Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



BIRDS, OH BIRDS!

por Zilda Cardoso, em 08.02.09

Aprecio muito a língua que uso e que é a minha, mas por vezes apetece usar palavras de outra por serem mais expressivas ou soarem melhor, ou por estarem mais próximas do objecto ou do nosso sentimento acerca do objecto. O som da palavra pode ser quase onomatopaico na outra língua e então é irresistível a vontade de a usar.

Gosto da palavra BIRDS. Lembro-me de Hitchcock e do seu famoso filme de 1963 com esse título, baseado num conto de Daphne du Maurier, e que é o melhor dos seus filmes tardios, dizem os especialistas. Tem efeitos especiais novos e originalidades como os sons de fundo que não são música mas gritos de pássaros.

Revi The Birds não há muito tempo, pesquisei e encontrei quase todos os ingredientes tradicionais que fizeram bem sucedidos os filmes do realizador. Neste caso, um bando medonho de pássaros negros de bicos aguçados como armas de ataque, invade em ondas sucessivas uma pequena cidade da beira-mar. Na sua fúria, agridem os habitantes, tentam de forma selvagem entrar nas suas casas, na escola… deixam-nos a escorrer sangue... ou feridos de morte.

 

 

As personagens são incapazes de compreender por que razão estão a ser assaltadas. Os espectadores também ignoram, diferentemente do que acontece nos outros filmes de humor negro e de suspense em que têm conhecimento do que aconteceu ou está a acontecer “por detrás da cortina” e se enervam e receiam porque antecipam a cena.

Aqui a história de mistério, que não tem um fim convencional, presta-se à imaginação. Será pura fantasia ou poderia ter acontecido? Poderiam os pássaros, ter sido enlouquecidos com veneno…? Será vingança da natureza, como alguns alvitram? Ou é uma história simbólica - as pessoas estão isoladas e desgostosas, vulneráveis e logo facilmente são atacadas pelas forças do mal?

Não quero falar de pássaros maus e assassinos, não assim tão negros, gaivotas, presumivelmente.

Estive a desfolhar um pequeno livro sobre BIRDS dos primeiros anos do ensino britânico - encontro sempre novidades em qualquer publicação deste género. Descobri uma ave castanha, mas murcha e sem graça chamada kiwi como o fruto da trepadeira que do mesmo modo não é atraente pelo menos no exterior, e iniciei a procura nos dicionários do nome correspondente em português. Encontrei para kiwi - qualquer ave do género Apterix ,e também quivi; procurando apteryx encontrei - qualquer ave do género Apteryx e também quivi. Fiquei bem elucidada e decidi ficar por aqui.

Acredito naquele livro da 2ª classe que me diz que o kiwi não pode voar porque as suas asas são frágeis. Talvez apterix signifique que não tem asas ou que não pode voar. Vive em buracos durante o dia e à noite sai para caçar as minhocas de que se alimenta (é omnívoro, afinal).

Achei que ele tinha razão para estar triste: com asas e sem poder voar, com estatuto de pássaro e ter de ficar pelos buracos escuros do chão, redondo e mole, sem energia, sem luz… que pode haver pior?

 

 

 

(imagens da Internet)

 

 

 

Isto sou eu: provavelmente o quivi está muito feliz no seu buraco e a devorar minhocas de noite. A sua plumagem fofa e de bela cor castanha dourada, a auréola na cabeça e outras características como o facto de ser fiel ao companheiro por uma larga época, pôr um só ovo por ano, enorme… faz dele um ser especial.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:21

A IMPORTÂNCIA DO SOL

por Zilda Cardoso, em 02.02.09

O meu neto (o que nasceu com este blog) está doente. Será uma gripe daquelas e ele sofre e toda a família com ele. Não posso deixar de pensar que os médicos são umas pestes e não compreendem nada de nada. NADA DE NADA.

E fico a olhar para ele e a não saber como ajudá-lo. Vejo um rosto que desconheço, olhos que não são os dele, antes enormes e verdes e agora pequeninos e estranhos com uma sombra castanha e redonda a toda a volta. Respira mal, tosse de vez em quando, ainda espirra, não liga muito aos brinquedos, fecha os olhos durante um tempo. Perdeu as rosas sobre o branco da sua face.

A mãe tem-no sempre polido, asseado, penteado, aconteça o que acontecer. Na cabeceira da cama, há bonecos amorosos de tecidos suaves, cores a condizer com as do pijama. Os cortinados, as paredes, as roupas de cama, os móveis... tudo cheira bem e, como se diz na gíria, é lindo de morrer.

 

A casa é graciosa, limpa e organizada pela Mariana segundo padrões rigorosos e um gosto moderno e harmonioso. Não é possível abrir uma gaveta ou a porta de um armário e ver algo fora do sítio. Tudo tem o seu lugar segundo a cor, a forma, o material de que se compõe e o fim a que se destina.

Os quartos de banho têm frescos de flores e de paisagens nas paredes e a cozinha combina a maior funcionalidade com uma beleza indiscutível.

O ambiente não está contaminado por excesso de objectos e há uma relação perfeita entre os modernos e os antigos, os que fazem sorrir e os puramente utilitários, os artísticos e os… quais?

É um deleite estar em sua casa, é apaziguante, sabendo embora quanto esta ordem custa a manter sobretudo quando  poucos estão dispostos a contribuir, muito pelo contrário, para haver e poder proporcionar esse prazer e essa serenidade.

É um mundo aparte, novo e cor-de-rosa, permanentemente no primeiro lugar de qualquer quadro de honra rigoroso e justo. Apenas espero que esta ordem se não transforme numa obsessão para a Mariana.

Dou corda aos bonecos que pairam sobre o berço e ouve-se “quand trois poules vont au champ /la première marche devant…” Ele escuta em silêncio, depois dá uma pancada num dos elementos do conjunto e todos rodam – a plêiade de estrelas, o crescente da lua, os ursos abraçados ao patinho feio “for ever friends”. A música pára e ele entusiasma-se por momentos com este mundo que não tem um sol, e também não faz mal – o Sol é uma estrela de “irrelevância cósmica”. Mas existe uma nuvem que eu acharia simpática, branca e risonha, densa de moléculas que o impede de observar as estrelas que estão por trás.

 Visivelmente, o meu novel neto discorda de mim: dá uma forte pancada na lua pálida com olhos azuis e boca de riso, a nuvem gira com ela e as estrelas aparecem no seu horizonte.

Com o entusiasmo vem a tosse e um grito de desgosto.

Sinto pena e interrogo-me: Que será deste cosmos amanhã?

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:44

Pág. 2/2





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D