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por Zilda Cardoso, em 03.01.10

 

 

Devia estar feliz, em frente à lareira acesa, chamas douradas altas em formas sofisticadas contra as paredes do fogão, em movimento perpétuo; a porta envidraçada do lado esquerdo permitindo-me ver a montanha da Nó, cinzenta e ensombrada bem longe ao fundo; outros montes próximos de um cinzento pouco mais escuro; a chuva lá fora… a chuva que não pára, que soa monótona e me enfada, me entristece.

Esta cinzentura húmida que cobre tudo, nunca participou do meu mundo. Ou tinha-a esquecido de todo.

Sentada no chão, na grande sala confortável, para mim bela e quente, poucas pinturas nas paredes, tapetes de cores um tanto desmaiadas, pequenos objectos sobre escassos móveis, abundância e variedade de livros por toda a parte… que poderia querer mais?

Mas estava tão só que doía. Tão só. Com aquela música de fundo, a da chuva, que se ouvia alto e abafava o restante...

Aprecio caminhar ao ar livre, respirar ar fresco e naturalmente perfumado, conviver com as plantas e os pássaros, com alguns insectos cuja beleza delicada me fascina, sentir que sou bem recebida quando me avizinho, que me querem talvez, que participo daquele universo que passa a nosso. Sim, sinto-me bem lá fora, mesmo que chova. Apanho-a de bom grado nas minhas mãos, na cabeça, nos ombros e sinto-me outra e melhor, mais lavada.

Abraçada de sorrisos, para eles me volto em redor, em redondo.

Todavia hoje, não é possível. Os caminhos de pedra estão enlameados, a relva… anda-se sobre ela como sobre um pano de flanela grosso que esteve enterrado no tanque dias e dias e foi posto sobre espuma também saturada de água e de lama. Mesmo com botas grossas não se suporta.

E o ar é molhado, vaporoso por de mais com todas aquelas árvores gotejando a todo o momento. Ou chorando sem esperança de melhores horas nas próximas horas.

Nada se assemelha ao meu sítio, este mesmo lugar, em dias iluminados de sol com as suas simplicidades e belezas naturais, o seu perfume e as cores do meu encantamento.

 

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publicado às 20:35

"PAMPLEMOUSSE"

por Zilda Cardoso, em 03.01.10

 

 

Émilie Pagès é uma socióloga que se tem dedicado a explorar o universo da alta gastronomia, como se diz no seu livrinho “le pamplemousse – dix façons de le préparer, Les Éditions de l’Épure, Paris. A Mariana ofereceu-me o livro nesta época de amorosidades e eu constato ao desfolhá-lo que devem dar coisas deliciosas as 10 receitas que vêm nomeadas e explicadas.

A mais simples é talvez a de “écorces de pamplemousse confites” que vou experimentar proximamente: há muitos frutos desses na Quinta do Casal e na Casa da Eira de Moledo, redondos achatados nos pólos, de bonita cor amarela, pesados de sumo perfumado.

Vou transcrevê-la aqui para que tentem também.

4 toranjas, açúcar sêmola, 100 g de açúcar cristalizado.

Com uma faca bem afiada, retire as cascas das toranjas e corte-as em quartos. Coloque num tacho e cubra com água fria. Ferva durante 5 minutos. Retire e refresque em água fria; renove esta operação de cozedura 2 vezes.

Escorra bem as cascas, pese-as, coloque num tacho com o seu peso de açúcar sêmola e 10 cl de água. Ferva e deixe cozer lentamente durante 40 minutos.

Escoe bem e deixe secar sobre uma grelha durante 1 noite. Talhe depois em tiras antes de as rolar no açúcar cristalizado.

Deve ser agradável e fresco. O fruto contém muita vitamina C, ácido fólico e potássio. Não é muito usado, talvez por ter um sabor fortemente acidulado e adstringente. Veio da Ásia, da China talvez, onde teria sido descoberto 2200 anos a.C. Creio que é conhecido na Europa desde o século XVII.

Quanto a nós, vamos descobri-lo agora, quatrocentos anos depois. A tempo.

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publicado às 20:14

VIDA NOVA - NOVO ANO

por Zilda Cardoso, em 03.01.10

 

 

É evidente que a sociedade actual é muito complexa sob todos os pontos de vista e os discursos políticos a que nos têm submetido de forma intensiva não ajudam nada a clarificar o ambiente e a melhorar o nosso entendimento. Pelo contrário, apoiam com vigor a ambiguidade, deixando-nos embaraçados.

Usamos dizer que estamos em crise e mesmo que estamos sempre em crise. Neste momento, direi que estamos ininterruptamente em período de transição, de pausa entre crise e crise, o que tira todo o valor e força ao conceito que devia ser fracturante. Estamos em permanência em vias de passar para outra época mais obscura ainda (temos assistido a isso); é essa a actual permanente pausa não pausada; não estabilizamos nunca num modelo encontrado, e não estamos nem por um momento saciados. Nem animados com este contínuo de descontinuidades.

Vivemos sitiados de coisas e de acontecimentos, envolvidos, atingidos por eles. Procuramos incessantemente o sentido deles e angustia-nos não o encontrar. Por isso, alguns escritores se interrogam sobre se “as coisas significam alguma coisa”.

Podemos pensar que não temos que descobrir o sentido ou que não há sentido nenhum a descobrir.

Então, continuar a procurar o sentido de cada coisa ou de cada acontecimento não faz sentido.

Desejo para o Novo Ano que me acompanhem neste pensar.

E fiquem tranquilamente em movimento.

 

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publicado às 19:18

NOVO ANO - VIDA NOVA

por Zilda Cardoso, em 03.01.10

 

 

 

Neste NOVO início de ano, apreciaremos todos aproveitar o tempo para reflectir sobre o que tem sido a nossa actividade, a nossa acção no mundo. E alterar rotinas talvez… pouco… ou muito. Não alterar nada…

Mudo de bom grado muitas práticas, desde que conclua que isso é conveniente para os que me rodeiam, para a sociedade em geral, para mim.

Hoje, apetece-me pensar nesta experiência de escrita, respondendo do mesmo passo a perguntas que me são feitas.

Cuido que tanto é escritor o que escreve ensaios para revistas e jornais como aquele que escreve romances. A diferença tem a ver com as suas preferências e maneiras de escrever. Tem relação com as características daquilo que escreve, com a qualidade da escrita que produz.

O que converte em escritores os que escrevem é a originalidade do seu trabalho, o seu estilo de linguagem. E há bons e maus ficcionistas e bons e maus ensaístas.

Eu não tenho empenho nem intenção de escrever obras de ficção. Interesso-me muito mais por, como direi, “coisas sérias”, procuro dizê-las de forma diferente do habitual.

E, tal como Barthes, cuja leitura é sempre para mim um fascínio e um estímulo, uma espécie de gulodice que aprecio com a delícia e o despropósito de todas as acções gulosas, gostaria que os meus textos dessem prazer a quem os lê, muito mais do que obedecessem a regras, mesmo sendo textos sérios. E apreciaria escrever com prazer além de dar prazer.

E esses prazeres, ou pelo menos o meu, seria o de escrever com palavras a que dou um sentido diferente daquele que têm antes de as usar na minha escrita. Porém, raramente isso acontecerá: o prazer de quem lê será antes encontrar facilmente o significado do que está escrito. Penso que são raros os leitores que acham que vale a pena esforçarem-se por compreender, por encontrar um sentido escondido, ou os vários sentidos que os textos sugerem. Por ventura, haverá neles o que não é “dizível”?! Como leitora, acho divertido desvendar como se de um jogo se tratasse, mas quando escrevo, quero ser entendida.

Como não estou a compor nenhuma obra de ficção, apreciaria que a minha escrita, (os temas que aborda) tivesse uma força de contestação grande, que provocasse polémica. Isso seria um bom resultado, pois sei que as minhas palavras não vão resolver nenhum problema mas podem incomodar, provocar o desvio, a ponderação. E mais tarde…

 

(veja o "post" seguinte)

 

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publicado às 19:11

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