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Como sei que estou em Portugal (2)

por Zilda Cardoso, em 04.09.11

Observámos o que vimos e registámos, trouxemos a informação. Sentimos a proximidade, sofremos a influência. E transportámos mercadorias. Negociámos. Regressámos felizes e contentes. E mais sábios. E mais ricos de muitas riquezas e abundâncias.    

A verdade é que nunca fomos inteiramente ocidentais, tentamos ser como eles e não resultou. Por vezes, queremos as suas regalias, mas nunca os seus esforços. Apesar de vivermos no extremo ocidental do Ocidente, nunca gostamos de actuar como os nossos vizinhos europeus, pensando, planeando com rigor, rodeando-se de colaboradores verdadeiramente adequados e trabalhando asperamente. Mas também nunca fomos orientais; eles não vivem ou não viviam exclusivamente para o progresso económico, alicerçado no conhecimento da ciência em geral e na hegemonia política.

Somos um produto híbrido e ainda sem nome que temos de aceitar e refinar. Não queremos e não podemos sair da Europa (que sempre me lembro de conhecer condenada), mas onde ainda restam uns restos de humanismo, apesar do crescimento económico que tem já o consumo como base do sistema cultural, da competitividade sem limite e da desenfreada política de interesses individuais e egoístas e, por conseguinte, da hipocrisia feroz, etc.

Vamos procurar realizar aqui o que fazemos melhor do que ocidentais e do que orientais.

Aquilo que fazemos melhor é… o futebol. Sabemos jogar e negociar. Pergunto-me por quê? Primeiro é um jogo (brincadeira), não é para levar inteiramente a sério. Aí, interessamo-nos, empenhamo-nos. Estamos seguros do nosso valor, sabemos o que queremos. Delineamos e trabalhamos com afinco e com inteligência para conseguir os objectivos. Não nos perdemos pelo caminho, não nos distraímos: fazemos tudo bem. E se fizermos mal, não tem muita importância – é apenas um jogo, teremos pensado.

 O que fazemos pior é… a educação. Não sabemos como educar, perdemos os propósitos, não temos uma direcção segura, somos demasiado benevolentes, ou não sabemos como fazer-nos obedecer sem rudeza como seria nosso desejo. Teremos esquecido a ideia justa de justiça – isto é o pior que pode acontecer com a educação.

A televisão que é um meio privilegiado de educação tornou-se por de mais perniciosa: vulgariza as aberrações, os maus instintos, a violência, a desordem, o desrespeito, a baixa política, o absurdo, a falta de bons princípios que são de moral… e apresenta o que é mau (em relação a uma finalidade que beneficie todos), apresenta-o a uma luz benéfica que estimula a aceitação, a adopção entusiástica sobretudo pelos mais jovens.

A educação é evidentemente fundamental. Educa-se em ordem a um alvo futuro. Então devemos decidir em primeiro lugar o que queremos ser no futuro. Teremos procurado analisar-nos para nos conhecermos, para sabermos qual a nossa personalidade como povo. Que temperamento, que constituição, e que marcas foram deixadas em nós pela nossa história e tradição.

 

Como a personalidade se constrói, é importante termos uma imagem correcta de nós próprios, Portugueses, para podermos evoluir no sentido que nos importa. Segundo o dicionário, “a personalidade é o nosso ser global: inclui o consciente e o inconsciente na sua relação com o mundo exterior”. Vamos presumir que isto se pode aplicar a um povo.

É certo que circunstâncias de vária ordem deixaram muitas marcas na nossa história e na nossa personalidade. Vê-se como somos diferentes quer dos ocidentais quer dos orientais com quem durante séculos convivemos. Talvez pudéssemos ter aproveitado o melhor de uns e de outros. Agora que quase tudo o que tentámos utilizar do mundo ocidental a que demos preferência caiu por terra, é ocasião de decidir.

O futebol é paradigmático, jogo e negócio, apesar de poder ser um produto acabado da sociedade de consumo e de abundância. Poderá ser revelador de grandes capacidades que suavizarão as más consequências do complexo processo de consumo?

E, claro, podemos voltar-nos para o mar como noutros tempos e pensar nas inúmeras actividades com ele relacionadas em vez de ficarmos placidamente a olhar para ele com nostalgia e saudade.

 

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publicado às 13:33

Como sei que estou em Portugal

por Zilda Cardoso, em 04.09.11

Há um "site" cuja visita me deu enorme gosto e que lhes recomendo - www.deoutramaneira.com. É de um grupo com formação em diversas áreas e que resolveu juntar-se e criar um movimento que atraia ideias, olhares, viveres, inteligências de outra maneira.

Respondi à pergunta que me foi dirigida e que é "uma pergunta para o Verão".

 

Sinto-me apaziguada.

Posso descansar da curiosidade constante por acontecimentos extraordinários, por pessoas invulgares, por paisagens desconhecidas; e pelos espectáculos, pelos tesouros catalogados, pelos palácios, pelos parques, pelas grutas… Posso repousar da surpresa e do mistério em que vivi nos últimos tempos, alvoroçada e contente também por aquele quase nada que num certo momento me tocou.

Fascinada pela beleza do que presenciei… estou, mas passada a fronteira, sinto-me como quando se regressa ao lar onde os familiares nos esperam, os que falam a mesma língua, foram criados em hábitos idênticos e nos mesmos lugares, instruídos em análogas escolas e em tradições semelhantes. Por isso, me podem compreender melhor, é isso que eu espero, que me compreendam melhor. Se sou radicalmente insegura, sinto-me aqui aconchegada – talvez tenhamos um destino comum.

Assim sei que estou em Portugal.

Não sei se o que encontrei era o que esperava ter encontrado lá fora. Mas aqui… o que quero não é deparar com aquilo que, muito possivelmente, me foi dado e que os outros também têm. Refiro-me às paisagens, ao cheiro dos campos e do mar, às estrelas brilhantes no céu tão azul e ao sol dourado a enfiar-se no mar espelhado ao fim do dia.

O que quero encontrar é um país organizado e planeado para ser como os “europeus”, a Alemanha, a Inglaterra, a França… esses?

Se é isso que pretendo e não tenho, devo organizar-me, planear e trabalhar nesse sentido, como eles (os europeus) fazem desde há séculos. Faremos (e passo a nós…) como eles, faremos com eles.

Mas se não é e se queremos ser como os africanos ou como os asiáticos - chineses e japoneses - antes de copiarem afanosamente os europeus e elegerem o progresso económico como o único fim em vista, não devemos fazer nada disso.

Teremos de inventar um país novo e sedutor para viver. E somos capazes de fazê-lo, já que não nos faltam nem conhecimentos nem sentimentos - nas nossas viagens ao Oriente dos séculos XV e XVI, antes de mais ninguém, aprendemos e ensinámos, e ficámos a conhecer e a apreciar esse mundo e as suas gentes. Talvez seja ou tenha sido uma vocação, um desejo, uma coragem, uma inspiração, uma necessidade…

Observámos o que vimos e registámos, trouxemos a informação. Sentimos a proximidade, sofremos a influência. E transportámos mercadorias. 

 

 

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publicado às 09:57

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