, de lucidez! Mas não de estilo.

As árvores também cresceram, se prosperarem muito mais, taparão o azul onde os aviões, para já, passam e… deixam tudo como antes.

Um dia fiquei zangada quando vi, como por magia, surgir o Terminal de Cruzeiros a tapar com o seu branco excessivo o azul deslumbrante que eu achava ser meu e nunca de mais. Durante dias, pensei naquilo: que direito têm eles…!? Aquele pedaço tão grande de azul luminoso assim sumido ou maculado com branco, pelo branco! Mas depois dei-me conta de como era original e bela a forma do edifício, uma obra de arte primorosa, além do mais, e como tal muito estimável, com o seu lugar claramente encastoado no céu das estrelas.

Li que o cientista, Físico, Stephen Hawkings, tinha autorizado Cambridge a divulgar na internet (60 mil downloads, vinte e quatro horas

depois), a sua tese de doutoramento, cinquenta anos apos a ter terminado. Que diz decerto coisas muito valiosas e inspiradoras, fundamentais para a nossa vida, mas para já, só sei que ele nos aconselhou a olharmos para as estrelas em vez de admirarmos os nossos pés.

Também prefiro e recomendo.

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publicado às 13:40

Casa da Eira - lugar xamânico

por Zilda Cardoso, em 09.10.17

Passei em Moledo, Casa da Eira, estes últimos dias…

O tempo esteve maravilhoso: sol brilhante, boa temperatura, cores tremendamente nostálgicas, perfumes a serem esbanjados, outonais, de frutos maduros e doces, matizados, esquisitos. E nenhum ruido de mundos… O silêncio era apenas sedutor e eu usei-o tal qual, nunca foi excessivo.

Deitei-me sob o azul. De vez em quando passava por mim uma borboleta amarelo-esverdeada, quase transparente, batendo as asas sempre no mesmo ritmo, agradável mas enérgico, e eu não pude deixar de pensar que o movimento de uma borboleta daquela cor, digamos, aqui na Casa da Eira num simples dia do princípio de Outubro podia provocar um tufão do lado de lá do mundo.

É claro que somos dependentes de numerosas e muito diversas realidades, mas um bater de asas e um tufão… de que modo se podem relacionar? Os cientistas lá sabem e quando tentam explicar… complicam ainda mais. Serão as frágeis quase transparentes borboletas da Casa da Eira provocadoras dos turbilhões devastadores que sempre acontecem do outro lado do planeta?

Quero crer noutra coisa: estas borboletas simbolizam transformação, renovação, inconstância, efemeridade… E o lugar em que aparecem, é xamânico a que apenas falta o feiticeiro. Beleza tem que baste. E o resto tem… em alusões enigmáticas.

Quanto a mim, que ali permaneci até ao crepúsculo, dei-me conta de uma alteração profunda na minha maneira de ver o mundo. Só. O ambiente era perfeito, confortável, despojado, inspirador.

Durante quase toda a minha vida me esforcei por fazer bem o que achava que tinha para fazer, o que devia fazer para legitimar a minha existência. Executar bem, ou pelo menos, de forma aceitável, o que as circunstâncias, os conhecimentos, os sentimentos, os raciocínios me sugeriam. E sofria imenso quando não conseguia. Tinha obrigações, não é, montes de obrigações! Mas agora entendo: posso deixar isso de lado – para outras pessoas, para outro tempo, para outras galáxias.

O que me deu gosto descobrir é que há uma quantidade enorme de empreendimentos que não me importo de realizar ou não. Não quero saber, não me atormento. E é esse o meu gozo, o prazer da minha nova vida: não quero saber. Não é como antes, por que havia de querer compor eu tudo? Agora não me ralo.-

E ficou tudo bem.

 

Saí dali triunfante, fui pregar a outras freguesias.

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publicado às 20:19

You raise me up…

por Zilda Cardoso, em 05.10.17

 

“Como gostaria de ter a tua opinião sobre assunto que me preocupe, meu Pai! Qualquer assunto. Sabia que o que tu me aconselhasses seria sensato, racional mas de quem me estimava, me acarinhava, me prestava atenção… De quem se emocionava e de quem sabia.

Eras uma pessoa bondosa, capaz de se descurar, de se sacrificar por mim… sem limites.

Sempre me senti só: quantas saudades… imensas saudades… quando não estavas a meu lado! E esse lugar nunca foi preenchido, meu Pai! Nunca soube… quando era ainda possível compensar, corrigir… nunca percebi até que ponto era importante que estivesses comigo. Nem me posso perdoar os erros cometidos a esse respeito, ainda, tantos anos vividos depois de ti.

Senta-te ao meu lado, Pai, senta-te. Não precisas de falar, sei que não gostas de falar, basta que estejas próximo... por um momento, em silêncio.

Ouve. Ensinaste-me a ser bem-intencionada, amiga do outro. Aprendi contigo a considerar a opinião alheia, a dar-lhe valor: talvez essa outra pessoa possua saber e experiência. Possivelmente, ela conhece sobre o tema mais do que eu alguma vez... Nesse caso, eu estarei errada.

Tudo isso que era de importância transcendente e que me fez hesitar, até titubear em muitas ocasiões importantes da minha vida, mesmo que, por vezes, pareça tê-lo esquecido… isso vem, vem-me ao pensamento com frequência, e sinto a urgência de praticá-lo. Por ti, Pai.

E, do mesmo modo, me deste um exemplo que sigo: o de procurar ser racional mesmo quando a emoção interfere. Há problemas sérios, é difícil, por vezes, encontrar um desejável equilíbrio entre os dois estados. É então que sinto mais a tua ausência, a falta do teu apoio.

Sempre confiei em ti, sabes, no teu discernimento, na tua bondade, no modo como soubeste colocar-te no meu lugar quando eu estava em dificuldades. E quando estava bem e feliz… igualmente me apoiaste e ficaste contente, por mim.

De resto, vivias mais para mim do que para ti e era isso que te fazia feliz.

O que me dá maior desgosto e tristeza, nesta existência, onde já realizei tudo o que tive oportunidade de aprender graças a ti, e de cumprir, é que continuo a sentir-me só, verdadeiramente só sem ti”.

 

Foi ele quem sempre me prezou sem reticências, me desejou todo o bem, quem esteve comigo em todos os momentos da minha vida, sempre do meu lado, sem ressentimentos e sem crueldades.

Nunca ninguém me fez tanta falta! 

 

A feroz independência e liberdade pela qual lutamos…não é coisa nenhuma, não faz nenhum sentido. Só estamos bem na companhia e possivelmente dependentes de quem nos ama.

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publicado às 20:42




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