Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A verdade da história

por Zilda Cardoso, em 07.11.09

Um dia, Agustina disse-me respondendo a uma fala minha: "Para que quer saber a verdade? É muito mais importante que a história seja interessante que verdadeira".

Fiquei a reflectir.

Algum tempo depois, acabei de escrever o livro publicado há alguns anos em que conto a história da minha bisavó Ana Augusta.

Era do que eu falava com Agustina. Fiz investigação e encontrei muitos documentos com grande valor informativo. Segundo a lógica que conheço, a minha bisavó pensou e actuou de certa maneira. E é essa presunção que apresento para além do que concluí da análise dos documentos.

Pode ter-se passado como eu conto, ou não. E ninguém nunca saberá, ninguém nunca vai poder contar a verdade.

Há no livro muitos momentos em que o real é apenas evocado ou duplicado. Aí, não há mensagem nem desejo de comunicar nem intenção de dar a conhecer a verdade (que desconheço). A função da minha linguagem tal como se apresenta, é fazer com que gostem da história que estou a contar, que prezem a personagem, que me apreciem – apelo à emoção. É apresentado, sugerido talvez, um sentido ambíguo, de modo a deixar a possibilidade de serem encontrados outros sentidos. Será uma luz indirecta sobre a história, numa linguagem que mantém certa distância do real.

Há outros momentos em que a verdade é fundamental, quando se não trata de contar uma história sedutora nem de usar a imaginação, mas de dar conta de um facto real ou de uma descoberta. Eu queria transmitir o que obtive na minha investigação de arquivos vários em distritos do interior do País e em Lisboa.

Neste caso, a linguagem será clara, dita ou escrita numa língua que é verdadeiramente uma “instituição social” e um “sistema de valores” (que não pode ser alterado porque há um contrato colectivo a que temos que nos submeter para nos entendermos).

Esta linguagem denotativa convém aos jornalistas, aos analistas, aos cientistas, aos historiadores. Mas que tipo de linguagem se ajusta aos políticos?

Política não tem a ver com verdade nem com mentira, tem a ver com interesses. E os interesses são os da comunidade. Que não é uma unidade - é formada por grande diversidade de pessoas.

(Falarei a seguir de linguagem política)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:40

Laurinda

por Zilda Cardoso, em 05.11.09

 

Laurinda Alves veio visitar-me ao fim do dia, na 3.ª feira passada, estivemos à conversa sobre pequenas realidades que lhe pertencem e que eu queria há muito desvendar, e sobre coisas minhas que ela quereria saber, mas só teriam sentido numa conversa pessoal.

Ela não soube nada da minha intenção, veio apenas para me dizer olá, como se fosse essencial.
E fez o sacrifício de vir de longe na cidade enorme, meio a pé, meio de carro emprestado, sempre risonha e bem-disposta, sem culpas para ninguém, achando o mundo maravilhoso, confiante nos bons valores comuns e num futuro promissor.
Cheia de trabalho voluntário, positiva, derramando o optimismo com que vive o presente: bom de ver e de acolher, bom sentir a proximidade, bom aproximar-me.
Fiquei a pensar que a solidão e o silêncio não são assim tão importantes e bem-vindos como por vezes parecem.
Até porque pode haver nas palavras, nos gestos, nos seus “pequenos grandes gestos” que serão de todos os dias mas que para mim foram especiais, nos sorrisos trocados… pode haver e houve claros restos de silêncio.
Estes restos, são o que mais aprecio.

(Laurinda Alves, Comendador da Ordem do Mérito pelo debate e defesa das questões educativas)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:17

O mundo acende-se...

por Zilda Cardoso, em 05.11.09

 

 

 

 

O mundo acende-se devagarinho todas as manhãs e eu estou aqui, lá, em qualquer lugar, a assistir. Quero estar a assistir num espaço tanto quanto possível aberto, não me permito perder pitada de um acontecimento maravilhoso que acho por de mais tão imaginativo!

Quem se lembraria de montar um espectáculo destes?
De tantas em tantas horas tudo se renova. E de tantos em tantos dias, e de tantos em tantos meses, há novas inovações com parecenças e diferenças. Mesmo em cada segundo, em cada microsegundo ou num tempo que não sei medir, há evolução num qualquer sentido.
Tudo segundo um esquema que aparentemente foi estabelecido para se repetir por milhões de anos.
Que sei eu? Não sei, claro que não sei se por biliões, se por triliões…
Ou se tudo isso cabe na nossa aptidão para recolha de informação quanto mais na nossa possibilidade de entendimento.
Poderá haver outra unidade de tempo, ou não haver unidade de tempo nenhuma; pode não haver tempo ou não haver tempo contável, e apenas a nossa e minha pequenez possa supor isso.
 
 
Teremos um princípio de capacidade de entendimento e julgamos ter muita. Pensamo-nos os melhores e nem percebemos como TUDO ISTO QUE É BÁSICO aconteceu, como está a acontecer, como vai acontecer o quê.
 
 
Andámos por aí aos brados contra corrupção desenfreada, consumo vertiginoso, alterações climáticas desrespeitosas; ofendemo-nos com políticas desumanas... (na verdade, cogitamos na possibilidade de sermos ainda humanos) e deixamos por resolver aquele transcendente problema.
Em que estarão os sábios a pensar? E os outros?
 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:17

APROXIMAÇÕES

por Zilda Cardoso, em 01.11.09

 

Talvez a parte mais sedutora da exposição actualmente no Museu Soares dos Reis seja a que contrapõe artesanato do século XVII com o actual (atrevo-me a chamar-lhe artesanato).

 

Lembro as peças executadas por João Pedro Vale com papel de prata usado para embalar chocolates,  papel para rebuçados e maços de tabaco, arame e cartão que são duplos das jóias preciosas do século XVIII, com os mesmos motivos de insígnias das ordens militares.  
Apreciei a Cruz de Sancho que ali se vê aproximada da Cruz Relicário e da Cruz de Altar, uma persa do século XVII/XVIII e a outra da Índia Portuguesa do século XVII pertencentes à colecção do Museu. A Cruz Relicário  tem ouro incrustado na madeira, prata e rubis, 28 centímetros de altura e encontra-se habitualmente numa vitrina de vidro. No momento, está pousada, livre, sobre uma mesa e a cruz de João Pedro Vale, a de Sancho, com 130 centímetros mostra-se na vitrina de vidro, como objecto precioso. Foi executada com ferro, esferovite, papel de embrulho, prata de bombom, película aderente, papel de rebuçado e cordão de embrulho e é extremamente graciosa.
De todas as peças que vi neste sector, prefiro uma espécie de centro de mesa feito de caricas de garrafas de cerveja Sagres e de uma cabeleira. Acredito que tenha um outro suporte, mas não descobri de que material. O que está à vista é de uma beleza radiosa e foi colocado na frente da tapeçaria seiscentista África, de lã e seda dos Países-Baixos. As cores harmonizam-se com os verdes e os cinzentos da tapeçaria onde uma cobra parece de algum modo desenroscar-se de trás do que chamei centro de mesa e aparecer de um lado e do outro da peça colocada num plano mais próximo do espectador.
Duas grandes talhas de faiança, branca e azul do século XIX, que julgo ter sempre visto na escadaria do Palácio, contrastam com as esculturas de Pedro Valdez Cardoso de tecido com motivos de caça a cobrir um material sólido e fino fixadas nas paredes. Técnica mista, diz a legenda, mas não sei neste caso o que significa.
Nem o que quer dizer a mesma indicação de técnica mista em relação a A Última Ceia do mesmo artista, constituída por nove peças e que me deixou perplexa com a simulação de pratos, talheres e ossos de um material recoberto do que parece tecido de cortinados, azul e branco, paisagens e figuras. Provisoriamente, as peças estão pousadas numa prateleira de vitrina de vidro com faianças portuguesas do século XVII, o título refere-se ao episódio da vida de Cristo de grande valor simbólico. Suponho que deveriam estar fixadas na parede para se apreciar o mais interessante que é o que escorre, azul e fluido, dos pratos sangrentos.
Refiro-me ainda à peça de faiança de uma fábrica de Gaia, oitocentista, com a figura de uma mulher numa face da caneca quadrangular. (Aparentemente a mulher figura três vezes na caneca, apenas vi duas), rodeada de flores e folhagens que não perturbam a nitidez da postura feminina, que será uma postura de afirmação, segundo leio. Em contraponto, as figuras erectas e primitivas de Susanne Themlitz de barro cozido, cimento, poliuretano, e outros estranhos e vulgares materiais trazem extravagantemente a mesma ideia de “afirmativa força”. Ironicamente? Com certeza.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:02

Pág. 2/2





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D