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Não há justiça

por Zilda Cardoso, em 08.11.13

 

 

 

 

Tenho a UTOPIA no horizonte.

 

Para chegar lá, devo ultrapassar tudo o que já descrevi: esta paisagem desconstruída e comum, em certa perspectiva. Talvez nunca chegue ao desejado horizonte de beleza, de perfeição e de justiça, embora possa adivinhá-lo ao longe.

 

 

 

Caminharei com essa esperança, um bom programa.

Enquanto caminho - é a minha vida -, penso que poderei adivinhar o mundo onde essas virtudes existam.

Têm de estar algures, se somos capazes de pensar nelas… de falar delas, de desejá-las. Como poderíamos defini-las com tanto rigor ou sequer ter ideia do que fossem se não existissem… que seja num mundo separado possível de observar (apenas como sombra) e as mais das vezes impossível?

 

Mesmo sem saber o que isso é… a utopia… que não sei… continuo a ter vontade de justiça, de perfeição e de beleza.

Totalmente absurdo!

 

 

 

 

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publicado às 14:01

Heroína de domingo

por Zilda Cardoso, em 08.11.13

Sinto-me uma espécie de heroína-de-domingo-de-sol.

Realizei tantas coisas, aconteceram outras tantas. Todas de importância transcendente, experimentei-as com emoção.

Vi os maratonistas de fim-de-semana numa rusga muito colorida passarem a meu lado na avenida Brasil, com o único fim de correrem 42 km. Posso dizer que iam suados e entusiasmados até mais não.

Eram de idades muito variadas, caminhavam mais depressa ou devagar, decerto conforme a sua estratégia e as próprias capacidades físicas. De vez em quando, alguém batia palmas – era um seu conhecido que se atrevia a correr lado a lado com os mais corajosos.

Como de costume ia a minha amiga muito animada, chamando-me e acenando para mim e eu para ela, eu achando-a magríssima, ela conseguindo reconhecer-me com aquele chapéu ridículo e os enormes óculos quadrangulares.

No passeio, encontrei-me com o arquitecto da Escola do Porto, meu favorito e amável, surfista e tudo, que talvez arranje solução para o meu problema da falta de internet há três semanas. Mudando de sistema e de servidor, se é que eu sei o que estou a dizer.

E voltei para casa. Subi aquela rua toda, devo ter feito um décimo de maratona. Foi alguma coisa!

No lar, liguei o televisor e vi e ouvi o Papa Francisco falar às famílias reunidas no Vaticano e às outras. É um grande comunicador este Papa, as suas mensagens são simples, directas, irradiantes, fazem efeito. Ele é alegre, sabe adaptar-se às circunstâncias, diz-se um pouco ingénuo e um pouco astuto. Comoveu-me.

Ao ouvi-lo falar dos avós e do seu papel nas famílias, de como devem ser acarinhados e considerados e consultados porque cheios de sabedoria, desatei num pranto infindável. E continuei comovida durante várias horas seguintes.

Fiz o almoço, almocei. Cozi castanhas como sobremesa, castanhas enormes da Quinta do Casal, comi feijoas muito bem cheirosas, escrevi uma pequena crónica, apanhei sol na varanda, tirei fotografias, corrigi o escrito sobre o minúsculo beijinho, fiz telefonemas importantes, respondi a outros e saí para Serralves.

Havia extravagantes exposições de arte contemporânea e gigantescas instalações pertencentes ao acervo da Fundação, penso que algumas nunca tinham sido expostas.

Não vi o trabalho de dimensões colossais de Cildo Meireles, “Nós, formigas”, materializado no Parque; irei no dia 15 para a visita guiada e depois falamos.

A exposição de Ahlam Shibli, um palestiniano que fala da violência que é a perda de um lar, é particularmente estranha e muito expressiva. Há naquela sala um curiosíssimo cheiro que deve fazer parte do evento!

Tomei chá de pé porque não havia onde sentar e regressei sem acabar o chá pelo qual dei um dinheirão, mas não podia mais estar na vertical a ver pessoas - uma pessoa eternamente sentada em cada mesa - que diziam estar o lugar ao seu lado ocupado, a mesa ocupada. E depois vem alguém (e eu de costas) que toma um café nessa mesa lado a lado com quem lá estava esperando, (um café… dois minutos…), e desaparece sem eu ver, é um requinte de solidariedade.

Em casa, encontrei na garagem um carro estacionado fora de qualquer lugar permitido, com os piscas a funcionar amavelmente, obrigou-me a fazer uma manobra complicada. Afinal sou perita, pensei com inteligência, e consegui arrumar no meu lugar!

E fui para cima com esta ideia optimista, positiva e condicional, na cabeça: se não tivesse conseguido estacionar… que ia fazer? Desconhecida na zona, também não conheço os moradores vizinhos, nem encontraria o porteiro num domingo, meu ponto de contacto.

Não sei de quem era o animal abandonado com grãozinhos de luz amarela a pestanejar.

Deixaria o meu carro ali de qualquer maneira, poria do mesmo modo os piscas a piscar e iria alegremente deixar para outros o problema que outros tinham deixado para mim.

Que consequência moral posso tirar desta atitude transparente de quem não tem tabus?

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publicado às 13:23

cada dia

por Zilda Cardoso, em 07.11.13

Cada noite, espero com ansiedade o fim da noite, o aparecimento da luz.

É a luz que vai mostrar-me… que me apontará o mundo. Até à madrugada, tudo é inteiramente obscuro.

Espreito o alvorecer inquieta.

Pois enquanto o Sol não aparece, tudo é afim de nada. Não gosto de nada, não gosto de tudo. Aguardo o que admiro e que é fundamentalmente a iluminação. Afim de saber onde estou e o que tenho para olhar. Ver, não tanto percepcionar.

Ver claro, é o meu desejo. Ver o mundo com virtudes, com beleza, com pessoas… sem virtudes, sem beleza, sem pessoas. Quero ver tudo o que tem dado substância à minha vida, aquém e além, e que é a base do meu pensamento.

Aprecio contemplar, emocionar-me. Pensar. Tudo é ou irá ser como sempre vi? Será como penso que é, com novidades?

Talvez seja uma paisagem de futuros, o que julgo ir ver hoje. De passados não é, de certeza.

Não penso no passado. Seria um atraso na minha vida tão pouco vivida. Tão menos vivida do que teria sido meu desejo e do que podia ter sido.

Quero vivê-la muito, depressa. Do tempo futuro… devo aproveitar todos os momentos. Estão disponíveis para mim.

Imagino então que futuros desejados irão cristalizar um dia e ser realidade? E como? Que iremos inventar ainda para vivermos melhor…?

Melhor?

Daqui a cem anos, daqui a um milhão de anos… na Europa, no mundo, no universo… na minha pequena comunidade… quando já não participar dela… nem nenhum dos que estão agora comigo…? Nem aqueles que com inteligência e imaginação inventaram a ciência que nos dá cada dia uma vida diferente…?

Ou poderei ver uma paisagem de condicionais que seria aceitável e até importante por razões de sobrevivência, diz G. Steiner.

Do mesmo modo, por razões estéticas, uma montanha de “ses”, bela e agradável, com variadíssimos e fascinantes tons de verde seria bem-vinda.

O “se” pode significar (se bem percebi, o que disse Steiner) rejeição de factos que não importam, que preferia que não tivessem acontecido ou que não fossem acontecer. Mas receio.

Por exemplo, se não tivesse olhado com interesse cada madrugada, se não tivesse tentado reparar e reflectir, não haveria mundo? E não haveria eu nem o outro nem as circunstâncias que nos rodeiam?

Os casos que preferia que não tivessem acontecido, tenho esperança de que não venham a acontecer. E isto é o que eu gosto de pensar: que essas coisas que não me agradam não venham a acontecer em nenhum futuro nem em nenhum condicional.

Calculo bem que não há um começo todas as manhãs a seguir ao apagamento da noite. A experiência diz-me que haverá uma actualização, não um começo. Reparando e reflectindo, vou saber o que aconteceu, que novidades há, o que mudou desde o último apagamento.

E é sobre essa actualização que eu espero ter todos os dias uma história para contar.

Por isso, é meu desejo que a luz do Sol apareça muito antes do meio-dia para esclarecer os factos, os gestos, as atitudes e as paisagens e para me iluminar o espírito.

 

 

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publicado às 20:04

espero não estar a passar ao lado da questão

por Zilda Cardoso, em 07.11.13

A minha aventura continua com novos e excitantes episódios.

O corpo está a arcar com posições e movimentos desacostumados e…

Não, não vou… não tenho tempo para pensar em negócios triviais.

Passo ao momento seguinte…

… que é um acontecimento de que nunca falarei, mas que me vem molestando de forma muito particular, desde há dias.

Não quero falar nisso, mas claro está, há especificidades (pruridos) que não mo deixam esquecer, que permanecem como principal ruído de fundo, seja qual for a importância do que esteja a acontecer à superfície.

O ruido de fundo assemelha-se a canibalismo desenfreado. Não é canibalismo, desculpem, é qualquer coisa que está cheia de pontos e contrapontos metafóricos e não vou explicar. Talvez a minha avaliação seja implacável. Uma espécie de epigrama!

E penso que o copioso sofrimento que a minha atrevida mudança me impõe é esgotante, sobretudo porque surge em sobreposição a outras realidades igualmente excessivas e passíveis de fazer sofrer.

A fantasia de manter a tranquilidade é, no momento, suportada pelo meu poder de olhar para o longe e ver o mar sem ver as ondas. É sabido que gosto de as ver, os seus movimentos derradeiros, as formas arredondadas e sensuais, a espuma branca imaculada e rendada…

Daqui não é isso que observo, não é, por certo, o que me incendiará o pensamento e a imaginação.

Tenho os olhos bem abertos, é uma paisagem desconstruída: jardins com palmeiras, a prometer ou a lembrar férias nos Trópicos, e outras árvores, traseiras de casas sem qualquer cadência, telhados e chaminés de várias épocas, janelas e janelas, ruas estreitas com dois sentidos e, na orla, o meu favorito a razoável distância ao fundo, quase em semicírculo. Ele, o meu amigo, veste-se hoje fora de moda de um cinzento embaciado e confuso porque se confunde com o céu.

Todavia eu não aprecio esses atropelos nem malabarismos. Gosto de limites, horizontes lisos e transparências; ter isto, é meu desejo matinal diário e é o que me permite reflectir.

Neste lugar, faço um esforço de concentração e de compreensão.

Está muito vento, há sol e ameaças de chuva e as nuvens não estão iluminadas. Lembram que se aproxima o Inverno que é sempre o do meu descontentamento. Felizmente, ainda haverá muito de Outono com coloridos quentes e confortáveis, mesmo verdes prometedores.

De todo o modo, aprecio o meu momento de contemplação porque considero a dança das árvores enternecedora apesar de o vento as fustigar. Por isso mesmo.

Dançam e dançam e dançam: a música só elas escutam e com brio. Eu ouço-as cantar apenas um pouco, pouco alto, em cumplicidade.

São choupos esbeltos que nunca páram, são discretos e quando o vento se afasta continuam. Talvez a música perdure num ritmo percussivo de ritual mágico dissimulado?!

Estou a olhar para o mar e para eles porque quero ver o mar e os choupos, não pretendo ser vista a ver o mar nem a ver os choupos.

Por isso, posso dizer (não nas entrelinhas) que não estou fascinada nem particularmente incomodada com a “inquietante estranheza” dos choupos. Talvez um pouco com o mar com quem mantenho o meu antigo compromisso. Apenas isso.

Finalmente, há algo de limpo nesta paisagem já que o quase-silêncio, sobre o qual não devo pronunciar-me, está aí.

Estou quase-tranquila.

Espero não estar a passar ao lado da questão.

 

 

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publicado às 19:56

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