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"Não se deve pôr o coração debaixo de cada palavra"

por Zilda Cardoso, em 27.11.13

Nunca estive apaixonada pelos livros de António Lobo Antunes. Eram originais de mais e davam trabalho a ler e a entender. Que estúpida!

Reconhecia que era um escritor singular, merecedor de todo o reconhecimento internacional, digno do Prémio Nobel e de todos os prémios, difíceis ou impossíveis. Claro que o lia, mas…

Agora estou caidinha pelas suas magníficas crónicas, sou grande entusiasta delas.

É tão interessante o modo como escreve tão inesperado, surpreendente, comovente, tão subtil, tão BOM!

É tão confortável!

Gostava de escrever assim. Não assim, deste modo. Mas assim… de outro, de outro jeito.

Fecho o livro das crónicas e sorrio para o longe horizontal e nítido, azul e azul, observo as ondas que se desfazem e refazem a todo o momento, 

as árvores aqui, o vento que faz dançar as folhas vermelhas nos ramos do Outono...

 Penso nas crónicas.

Ele é tão cheio de referências subtis, de recordações de infância e de juventude, de solidão, de tristeza e de silêncio…

Sabe criar o ambiente que quer com pequenas palavras, semi-dispersas como peças quase soltas de uma organização complicada que eu agora destrinço com prazer. E reconheço. Construo um mundo que pode ou não ser o dele - o que ele quis construir. E dou-lhe um sentido, o meu.

Na verdade, a sua crónica é tão sem sentido como certo bailado clássico em pontas. Quero dizer, é expressiva, carregada de emoções, sem história a contar ou quase sem, muito técnica, ligada à arte e à música (de que raramente fala), admirável. Sugere uma atmosfera, talvez um argumento, um episódio solto, um guião, como se diz (acho uma graça!), como qualquer obra de arte, à sua maneira, e é o que eu vou tentar descobrir. Não com gestos e movimentos do corpo, não com palavras mais ou menos declamadas, não com toques nem com sopros em instrumentos musicais, não com pincel e tela e tinta, não com cinzel e pedra dura ou outro material qualquer como cola e recortes de papel, não com câmaras fotográficas, não... senão com palavras simples, claras e eficazes.

Palavras que são uma estratégia segura.

Permito-me distinguir uma crónica deste quinto livro de crónicas - "Ó pastorinha de vitral e bruma" - em que fala da sua mãe em termos extremamente comoventes, um verdadeiro poema de amor.
 

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publicado às 10:21


2 comentários

De Zilda Cardoso a 28.11.2013 às 07:39

Talvez por isso, talvez não por isso.
Os "romances" nossos contemporâneos, de maneira geral, nao são para compreender facilmente. São para não compreender facilmente.Talvez o ALA esteja nessa onda. Não tenho lido os seus livros recentes, vou corrigir isso. Aprecio coisas difíceis.
Quanto ao prémio NObel... deve obedecer a critérios na onda do incompreensível.
Muito obrigada lo seu comentário.

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