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Tenho às vezes umas crises, mas tenho que andar. Só conto comigo. O meu marido tem estado desempregado desde que o barco foi ao fundo. Os outros fugiram, um para cada lado, arranjaram outras coisas. Ele ficou... e não tem direito a nada. Ele é o que toma conta das máquinas. Não é fácil para ele, sabe a senhora?
Nos passados anos 80, fui responsável por uma página semanal de O Comércio do Porto. Intitulava-se Feminino Singular e tratava de problemas da mulher que nessa época eram muitos mais e mais graves do que os problemas do homem. Quero dizer, havia dificuldades que não eram comuns aos seres humanos a respeito de justiça, e que se consideravam especificamente das mulheres.
Além do meu editorial, de entrevistas e de depoimentos, a página tinha excelente colaboração de juristas, médicas, professoras universitárias, e trazia invariavelmente uma ilustração quase sempre original.
Folheando agora alguns recortes, decidi reproduzir aqui o depoimento de uma trabalhadora e mulher exemplar. O interessante para mim, foi também o ter encontrado pelo menos uma parte da página elaborada como se de um blogue se tratasse. Há reflexões sobre o depoimento apresentado e ousadas conclusões minhas, além de comentários de leitores fielmente reproduzidos.
"A minha casa é uma barraca deste tamanho. Não tem uma janela nem posso abrir a porta. Tenho a luz acesa todo o dia e já preciso de usar óculos.
Trabalho na tia da senhora de manhã. Depois das 2, venho para casa e descanso até às 4. Então faço o trabalho da casa, e bolinhos à noite. Bolinhos de bacalhau p’ra restaurantes e confeitarias. E rissóis. De Verão chego a fazer mil. Trabalho toda a noite. De manhã, vou na mesma p’rás casas.
Nunca durmo mais de quatro horas. E chega. Se dormir quatro, já fico bem. Mas tenho um mal nos rins e, por isso, resolvi não continuar a ir às tardes pr’á outra senhora. Também não gostava nada de estar naquela casa. Nunca havia o preciso para as limpezas. Acabava o pó, sabe. Eu ia e dizia:
Srª Doutora, já não há detergente.
Então ponha sabão e gaste pouco, ouviu?
E quando o sabão acabava, dizia-me:
Já acabou o sabão…?! Parece impossível!
Eu ficava tão indignada. Dessa vez, respondi:
Olhe Srª Doutora, eu não como o sabão! A minha casa é pobrezinha e eu lá tenho o que preciso para trabalhar.
Estava cheia e nunca mais lá p’raci. Eles são ricos. Têm uma casa que vale milhares de contos.
Agora faço mais bolinhos. Arranjei encomendas p’ra fora. É um serviço leve. Só continuo a ir trabalhar de manhã. Vai haver greve dos autocarros, mas eu já estou habituada a andar a pé. Desço a ponte e é num instante. De noite é que não gosto".
(amanhã continuarei o depoimento)
O livro de fotografias artísticas de A. De Lima, editado pela Vantag, está no mercado a interessar quem se interessa pelas coisas belas deste mundo - o que inclui livros feitos com paixão.
O objecto livro é agradável ao olhar e ao tacto e está muito bem organizado com folhas separadoras translúcidas de cores suaves e belos textos que nos fazem reflectir.
As imagens são de pormenores arquitetónicos da cidade, antigos e modernos, de estátuas e de edifícios-monumentos, de linhas de caminho de ferro que levam a sonhos de viagens, e de tunéis e de arcos, de mar e de areais sem fim, de sol e de nuvens, de sombras e de reflexos, de árvores, de folhagem e de flores, de pessoas e de animais numa visão poética e acolhedora.
A autora tem uma visão optimista do mundo em que se integra, não creio que o desenvolvimento e aperfeiçoamento da técnica tenha empobrecido a sua vida interior. Os textos provam-no, neles são nítidos os impulsos e os desejos e a sua capacidade de gozar e de amar o que ama.
"Entre mim e a cidade que eu amo, existe um pacto perpétuo e indissolúvel", diz A. De Lima.
Quer fazer-nos ver com a sua emoção mais do que com os seus olhos.
"Por um momento, só um momento, vê o que eu vejo, sente exactamente o que eu sinto e, por uma vez, apenas uma vez, compreende."
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"Eu fotografo não como vejo, mas como sinto e o mundo nunca me pareceu tão belo e real."
A vida tem muito sentido para a autora, não há nos seus trabalhos fantasias disformes nem frustrações.
O mundo continua organizado e parece previsível. Agrada-lhe viver nele com a sua rotina mas também com a sua maravilhosa diversidade.
Conserva esperança de que, nesse mundo ordenado, os seres humanos possam ter perdido velhos hábitos de hostilidade.
E, com a sua poderosa máquina na mão, sente-se liberta para criar ou para transformar a realidade actual numa outra realidade.
Há umas tantas palavras que estão a ser usadas em política, pelo MEP, Partido Esperança Portugal, que vale a pena ter presentes a todo o momento e os seus conceitos muito vivos no nosso espírito.
Um dos termos mais importantes é DESINSTALAÇÃO face à apatia e à desistência. Não vamos persistir na negatividade, na ideia de crise sem solução, no impossível. Vamos usar a nossa inteligência e todas as nossas capacidades para encontrar solução.
Perguntam-me: vale a pena ou é justo, tem razão de ser, chamar a atenção para os problemas que não têm solução?
Mas que problemas não têm solução?
A morte não tem solução, no sentido de que ninguém escapa à morte, mas há os cuidados paliativos, há a possibilidade de melhorar a qualidade de vida dos doentes. É o que todos querem e podem desejar. Para que servem os medicamentos… quaisquer…? As cirurgias…? As terapêuticas de todo o género? É apenas para adiar o momento da morte inevitável (sem solução), dando-nos conforto e gosto de viver por mais algum tempo. Portanto, todos os problemas que nos surgem terão a sua solução. Que não tem um valor absoluto: é uma solução, digamos, relativa, exactamente o que está ao nosso alcance. É o que pretendemos obter.
Outra palavra é ESPERANÇA num mundo melhor. É uma palavra velha, a novidade é que não vamos ficar à espera que esse mundo nos caia em cima, vamos “arregaçar as mangas”, “lançar mãos à obra”, vamos pesquisar e descobrir o maná, porque “somos capazes de fazer melhor”.
Outra ainda é COESÃO social. “Não deixaremos ninguém para trás”. “Vamos passar e vencer a tempestade juntos”. Vamo-nos ajudar uns aos outros, “cuidar dos mais vulneráveis”, repartir o BOM que tivermos.
O importante não é ter, mas conseguir. Trabalhando com inteligência, com empenho, com persistência, vamos realizar as tarefas difíceis, para melhorar a nossa vida e as dos outros.
Vamos repensar toda a nossa vida.
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