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As selvagens e eu

por Zilda Cardoso, em 04.10.11

 
 
 
 

                                                                                                                                                                        

Apesar da poluição, algumas aves selvagens voltam ao poiso
habitual. Algumas vivem ali todo o ano, outras são migratórias. É o estuário do
Douro e eu observo junto à ribeira da Granja, na margem direita do rio. Umas
são raras outras são muitas, mais que muitas - vulgares. E são quase feias, não
têm cores brilhantes. Vi uma completamente esfarrapada.

Mas eu gosto delas, levo-lhes pão, elas não apreciarão muito
(stale baguette, não é?), mas guerreiam-se para o agarrar antes de qualquer. Saber
filmar, faria jeito nesse momento que é um momento bonito de revolução na água.

Gostaria que elas partilhassem, mas não partilham, defendem
o seu bocado e nem sei com que direito é que consideram seu, o bocado que tiram
a outra. Não é questão de sobrevivência, parece-me: passariam bem sem o meu
bocado de pão seco.

 

 
 
 
 

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publicado às 17:06

O País tem solução

por Zilda Cardoso, em 02.10.11

Fomos tomar chá à Pousada do Freixo, uma coisa bonita dentro da cidade. Os três: o arquitecto Camilo Rebelo,
a sua irmã Maria Manuel e eu. Estava muito calor e o ambiente não era apropriado ao chá. Não havia uma mesa à sombra, senão lá atrás, longe do rio
que quase se não via, afastado da piscina, da Ponte e do corredor sobre a água.

Aterrámos ali, depois de
várias voltas, por corredores e escadas e elevadores à direita, à esquerda…

Foi então que mandei vir
sumo de laranja fresco para mim, os meus amigos beberam o seu chá servido em chaleiras de aço inoxidável por uma menina estagiária nitidamente em pânico – só tinha
começado ontem.

E começamos a falar do que importa falar neste momento.
Como: como se sente a viver aqui tal como aqui é? Sei que o Camilo Rebelo tem
calcorreado a Europa e sabe como se vive na Suíça, na Espanha, na Itália… Eu
queria saber. Queria saber as diferenças para poder contá-las, para poder
convencer os meus netos de que devem ser diferentes e porquê.

Ele disse: Dei aulas em Lausanne durante alguns anos.
Pediram-me, apreciaram o meu trabalho, pagaram-me bem e sobretudo deram valor
ao que eu fiz, como o fiz. Sinto-me compensado de todos os meus esforços.

Também dou aulas na FAP mas… para já o ordenado é
inacreditável! Tem ou não tem importância ensinar a esse nível? Nunca nos
dizem. Nunca nos fazem crer.

Acha então que aqueles que vão trabalhar para fora do
País têm sucesso porque lhes é reconhecido o valor?

Sim, sem dúvida.

O que é que nos falta para além do
reconhecimento do valor do trabalho realizado, da consequente falta de
confiança de cada um em si próprio?

Não fazemos a promoção dos nossos talentos, parece não termos objectivos, diz o arquitecto. Não nos falta
criatividade, imaginação, talento para improvisar, conhecimentos,  qualidades de trabalho. O que nos falta são objectivos. E objectividade.

Não temos objectivos desde o século XVI? perguntei. Nesse tempo, tínhamo-los
definidos e deixámos de ter, deixámos de todo de ter? E não sabemos
pensar, temos preguiça de pensar? E vamos adiando.

Quando nos fazem uma pergunta que requer reflexão…
abandonámos. Não estamos para isso.

É assim tão difícil ou tão maçador pensar um pouco? Não
é o que nos distingue dos outros animais? E eles pensam com objectivos pequenos e próximos.

Apesar dos meus amigos gostarem de pensar
objectivamente, resolvi mudar para um assunto mais leve e aproveitar o facto de
estar ali para discorrer sobre o lugar que é, pelo menos, estranho.

Que acham deste conjunto?

Ele como arquitecto, ela como quem não acabou o
curso de arquitectura mas tirou um de design, ambos cheios de imaginação e de capacidade de concretização, têm com certeza
uma resposta interessante para dar.

Um solar do século XVIII e lindíssimo, quase colado a
uma fábrica de moagem do século XIX pintada de cor de rosa e de amarelo vivo, uns
silos brancos que podiam ser do século XX fazem um estranho conjunto que eu
muito apreciei.

Do que não gostei foi da decoração... desastrosa.

A piscina não tem escala, diz o arquitecto e a Maria Manuel… bom.

Decidi cortar aqui e voltar a falar com os meus amigos sobre este assundo e sobretudo sobre o que move ou não move os Portugueses, daqui por umas semanas e num lugar menos ruidoso e menos controverso. Já marcámos.

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publicado às 20:23

Memórias da Hungria - Naumburg (Saale) 3

por Zilda Cardoso, em 02.10.11

Tudo correu moderadamente bem até que uns amigos de Z. o convenceram de que o abrigo
que por hábito usávamos não era suficientemente seguro e que deveríamos ir para
um outro, colectivo, ao lado do rio Saale.

Opus-me energicamente por fatalismo e por comodismo, já que esse abrigo ficava a uma
distância de quase três quilómetros. Na verdade, nada mais era que uma cavidade
aberta na rocha perto do rio e, de início, destinado aos camponeses da região.
Havia uma única entrada que me causava um estranho mal-estar.

Porém Z. insistiu tanto que acabei por ceder, é evidente que ele só queria o bem da
família, preocupava-se com a nossa segurança, apesar de nunca poder estar
connosco para nos acompanhar e ajudar no que parecia uma romaria.

Z. tinha que se apresentar no comando quando soava o alarme, e nós formávamos a
nossa pequena caravana: K. ia sentada na malinha que continha todos os nossos
objectos de valor - jóias, documentos etc. A malinha era colocada num carrinho
de mão, puxado pela ordenança do Z. – um senhor de idade e manco. Eu ia atrás com
o bebé nos braços e as crianças a seguir, em grupo.

 

Todos esses preparativos nos esgotavam física e psiquicamente, a ponto de muitas
vezes ficarmos mesmo em casa, no porão. Dias havia em que não tirávamos a roupa
nem mesmo para dormir.

 

A vida prosseguia inexoravelmente.

Às vezes, nos abrigos, procurávamos distrair-nos conversando uns com os outros, fazendo
boas amizades. Certa vez, um casal de operários convidou-nos para passar uns
dias com eles no seu apartamento fora da cidade. Era um bom apartamento com …..
divisões, o que mostrava um bom nível de vida num regime socialista mesmo em
tempo de guerra.

A linha da frente, de combate, fechava-se sobre nós. Os carros blindados dos Americanos
aproximavam-se. De todo o lado, soavam-se os tiros dos canhões.

O nosso cansaço chegou a tal ponto que uma espécie de torpor tomou conta de nós,
queríamos o fim de tudo, podia mesmo ser o alarme que anunciasse a chegada dos
tanques inimigos. Ia haver resistência na cidade? Perguntávamo-nos. Íamos de
novo lutar de casa em casa? Iriam os alemães defender Naumburg? Ninguém sabia
ao certo. E, na incerteza, numa quase apática indiferença, esperávamos a
entrada dos Aliados e com isso o fim dos bombardeamentos.

 

A recordação de dois ataques aéreos ficou indelevelmente marcada na minha memória.

 

De uma vez, recordo, o som da sirene de alarme foi imediatamente seguido do zumbido dos
aviões em voo rasante e do pipocar das metralhadoras. Não teria dado tempo de
irmos até ao abrigo do rio e por isso descemos para o porão da casa.
Juntaram-se a nós outros moradores e alguns transeuntes, entre os quais dois
prisioneiros russos com um guarda.

Os aviões aproximavam-se assustadoramente, parecia que voavam mesmo sobre as nossas
cabeças. Haviam encontrado o alvo: o armazém ou depósito militar que ficava
próximo da nossa casa. Esse depósito apanhou o chamado “tapete”: as bombas eram
atiradas em série, tão próximo umas das outras como se estivessem a ser tecidas
para um tapete, de metro em metro, cobrindo o alvo escolhido, sem qualquer
possibilidade de escapar fosse o que fosse.

E vinham as explosões com a mesma intensidade e cada vez mais perto. Era um inferno! A casa
toda, as janelas, as paredes vacilavam.

A Srª Prüfer chorava abraçada à filha, outros rezavam, Z. não estava connosco. Eu estava
aparentemente calma e sem medo. Rezei o meu acto de contrição e senti-me
segura. Mas já não acreditava na vitória. Pensei que se todos fôssemos
aniquilados naquele momento… essa seria a melhor solução para nós. Os meus
filhos também não davam sinal de medo, nenhum deles chorou.

As paredes continuavam a tremer, estilhaços voavam.

Subitamente, o ruído dos motores diminuiu, os aviões distanciaram-se. Passara a primeira
onda.

Mas nem tivemos tempo de recuperar, o suspiro de alívio ficou-nos entalado na garganta,
o segundo ataque abatia-se sobre nós com uma força brutal.

E os estrondos aproximavam-se gradualmente, a trepidação da casa, os vidros
quebrando, o horror das explosões… tudo se repetia.

E de novo com a mesma presteza com que veio, o ataque terminou.

Seguiu-se um silêncio profundo. Parecia o silêncio da morte. Um silêncio como jamais ouvira,
um silêncio que nunca experimentara na minha vida.

Respirámos fundo, ninguém se mexeu. Aguardámos ainda, quase como resignados perante o
inevitável que seria a vinda de uma terceira vaga. Mas não veio, ela… não… veio.

Para alívio geral, o que chegou foi o sinal de fim do ataque aéreo. Estávamos vivos! Cada
um de nós tinha a sensação de ter acordado de um profundo pesadelo. Os Prüfer e
outra senhora choravam no meu ombro, ninguém dizia nada. A Srª Ernst com a sua
insígnia, os dois prisioneiros e todos nós estávamos compenetrados da gravidade
da situação. Acima de tudo, avaliávamos agora aquele grande momento – o de
estar simplesmente vivo!

Eu fui a primeira a sair para a rua. E o que vi deixou-me impressionadíssima. Parecia
ter sido largada numa cidade fantasma, sem vivalma. Teriam sido todos mortos? E
notei uma coisa estranha: a rua brilhava, a sua superfície… o piso parecia
estar coberto por uma camada de gelo! Na verdade eram estilhaços de vidro tão
finos como pó.

As casas já não tinham janelas. Os caixilhos também danificados estavam escancarados,
pareciam os olhos sem vida de um cego. 

Aos poucos, as pessoas foram aparecendo, movendo-se como em câmara lenta, observando os
estragos. Vieram também os encarregados da defesa aérea e puseram-se a
trabalhar, tentando pôr as coisas de novo em ordem.

As bombas tinham acertado no depósito militar atrás da nossa casa e também tinham atingido
o asilo de velhinhos na vizinhança. Houve muitos mortos e feridos – nós salvámo-nos.
Salvámo-nos!

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publicado às 15:27

De Moimenta com amor

por Zilda Cardoso, em 01.10.11

Foi transmitido esta manhã um programa-retrato sobre Moimenta

da Beira na TSF. Apreciei muito saber que esta terra a que me encontro ligada

por laços afectuosos está a desenvolver-se e no bom caminho. Faz o que tem

que ser feito, não se resigna com uma interioridade que não tem que ser inferioridade,
trabalha e luta, faz o melhor por si com os outros. E sabe transmitir os seus
valores.

Terá Moimenta da Beira descoberto a chave da solução do problema do País, de qualquer país em

más condições financeiras?

Foram apresentados  os produtos que colhe, enaltecendo-lhes  as qualidades e
as possibilidades de serem colocados em todo o país e no estrangeiro.

Que produtos?

O vinho, ou antes o espumante Terras do Demo, o melhor espumante português, casta única,

“alegre, floral, frutado” , “cada garrafa é um produto artesanal”.

A dinâmica que se instalou permite esperar ter este ano 500.000 garrafas em
200 hectares de vinha – resultado do empenho dos produtores e seus
colaboradores, gente com coragem e pioneira na inovação.

Outro produto extraordinário é a maçã – cerca de metade das maçãs
produzidas no País vem desta região, cujo clima em zona de montanha tem a
altitude requerida para a produção de frutos com aroma e textura diferentes:
são duros, têm paladar doce e conservam-se de forma excepcional.

Produzem-se mais, muito mais do que 100.000 toneladas de maçã por ano na
região; para a distribuição desta quantidade de produto tem que haver uma
estratégia conjunta regional. E uma formação idêntica de todos os produtores
quanto a podas e a tratamentos.

Estão a ser tentados novos mercados, mercados internacionais como o de
Berlim e o de Madrid.

O que precisam ainda e apenas é de apoios do governo para a rega indispensável e
para armazenamento de modo a haver aqui condições semelhantes a outros lugares e possibilidade de competir.

Com os meios de que dispõem, não é possível fazer melhor.

Há ainda enchidos da melhor qualidade em toda a região, trutas do Paiva e caça.

Os granitos certificados são transformados por processos modernos e exportados
para toda a Europa.

E há o turismo naturalmente. E a marrã. E a Feira de S. Francisco. E a Fundação Aquilino Ribeiro. E o futuro.

Acho que ninguém pensa aqui que não tem futuro.

É possivel viver muito bem nesta terra onde "há mais para dar do que para pedir", nas palavras

do seu Presidente da Câmara.

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publicado às 18:47

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