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O depoimento ainda

por Zilda Cardoso, em 09.03.09

 

 

 

Tenho às vezes umas crises, mas tenho que andar. Só conto comigo. O meu marido tem estado desempregado desde que o barco foi ao fundo. Os outros fugiram, um para cada lado, arranjaram outras coisas. Ele ficou... e não tem direito a nada. Ele é o que toma conta das máquinas. Não é fácil para ele, sabe a senhora?

Eu quero é ir p'rá aldeia. Tenho uma pessoa de família que quer que a gente vá tomar conta dos campos. Mas tenho que juntar algum dinheiro. Não é pr'a já.
A mim o que me valeu foi o robalo, senão não tinha nada. Mas eram muitos camaradas no barco do meu marido. Aí é que está! Se fossem menos podia arreceber pr'á í uns duzentos contos. Assim... Mas que lhe hei-de fazer? É como Deus quer.
Agora pr'á semana, ele vai trazer umas sardinhitas secas que não prestam para nada. Às vezes traz carapaus. chega lá juntar quinze quilos de carapaus. Eu dou, pois! Os outros também precisam de comer, como eu. Não vendo nada nem troco. Dou.
Ah, se fosse robalo!
 
Esta é a 2ª parte de um depoimento publicado no jornal O Comércio do Porto há 28 anos. Na 6ªfeira passada, publiquei a 1ª parte, neste blogue, e gostaria de mais opiniões. Na ocasião da primeira publicação, suscitou comentários muito diversos e acalorados dos leitores, e reflexões e conclusões. Depois de todos estes anos, muitas coisas mudaram para as mulheres e para os trabalhadores em geral. Não sei dizer o que aconteceu a esta trabalhadora, ela é para mim um arquétipo.
Estas foram as reflexões e conclusões (muito resumidas) publicadas na mesma página do jornal:
1)      Não está deprimida.
2)      Encontra o lado bom das coisas
3)      Acredita em si própria e respeita-se
4)      Trabalha para que a vida melhore, não espera que melhore
5)      Vence as crises sem agonia
6)      Dirige a sua vida com intensidade de querer e perseverança
7)      Escolhe o que quer… toma a iniciativa
8)      Sacrifica-se para obter o que quer
9)      Não espera que os outros mudem
10)   Nem sempre cede
11)   Não trabalha para obter aprovação… mas porque é assim que se vive
12)   “É como Deus quer”, mas vai fazendo como pensa que Deus quer
 
Tem todas as qualidades para ser uma mulher de sucesso. Aposto na realização do seu projecto. Pergunto:
HÁ ALGUMA COISA QUE SE PAREÇA COM JUSTIÇA?
Tantos anos depois, volto a perguntar se há alguma coisa que se pareça com justiça.

 

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publicado às 10:59

Um depoimento

por Zilda Cardoso, em 06.03.09

 

 

 

Nos passados anos 80, fui responsável por uma página semanal de O Comércio do Porto. Intitulava-se Feminino Singular e tratava de problemas da mulher que nessa época eram muitos mais e mais graves do que os problemas do homem. Quero dizer, havia dificuldades que não eram comuns aos seres humanos a respeito de justiça, e que se consideravam especificamente das mulheres.

Além do meu editorial, de entrevistas e de depoimentos, a página tinha excelente colaboração de juristas, médicas, professoras universitárias, e trazia invariavelmente uma ilustração quase sempre original.

Folheando agora alguns recortes, decidi reproduzir aqui o depoimento de uma trabalhadora e mulher exemplar. O interessante para mim, foi também o ter encontrado pelo menos uma  parte da página elaborada como se de um blogue se tratasse. Há reflexões sobre o depoimento apresentado e ousadas conclusões minhas, além de comentários de leitores fielmente reproduzidos.

 

"A minha casa é uma barraca deste tamanho. Não tem uma janela nem posso abrir a porta. Tenho a luz acesa todo o dia e já preciso de usar óculos.

Trabalho na tia da senhora de manhã. Depois das 2, venho para casa e descanso até às 4. Então faço o trabalho da casa, e bolinhos à noite. Bolinhos de bacalhau p’ra restaurantes e confeitarias. E rissóis. De Verão chego a fazer mil. Trabalho toda a noite. De manhã, vou na mesma p’rás casas.

Nunca durmo mais de quatro horas. E chega. Se dormir quatro, já fico bem. Mas tenho um mal nos rins e, por isso, resolvi não continuar a ir às tardes pr’á outra senhora. Também não gostava nada de estar naquela casa. Nunca havia o preciso para as limpezas. Acabava o pó, sabe. Eu ia e dizia:

Srª Doutora,  já não há detergente.

Então ponha sabão e gaste pouco, ouviu?

E quando o sabão acabava, dizia-me:

Já acabou o sabão…?! Parece impossível!

Eu ficava tão indignada. Dessa vez, respondi:

Olhe Srª Doutora, eu não como o sabão! A minha casa é pobrezinha e eu lá tenho o que preciso para trabalhar.

Estava cheia e nunca mais lá p’raci. Eles são ricos. Têm uma casa que vale milhares de contos.

Agora faço mais bolinhos. Arranjei encomendas p’ra fora. É um serviço leve. Só continuo a ir trabalhar de manhã. Vai haver greve dos autocarros, mas eu já estou habituada a andar a pé. Desço a ponte e é num instante. De noite é que não gosto".

 

(amanhã continuarei o depoimento)

 

 

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publicado às 10:10

AS IMAGENS DA PRIMAVERA

por Zilda Cardoso, em 05.03.09

 

O livro de fotografias artísticas de A. De Lima, editado pela Vantag, está no mercado a interessar quem se interessa pelas  coisas belas deste mundo - o que inclui livros feitos com paixão.

O objecto livro é agradável ao olhar e ao tacto e está muito bem organizado com folhas separadoras translúcidas de cores suaves e belos textos que nos fazem reflectir.

As imagens são de pormenores arquitetónicos da cidade, antigos e modernos, de estátuas e de edifícios-monumentos, de linhas de caminho de ferro que levam a sonhos de viagens, e de tunéis e de arcos, de mar e de areais sem fim, de sol e de nuvens, de sombras e de reflexos, de árvores, de folhagem e de flores, de pessoas e de animais numa visão poética e acolhedora.

 

 

 

 

A autora tem uma visão optimista do mundo em que se integra,  não creio que o desenvolvimento e aperfeiçoamento da técnica tenha empobrecido a sua vida interior. Os textos provam-no, neles são nítidos os impulsos e os desejos e a sua capacidade de gozar e de amar o que ama.

 

"Entre mim e a cidade que eu amo, existe um pacto perpétuo e indissolúvel", diz A. De Lima.

 

Quer fazer-nos ver com a sua emoção mais do que com os seus olhos.

 

"Por um momento, só um momento, vê o que eu vejo, sente exactamente o que eu sinto e, por uma vez, apenas uma vez, compreende."

 .

 


 

 

"Eu fotografo não como vejo, mas como sinto e o mundo nunca me pareceu tão belo e real."

 


 

A vida tem muito sentido para a autora, não há nos seus trabalhos fantasias disformes nem frustrações.

O mundo continua organizado e parece previsível. Agrada-lhe viver nele com a sua rotina mas também com a sua maravilhosa diversidade.

Conserva esperança de que, nesse mundo ordenado, os seres humanos possam ter perdido velhos hábitos de hostilidade.

E, com a sua poderosa máquina na mão, sente-se liberta para criar ou para transformar a realidade actual numa outra realidade.

 

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publicado às 11:07

ÁRDUA ESPERANÇA

por Zilda Cardoso, em 01.03.09


 

 

 

Há umas tantas palavras que estão a ser usadas em política, pelo MEP, Partido Esperança Portugal, que vale a pena ter presentes a todo o momento e os seus conceitos muito vivos no nosso espírito.

Um dos termos mais importantes é DESINSTALAÇÃO face à apatia e à desistência. Não vamos persistir na negatividade, na ideia de crise sem solução, no impossível. Vamos usar a nossa inteligência e todas as nossas capacidades para encontrar solução.

Perguntam-me: vale a pena ou é justo, tem razão de ser, chamar a atenção para os problemas que não têm solução?

Mas que problemas não têm solução?

A morte não tem solução, no sentido de que ninguém escapa à morte, mas há os cuidados paliativos, há a possibilidade de melhorar a qualidade de vida dos doentes. É o que todos querem e podem desejar. Para que servem os medicamentos… quaisquer…? As cirurgias…? As terapêuticas de todo o género? É apenas para adiar o momento da morte inevitável (sem solução), dando-nos conforto e gosto de viver por mais algum tempo. Portanto, todos os problemas que nos surgem terão a sua solução. Que não tem um valor absoluto: é uma solução, digamos, relativa, exactamente o que está ao nosso alcance. É o que pretendemos obter.

 


 

 

Outra palavra é ESPERANÇA num mundo melhor. É uma palavra velha, a novidade é que não vamos ficar à espera que esse mundo nos caia em cima, vamos “arregaçar as mangas”, “lançar mãos à obra”, vamos pesquisar e descobrir o maná, porque “somos capazes de fazer melhor”.

Outra ainda é COESÃO social. “Não deixaremos ninguém para trás”. “Vamos passar e vencer a tempestade juntos”. Vamo-nos ajudar uns aos outros, “cuidar dos mais vulneráveis”, repartir o BOM que tivermos.

O importante não é ter, mas conseguir. Trabalhando com inteligência, com empenho, com persistência, vamos realizar as tarefas difíceis, para melhorar a nossa vida e as dos outros.

 

 

Vamos repensar toda a nossa vida.

 

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publicado às 18:44

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