Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Mais um nevoeiro portuense

por Zilda Cardoso, em 04.08.11

Parei e sentei-me na beira do muro largo, olhando o mar.

E reparei nos jovens, rapazes e raparigas deitados ou sentados nas belas rochas metamórficas, alguns mesmo sobre a água, olhando a neblina a aproximar-se e a fechar o ambiente, a fazer sumir a linha do horizonte, os barcos, o porto, os pássaros, o céu e o mar. A ronca
persistia implacável.
 
Os jovens das rochas meditavam romanticamente nos seus amores perdidos. Cheguei a ter receio de algumas desistências feias  que dessem cabo

 

(aqui ainda havia sol)
da reputação da cidade, de tão amorosamente que olhavam o precipício…
 

 

 

(o sol foi desaparecendo)
Um grande grupo veio do Norte alegremente e ficou sobre o palco de pedra a jogar ou a lutar, cada um só, com o seu pau. Eram japoneses na
sua maior parte e ficaram por ali, depois de, na dúvida, olharem o céu húmido, primeiro, depois aceitando.

 

 
Observei-os por um bocado e continuei a seguir. Muita outra
gente se juntou, curiosa do espectáculo grátis, ao ar livre. Não percebi a luta,
com alguns mestres dando indicações. Devia saber que luta de paus é esta, mas
não sei.
 


Continuei pelo Castelo do Queijo adiante e retrocedi. O nevoeiro tornou-se espesso, engoliu aos poucos quase tudo. Daí a pouco nem céu, nem mar… o jardim de metrosíderos reduzido a duas ou

 

 
três árvores das gigantescas não facilmente devoradas, a avenida e… Da minha casa já só se viam os andares rentes ao chão. Haveria mitos escondidos na bruma lustrosa?

Apressei o passo. E logo, se continuasse a avançar e a demorar, se eu ficasse sem sítio para descansar?

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:51

Por graça

por Zilda Cardoso, em 03.08.11

Quando a Iza esteve o ano passado connosco na Quinta do Casal, logo depois, no mesmo dia, enviou-nos por graça este documento "antigo" que ela redigiu com humor e à maneira dos papéis que, como genealogista, habitualmente consulta.

Reza assim:

 

Memória de um glorioso dia de
festa

 na

“ Quinta do Casal do Condado”   

 

“Em nome de Deus, Amem. Saibam
todos quantos este público instrumento virem que no Ano da Graça do Nascimento
de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dez anos, num chuvoso dia 13, do mês
de Novembro, a partir das doze horas, se reuniram em agradável convívio um
grupo de privilegiados convidados, no belíssimo Solar da Quinta do Casal do
Condado, freguesia da Facha - Ponte de Lima, Bispado de Braga.  

A acompanhar os senhores donos de
casa encontravam-se filhos e netos que a todos receberam de maneira elegante e
cordial.

Tratava-se da comemoração do
aniversário de matrimónio que entre si contraíram os anfitriões – Alcino e
Zilda Cardoso - às 11 horas, do já longínquo 11 de Novembro – Dia de S.
Martinho -  do ano de mil novecentos e
cinquenta e quatro.  Simpático motivo que
serviu talvez como mais um pretexto para juntar alguns familiares e Amigos,  Cavaleiros da Ordem Soberana e Militar
Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, pessoas das mais
gradas, representantes de prestigiadas e antigas famílias de Portugal.  

Assim
se celebraram muitos anos
de uma vida partilhada em alegrias e tristezas mas com um saldo muito positivo de
grandes realizações.

Alcino e Zilda Cardoso não só
construíram uma Família como também foram concretizando e bem todos os ditames
ancestrais para a realização individual – ter um filho, escrever um livro,
plantar uma árvore. E, como o souberam fazer, multiplicando, por várias vezes,
esse desiderato!

 A tudo isto ainda juntaram a construção/
restauro de casas antigas, com extremo gosto, as actividades sociais e de
benemerência e o cultivo de várias artes de entre as quais se salienta a arte
de bem acolher amigos e forasteiros!

Certamente que o balanço é por
demais positivo!

 

Pelo  exemplo de uma Vida vivida plenamente : - Parabéns
 Alcino e Zilda Cardoso !

 

Depois destas considerações,
falemos um pouco do que constou esta festa que se iniciou com uma missa
celebrada numa capela intimista, pintada por Albuquerque Mendes onde pontua uma
antiquíssima e muito bela estátua de uma Nossa Senhora com o Menino.

Seguiu-se um delicioso almoço
servido em salões cuja arquitectura, decoração e conforto ombreava com os bons
sabores.

Evoca-se aqui o creme de abóbora
de um vibrante alaranjado e o risoto de cogumelos secos que acompanhava uns
leves pastelinhos de bacalhau… que potenciaram convívios em longas mesas sobre
toalhas de alvo linho.

Um regalo para os olhos e doce
conforto  para o paladar!

Tudo divinal, como diria o nosso
Eça!

No final da refeição, o Alcino brinda
a todos com um discurso improvisado mas cheio de humor - como é seu timbre ! -
e convida para um passeio pela quinta.

Munido de uma buzina antiga e num
cúmulo de bem receber, vai acompanhando com explicações adequadas os
melhoramentos introduzidos, as designações de árvores, arbustos e flores e todo
o enquadramento deste venerável senhorio que teve por bem remodelar e
modernizar sem, contudo, perder o encanto de antanho.

 
Através do seu discurso contido de entusiasmo fomos calcorreando
caminhos que nos foram transportando por entre frondosas árvores, a um jovem
castanhal cujas folhas amarelas atapetavam uma relva macia revolvida aqui e
além por javalis; a um regato de águas puras que serpenteia por uma parte da
quinta o que determinou a construção de um velho moinho com seus açudes; a um
lago calmo e a muitas outras paisagens salpicadas de construções que fazem
sobressair serenidade e paz. 

Apesar de S. Pedro não ter
colaborado, este percurso guiado pela Quinta do Casal do Condado deixou
saudades e vontade de voltar. Para a cronista ficaram retidas as tonalidades
fortes dos vermelhos e amarelos de um Outono que se prolonga; as brumas que,
por entre a vegetação, sugerem vidas passadas de celtas que aqui habitaram; a
música do ribeiro, o lago, e sobretudo os enormes cogumelos dignos das
histórias de muitas infâncias -  sim,
daqueles vermelhinhos e grandes com pontinhos amarelos ou brancos !!!!

Nesta Quinta do Casal do Condado
é realmente tanta a beleza que nos inunda a alma! que faltam as palavras a quem
tão mal redige estas linhas. Socorro-me portanto de um Poeta, o também
inesquecível Baudelaire “ Lá tout n’est qu’ordre et beauté, luxe, calme et
...serenité”

Mas acabemos agora este périplo
porque já nos esperam as castanhas assadas!

Pois que fazendo jus a uma já
considerável produção deste fruto, foram ainda os convivas brindados com mais
este manjar, acompanhado de boa música popular

Realmente só faltava a Música
para emprestar mais brilho e alegria a este convívio!

Com a força telúrica de uma
terra rica em tradições e cultura como é esta belíssima terra banhada pelo Lima,
o grupo de música folclórica presenteou-nos com canções e cantares que calam
fundo.

Fica somente um apontamento
sobre um certo menino, um doce menino de doces olhos e cabelo encaracolado como
um menino Jesus que se passeava no seu jardim encantado, talvez sorvendo toda a
beleza do evento que seus Avós maternos proporcionavam a tantos convidados!

Na sua memória em construção,
remanescerá a recordação de uma infância partilhada com familiares e amigos num
ambiente de histórias de fadas!

 

Por tudo isto e por muito mais
que se não descreveu, compreende-se que foi com sentida pena, que se despediram
os convivas desta simpática reunião e assim, também, se dá por concluída a
despretensiosa acta deste evento com um enorme

 

Bem-haja  Alcino Cardoso

Bem-haja Zilda Cardoso

 

Dando Graças a Deus por este dia
memorável, foi esta despretensiosa crónica redigida em S. Mamede Infesta, aos catorze
dias do mês e ano ut supra.

Iza Luso Barbosa

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:44

a minha caricatura e eu

por Zilda Cardoso, em 02.08.11

 

 

Concluo que o mundo em que nos é dado viver é muito vasto. É fácil para nós, tão pequenos em relação a ele, perdermo-nos. (São dois
pensamentos inteligentes e sensatos!).

Por isso, quis traçar uma linha circular à minha volta. Sabia que podia riscá-la com maior ou menor diâmetro de acordo com a minha coragem e
as minhas capacidades. E por protecção. Estou a dizer que desenvolvi, e cada um de nós pode fazê-lo, um projecto de vida que será traçado quanto cedo soubermos. Quanto cedo soubermos quem somos e o que queremos, mas pode levar anos a criar ou a descobrir, a explorar espaços desconhecidos.

A adolescência é um período importante, parece-me ser nessa ocasião que temos de fazer a maioria das nossas opções. É por essa razão que
somos rebeldes e complicados e difíceis de entender: estamos a resolver, e muitas ideias desiguais circulam na nossa cabeça. É uma rede muito entrelaçada e por vezes baralhada. Toda a gente dá palpites, mas ninguém pode decidir por nós. Carecemos de nos conhecer e dificilmente nessa idade somos bastante hábeis...
(Como em qualquer idade, de resto).

Daremos com a cabeça nas paredes até descobrirmos os nossos limites, a tal linha para lá da qual já não convém que nos aventuremos, isto é,
depois de divisarmos tudo o que há para saber sobre o nosso tema. Por vezes, todavia…

A semana passada, abalei… por vários dias. Outra vez... Muito longe da época própria. Saí, supostamente para me conhecer. E encontrar-me. Ou
o inverso. Ainda. Andei na minha busca: não sei se me encontrei. Como posso encontrar-me se me não conhecer? Mas não é grave. Um dia hei-de saber. O difícil é reconhecer-se neste ou naquele arquétipo e essa é talvez a verdadeira e séria caminhada da vida… ao encontro de si.

Na realidade, não queria sair da minha “roda,” a que tracei no chão há anos. Mas saí.

Pensei que talvez andasse meio-perdida. E que, saindo, pudesse fazer até, ainda, aproximações ao modelo escolhido - aquele que preferi na juventude, pensei. Porém, isto só é importante no relacionamento com os outros, a forma como puder impressionar a vida dos vizinhos, melhorá-la ou piorá-la, falando ou escrevendo. Como uns outros influenciaram a minha vida, em tempos passados.

Fora isso, quem eu sou é importante? Tenho possibilidade de me conhecer melhor de que os outros me conhecem porque me vejo de dentro para
fora? E para que hei-de eu conhecer-me melhor do que as outras pessoas me conhecem? O que é que eu posso saber e mais ninguém sabe sobre mim? Será isso que constitui o eu e o dentro? O mistério ignorado de todos menos de mim?! A verdade?

O que cada um descobre sobre si, são antes pequeninas, mesquinhas coisas verdadeiras, sobre as quais nem vale a pena debruçar-se.

A minha amiga Mikolt emprestou-me um livro de memórias de Sándor Márai, um excelente escritor húngaro. São memórias da Hungria, o belo
país natal de ambos, que eu falhei visitar este Verão. Diz que “o homem não é somente o que “é”, é também, em qualquer circunstância, a caricatura de si mesmo”.

Talvez afinal eu andasse à procura da uma qualquer caricatura de mim mesmo. E estava enganada, não era preciso. Posso escolher entre ser eu e ser a caricatura de mim em qualquer circunstância. E talvez papéis possam ser trocados entre o eu verdadeiro e a caricatura, a caricatura fazer o meu papel, eu… o dela. E eu voltar a ser o que era ou ser já o que vou ser.

Há tantas possibilidades - talvez o eu seja essa criatura complexa que engloba em si todas as caricaturas. Podemos escolher a caricatura que
se adapte melhor às circunstâncias do momento. E, nas minhas acções, não deixo de ser aquela para ser esta, sou as duas em simultâneo. Sou eu e a caricatura de mim que escolher, como parece afirmar o Márai.

Pelo menos, eu afirmo.

Fiquei feliz com esta conclusão. Voltei para casa. Para o meu território redondo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:57

Pág. 2/2





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D