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Aqueles que andam por aí

por Zilda Cardoso, em 29.11.13

 

Um aniversário em silêncio

 

"As pessoas não morrem: andam por aí. Quantas vezes as sinto à minha volta, não apenas a presença. O cheiro, a cumplicidade silenciosa, palavras que saem da minha boca e me não pertencem, penso

- Não fui eu quem disse isto

E realmente não fui eu quem disse isto, foram as pessoas mortas, exprimem opiniões diferentes das minhas, aproximam-se. Afastam-se, vão-se embora, regressam, não me abandonam nunca. Em que parte da casa moram, qual o lugar onde dormem, devíamos deixar pratos a mais na mesa, talheres, copos, almoço que chegasse, os guardanapos nas argolas, um lugar no sofá, metade do jornal, dado que não se sumiram: andam por aí, invisíveis

(invisíveis?)

densas de humanidade, tão próximas. Umas alturas muitas, outras uma ou duas apenas por terem que fazer noutro lado, no caso de saírem não vale a pena preocuparmo-nos: têm a chave e a prova que têm a chave está em que entram, silenciosas, amigas, penduram os casacos no bengaleiro, sorriem.”

 

Trecho de uma crónica de António Lobo Antunes in "Quinto livro de crónicas"

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publicado às 13:55


6 comentários

De sofia Freudenthal a 29.11.2013 às 15:51

Olá Zilda,
Antes de mais um abraço grande pelo dia de hoje.

Realmente as pessoas não morrem. São apenas outras formas de se relacionarem com os que, aparentemente, estão vivos.
Sim só aparentemente, pois muitas vezes estão mais vivos aqueles que os nossos olhos não vêm, mas sentem, do que os que vimos diariamente mas não sentimos nada.

Como dizia um padre de quem gostei muito de ouvir numa missa de corpo presente. Que sorte os que têm saudades de alguém de alguma coisa. Se assim não for, não temos momentos bons para recordar e que sorte termos muitos momentos bons para recordar, pois também eles, são parte de conseguirmos que as pessoas sejam imortais, ao nosso coração.

De Zilda Cardoso a 29.11.2013 às 17:33

Gostei do que disse e de estar aí a dizê-lo.
E, olhe, acho que ele não está aqui porque tinha que fazer noutro lado, como diz A.L.A. Só por isso. Tinha sempre muito que fazer e o mais extraordinário é que o fazia. Tinha muitas missões, muitos encargos, muitas tarefas, quase só obrigações. Nada de regalias nem de benefícios. Era perfeitamente ascético: não se permitia nenhum prazer.
A verdade é que ele terá sempre um lugar no meu sofá.
Obrigada, Sofia.

De Joana Freudenthal a 30.11.2013 às 01:18

Querida Zilda,

São tão difíceis estas primeiras vezes 'em silêncio'!... O 1º aniversário. O 1º Natal. As 1ªs férias. A 1ª Primavera. ...
Eu sei que são. E tenho-a no meu coração.
Esse lugar no sofá estará sempre reservado.

Deixo-lhe um abraço quentinho.

Joana

P.S. Que bonito era o A.!... Uma brasa...

De Zilda Cardoso a 30.11.2013 às 09:12

Gosto muito dos seus abraços tão quentinhos como sempre, Joana. E aprecio as suas palavras confortáveis, todas.
O Alcino era realmente uma brasa nesse tempo em que jogava golf, como antes tinha jogado tenis e voleibol e tinha sido remador no Club Fluvial...
É ocasião de recordar as suas múltiplas facetas.
Muito obrigada.

De Vicente a 01.12.2013 às 17:11

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira

De Zilda Cardoso a 01.12.2013 às 18:35

De acordo, embora nunca tenha desistido de procurar diferenças: todas as manhãs.
Suicidar-me por 6 meses... é uma ideia.
Ter quem me vele depois... é outra. Igualmente interessante.
Preciso de reler estes poetas solitários.
Obrigada por mos lembrar. Acho que não devia ler senão poesia nesta altura da minha vida.

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